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Maria S. Mendes

Todas as opções desta tradução procuram responder à dinâmica de diálogo que se estabelece entre os dois poemas: se, por um lado, ambos podem parecer à primeira vista formas do mesmo lugar-comum, a síndrome de António Variações, ou “Estou Além”, sendo o segundo, em que uma mulher casada prefere dormir sozinha, uma reacção ou resposta irreverente ao primeiro, em que uma mulher sozinha preferiria dormir acompanhada, na verdade em Jaghanacapalā não há um lamento, pelo contrário.

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One Art

Maria S. Mendes

Um outra, tradução de Miguel Tamen


A outra lousa tem muito ar de mestra

Tantas coisas todas cheias de intenção

Partir a lousa não nos estraga a sesta.


Uma lousa por dia aceita a festa

Parte as chaves e ganha a hora em vão

A outra lousa tem muito ar de mestra.


Pratica, parte a lousa e fá-lo lesta

A praça o nome e a excursão

Ao norte. É pouca a lousa, e é modesta.

Parti a cigarreira e não me resta

Nenhuma das três casas na prisão

A outra lousa tem muito ar de mestra.


Parti duas cidades mera fresta

Do reino, dos dois rios, da contenção

Lamento mas é só coisa modesta.


—Mesmo sem ti (a voz sagaz a gesta

Que estimo) é mesma a minha opinião:

A outra lousa tem muito ar de mestra

Parecendo (escreve lá!) coisa modesta.






“One Art”, Elizabeth Bishop


The art of losing isn’t hard to master;

so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster.


Lose something every day. Accept the fluster

of lost door keys, the hour badly spent.

The art of losing isn’t hard to master.


Then practice losing farther, losing faster:

places, and names, and where it was you meant

to travel. None of these will bring disaster.


I lost my mother’s watch. And look! my last, or

next-to-last, of three loved houses went.

The art of losing isn’t hard to master.


I lost two cities, lovely ones. And, vaster,

some realms I owned, two rivers, a continent.

I miss them, but it wasn’t a disaster.


—Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied.  It’s evident

the art of losing’s not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.


Elizabeth Bishop, The Complete Poems 1927-1979. NY: Farrar, Straus & Giroux, 2008.

© 1979, 1983 Alice Helen Methfessel

Miguel Tamen é professor no Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.   O seu último livro (com António M. Feijó) é A universidade como deve ser (2017).

Lion of Philosophy

Maria S. Mendes


"Lion of Philosophy" (“Tetsugaku no Lion”), Akihiko Shimizu




Lion is fond of "Philosophy".



That's because Snail kindly told him that a lion is King of Beasts who should look philosophical.



Today Lion thought he would be "philosophical".



He thought that this philosophy thing would seem better when one contrives a way to sit, so he sat on his belly with his tail curled to the right, and placed his paws on top of each other.



He then stretched his neck, and looked up to the right. This is a better way, judging from the way the tail is curled. If the tail goes right and the face goes left, he would end up looking spoony.



Beyond where Lion’s face was pointed to, there were miles of fields, with one lone tree standing.



Lion stared at the branches of the tree. The leaves on the branches swayed in the wind. Lion's mane also swayed from time to time.



(I wish somebody would come. When they ask me "What are you doing?", I will reply, "I'm doing philosophy".)



Lion stayed still, watching in the corner of his eye if somebody would come, but nobody came.



The dusk had fallen. Lion had stiff shoulders and he became hungry.



(Philosophy gives me stiff shoulders. When I'm hungry, philosophy is no good.)



He thought he'd finish with "philosophy" for today, and go over to Snail.



"Hi Snail. I was philosophy today."



"Hi Lion. That's great to hear. And how was it?"



"Yeah, it was like this."



Lion showed him how he was when he did philosophy.



Just like a few moments ago, he stretched his neck and looked up to the right, and then there was the sunset sky.



"Oh how wonderful it is! Lion, your philosophy is so beautiful and so magnificent!"



"Really? You said what? Could you tell me that again?"



"Sure, so beautiful and so magnificent!"



"Really? My philosophy is so beautiful and so magnificent? Thank you, Snail."



Lion forgot all about his stiff shoulders and hunger, and in a standstill, he has become philosophy.



Kudo Naoko, “Lion of Philosophy (Tetsugaku no Lion),” Tetsugaku no Lion. Tokyo: Risosha, 1982.



Akihiko Shimizu ensina Japonês na Universidade de Edinburgo. Há alguns anos, Aki tropeçou num epigrama de três versos de Jonson, achou-o tão misterioso que decidiu tentar perceber de que raio trata o poema. Acabou por escrever uma tese de doutoramento sobre o autor. 

Oração Punk

Maria S. Mendes

"Богородица, Путина прогони", Pussy Riot



Богородица, Дево, Путина прогони

Путина прогони, Путина прогони

(конец хора)


Черная ряса, золотые погоны

Все прихожане ползут на поклоны

Призрак свободы на небесах

Гей-прайд отправлен в Сибирь в кандалах

Глава КГБ, их главный святой

Ведет протестующих в СИЗО под конвой

Чтобы Святейшего не оскорбить

Женщинам нужно рожать и любить


Срань, срань, срань Господня

Срань, срань, срань Господня 



Богородица, Дево, стань феминисткой

Стань феминисткой, феминисткой стань

(конец хора)


Церковная хвала прогнивших воджей

Крестный ход из черных лимузинов

В школу к тебе собирается проповедник

Иди на урок – принеси ему денег!

Патриарх Гундяй верит в Путина

Лучше бы в Бога, сука, верил

Пояс девы не заменит митингов -

На протестах с нами Приснодева Мария!



Богородица, Дево, Путина прогони

Путина прогони, Путина прогони

(конец хора)


Oração Punk, tradução Ana Matoso


"Virgem, livra-nos de Putin" 



Virgem Maria, livra-nos de Putin,

livra-nos de Putin, livra-nos de Putin

(fim do coro)


Vestes negras, dragonas douradas

Os paroquianos rastejam em reverência

O fantasma da liberdade [foi para] o céu

A parada gay enviada para a Sibéria em grilhões

O líder da KGB [é] o seu santo principal

Conduz os manifestantes para a prisão

Para Sua Santidade não ofender

As mulheres devem parir e amar


Merda, merda, merda de Deus

Merda, merda, merda de Deus



Virgem Maria, Mãe de Deus, torna-te feminista,

torna-te feminista, feminista torna-te

(fim do coro)


A igreja reverencia líderes podres,

a procissão da cruz das limusinas pretas

Na escola, vem um pregador

vão para a aula – tragam-lhe dinheiro!

O patriarca Gundiai[1] acredita em Putin

Melhor que acreditasse, sacana, em Deus

O cinturão da virgem não substitui comícios

A Virgem Maria connosco está nos protestos!



Virgem Maria, livra-nos de Putin,

livra-nos de Putin, livra-nos de Putin

(fim do coro)



[1] Referência pouco velada ao Patriarca, ao apelido de Kirill Gundaev. 



Ana Matoso dedica-se agora ao ensino e à tradução. Os primeiros poemas que a marcaram foram traduções dos anos 50 dos poetas românticos ingleses, franceses e alemães. A sua divisa tornou-se, impenitentemente, “quanto mais poético mais verdadeiro”. Passou ao mesmo tempo por uma febre de Sophia de Mello Breyner Andresen, seguida da de Fernando Pessoa e Rilke. Ficou assombrada pelo que Philip Larkin designou de “a Ford-car view of literature”, e desconfia por princípio de manuais de instrução literária. Abandonou o culto da poesia, e começou a interessar-se por outras coisas da vida. Gostava muito de ler um novo livro de António Franco Alexandre.

Canções dos não amados

Maria S. Mendes

Canções dos não amados, tradução Rui Arantes


Canções dos não amados.

Canções dos que foram atirados fora.

Dos que foram enterrados sem nome.

Dos que foram aprisionados na noite.

Canções dos que foram excluídos das listas.

Canções dos que foram encarcerados no gelo.

Canções dos que já não são necessários

Ouve-se, não pára.


Nós temos uma boa escola -

De receber lume de cobras em chamas;

De arrancar o nosso coração fora,

Para nos tornarmos ainda mais maldosos.

Manter a cabeça debaixo de água,

Não deixar respirar;

E quebrar a lâmina depois do golpe

Porque Deus está connosco.


Pisa o copo,

Se ele foi bebido;

Com a corda ao pescoço,

Com as tuas coisas vai-te embora.

Senhor, confidencia-me

Os segredos da existência;

Olhe-me nos olhos,

e diga que esta é a Sua vontade.


Pode esperar-se pelo sol muito tempo,

Olhando cegamente para o zénite;

Nós tínhamos um sino de cristal dentro de nós.

Ele foi pisado, e não se ouvirá novamente.

Esta música é mais antiga que o mundo;

Ela é ridícula e risível;

Mas eu vou dançar com ela.

Mesmo que ela não seja audível.


Alma carinhosa –

Vestido de ferro.

Sangue na areia –

Todas as pessoas são irmãs.

Eu já não preciso dos teus

segredos da existência.

Olha-me apenas nos olhos

e diga que esta é a Sua vontade.

Песни нелюбимых


Песни нелюбимых.

Песни выброшенных прочь.

Похороненных без имени.

Замурованных в ночь.

Песни вычеркнутых из списков.

Песни саженых на лёд.

Песня больше не нужных

Звучит, не перестаёт.


У нас хорошая школа -

Прикуривать от горящих змей;

Вырвать самому себе сердце,

Чтобы стать ещё злей.

Держать голову под водой,

Не давать делать вдох;

И обламывать лезвие после удара

Потому что с нами Бог.


Наступи на стакан,

Если он выпит;

Голову в петлю,

И с вещами на выход.

Господи, открой мне

Тайны бытия;

Посмотри мне в глаза

И скажи, что это воля Твоя.


Можно долго ждать солнца,

Глядя слепыми глазами в зенит;

У нас внутри был хрустальный колокольчик.

На него наступили, он больше не звенит.

Эта музыка старее, чем мир;

Она нелепа и смешна;

Но я буду танцевать под неё,

Даже если она не слышна.


Ласковой душе -

Железное платье.

Кровью на песке -

Все люди братья.

Мне больше не нужны Твои

Тайны бытия.

Просто посмотри мне в глаза

И скажи, что это воля Твоя.


Boris Grebenshchikov, Песни нелюбимых, 2016.

Rui Arantes é jurista e advogado. Não chegou ainda ao ponto de ter abandonado os romances em prol da poesia.

The Space of the Mandarin Duck

Maria S. Mendes

O Lugar do Pato Mandarimtradução de João Paulo Esteves da Silva



Ao que parece, no Japão

Aqui há cento e cinquenta anos

A língua amorosa da França

Era tida por chocante.


Tão descarada, tão presumida, tão brutal

A sua violação da atmosfera

Apropriada a uma pessoa.


Eu quero, diziam no Japão,

Esse lugar do pato mandarim,

Aí, junto a ti, ao teu lado.


O pato liminar deliciava-se

Desenvolto enquanto alcoviteiro.

Afastava-se num soslaio terno.


Lugar vazio sem nada,

Meu caro pato, mesmo sem ninguém

E longe, muito longe de outra gente,

Ainda quero o teu lugar.


Que venha o dia em que uma salva dos teus grasnos

Corte o piado aos vândalos da fala

E cale a boca aos de falinhas mansas

Cuja voz engruma com dinheiro e ódio.

The Space of the Mandarin Duck, Christopher Middleton



Apparently in Japan

One century and a half ago

The love-language of France

Was thought to be shocking.


So blatant, so presumptuous, so brutal                                    

Its violation of the atmosphere

Proper to every person.


I covet, they said in Japan,

The space of the mandarin duck,

There, at your side, beside you.                                    


The liminal duck took delight

Breezily as a go-between.

Tender obliquity saw it off.


A space with nothing there,

Dear old duck, even unaccompanied                       

And far, far away from others,

Still your space I covet.


Come the day when a volley of your quacks

Quells every twittering vandal of speech

And unspeaks the sweet-talker                    

Whose voice curdles with money and hate.


João Paulo Esteves da Silva (músico, tradutor, poeta). A relação da vida com a poesia divide-se, de facto, em quatro fases. Dos quatro aos 10 anos, fazia versos para diversão da família e visitas, sentindo nestas exibições uma vergonha só comparável à exibição pública forçada das partes genitais. Dos dez aos vinte, descobriu as estratégias e os engenhos que lhe permitiam esconder-se atrás da linguagem e escrever textos surrealistas ou "nonsensicos" onde ninguém o poderia apanhar despido e de emoções à vista. Dos vinte aos trinta entrou num buraco negro à procura da música perdida, pelo que não escreveu uma única linha. Dos trinta em diante, após ter encontrado uma passagem entre a música e a linguagem, vem escrevendo poesia de forma obsessiva, com cada vez menos vergonha, tentando equilibrar o engenho e a nudez emotiva. 

A Poem for Painters

Maria S. Mendes

A Poem for Painters, John Wieners



Our age bereft of nobility

        How can our faces show it?

I look for love.

        My lips stand out

dry and cracked with want

                                     of it.

                                    Oh it is well.

My poem shall show the need for it.


                        Again we go driven by forces

       we have no control over. Only

                                                    in the poem

      comes an image that we rule

                      the line by the pen

in the painter’s hand one foot 

                              away from me.


                              Drawing the face

                              and its torture.

That is why no one dares tackle it.

                    Held as they are in the hands

                                of forces they

                    cannot understand.

                                                       That despair

        is on my face and shall show

        in the fine lines of any man.


I had love once in the palm of my hand.

See the lines there.

                                      How we played

its game, are playing now

in the bounds of white and heartless fields.


Fall down on my head, love,

drench my flesh in the streams 

                                of fine sprays. Like

                                       French perfume

so that I light up as

                                     mountain glorys

and I am showered by the scent

                          of the finished line.


                                             No circles

                       but that two parallels do cross

And carry our souls and bodies

       together as the planets,

                     Showing light on the surface

                            of our skin, knowing

                     that so much of it flows through

                           the veins underneath.

                     Our cheeks puffed with it.

                           The pockets full.





Pushed on by the incompletion

              of what goes before me

I hesitate before this paper

              scratching for the right words.


Paul Klee scratched for seven years

              on smoked glass, to develop

              his line, LaVigne says, look

at his face! he who has spent 

             all night drawing mine.


       The sun also

rises on the rooftops, beginning

w/ violet. I begin in blue

knowing why we are cool.





My middle name is Joseph and I

walk beside an ass on the way to what

Bethlehem, where a new babe is born.


       Not the second hand of Yeats but 

       first prints on a cloudy windowpane.


America, you boil over





       The cauldron scalds.

       Flesh is scarred. 

       Eyes shot.


       The street aswarm with 

       vipers and heavy armed bandits.

       There are bandages on the wounds

       but blood flows unabated. The bath-

       rooms are full. Oh stop up

                                                      the drains.

                              We are run over.





Let me ramble here.

yet stay within my own yardlines.

I go out of bounds

            without defense,

oh attack.





   At last the game is over

                                             and the line lengthens.

   Let us stay with what we know.


That love is my strength, that

I am overpowered by it:


                                                  that too

is on the face: gone stale.

When green was the bed my love

and I laid down upon.

Such it is, heart’s complaint,

You hear upon a day in June.

And I see no end in view

when summer goes, as it will,

upon the roads, like singing

companions across the land.


Go with it man, if you must, 

but leave us markers on your way.


South of Mission, Seattle,

over the Sierra Mountains,

the Middle West and Michigan,

moving east again, easy

coming into Chicago and

the cattle country, calling

to each other over canyons,

careful not to be caught

at night, they are still out,

the destroyers, and down

into the South, familiar land,

lush places, blue mountains

of Carolina, into Black Mountain

and you can sleep out, or

straight across into States


I cannot think of their names.


This nation is so large, like

our hands, our love it lives

with no lover, looking only

for the beloved, back home

into the heart, New York,

New England, Vermont green

mountains, and Massachusetts

my city, Boston and the sea.

Again to smell what this calm

ocean cannot tell us. The seasons.

Only the heart remembers

and records in words

of works

we lay down for those men

who can come to them.





At last. I come to the last defense.


My poems contain no 

                      wilde beestes, no

lady of the lake music

of the spheres, or organ chants,


yet by these lines

I betray what little given me.


One needs no defense.


             Only the score of a man’s

             struggle to staywith

             what is his own, what

             lies within him to do.


             Without which is nothing,

             for him or those who hear him

             And I come to this,

             knowing the waste, leaving 


             the rest up to love

             and its twisted faces

             my hands claw out at

             only to draw back from the

             blood already running there.


             Oh come back, whatever heart

             you have left. It is my life

             you save. The poem is done.


John Wieners, Selected poems, 1958-1984. S.l.: Black Sparrow Books, 1986. 

© John Wieners. 

Um poema para Pintores, tradução de Miguel Cardoso



A nossa era carecida de nobreza

                  Como podem as nossas caras mostrá-la?

Busco o amor.

                  Os meus lábios sobressaem

secos e gretados pela falta


                                    Ah tudo está bem.

O meu poema mostrará a falta que faz.


         Lá vamos de novo levados por forças

que não controlamos. Só

                                                      no poema

surge uma imagem que governamos

                                    a linha pela caneta

na mão do pintor um pé

                                    arredado de mim.


                                    Desenha-se a cara

                                    e a sua tortura.

Eis porque ninguém se lança a domá-lo.

                         Amarrados que estão pelas mãos

                                                      de forças que

                                    não compreendem.

                                                            Que o desespero

      está-me na cara e há de revelar-se

      nas mais leves linhas de cada homem.


Tive o amor uma vez na palma da mão.

Vê estas linhas aqui.

                                    Como jogámos

o seu jogo, jogamo-lo agora

cercados de impiedosos campos brancos.


Desaba sobre a minha cabeça, amor,

Empapa-me a carne na corrente

                                    de ligeiros borrifos. Como

                                                      perfume francês

para que eu me ilumine como

              um halo de luz por trás de uma montanha

e seja regado pela fragância

                  da linha acabada.


                                    Círculos não

                  mas que duas paralelas se encontrem

E nos levem as almas e os corpos

     acoplados como planetas,

                  A sua luz visível à superfície

                       da nossa pele, sabendo

                  que tanto dela corre

                       pelas veias lá por baixo.

As nossas bochechas cheias dele.

                  Os bolsos a abarrotar.




Empurrado para diante pela incompletude

                  do que decorre à minha frente

hesito perante a folha de papel

                  arranho até às palavras certas.


Paul Klee arranhou sete anos a fio

                  um vidro fosco até chegar

                  à sua linha, diz-nos LaVigne, vê

bem a cara dele! ele que levou

                  uma noite inteira a desenhar a minha.


                  Também o sol

sobe sobre os telhados, começando

c/ o violeta. Eu começo em azul

pois sei por que entre nós tudo claro




O meu segundo nome é José e

ao lado de um burro caminho para onde

Belém, onde nasceu mais um menino.


                  Não a segunda mão de Yeats mas

primeiras impressões no vidro embaciado.


América, ferves, transbordas, tu.






                  O caldeirão queima.

                  A carne calcinada.

                  Olhos em sangue.


                  A rua fervilha com

                  víboras e bandidos armados até aos dentes.

                  Ligaduras cobrem as feridas

                  mas imperturbável corre o sangue. As casas

                  de banho cheias. Ah vedem

                                                      as sarjetas.

                                    Estamos a ser invadidos.





Deixem-me vaguear por aqui.

Contudo sem pôr o pé para lá da minha pequena área.

Piso fora das linhas

                  sem defesa,

ah ataque.




O jogo acabou por fim

                                                      e a linha estende-se.


Fiquemo-nos pelo que conhecemos.

Que o amor é a minha força, que

por ele sou subjugado:

                                                      O desejo

                                                                        também isso

está na cara: passou do prazo.

Quando verde era a cama onde o meu amor

e eu nos deitávamos.

Assim é, o queixume do coração

que se ouve num dia de Junho.

E não vejo o fim à vista

quando vai o Verão, e há de ir,

pelas estradas, a cantar

companheiros terra afora.


Deixa-te ir, pois, se tiver de ser,

mas deixa-nos pistas pelo caminho.


A sul de Mission, Seattle,

para lá das Sierra Mountains,

o Middle West e o Michigan,

movendo-se de novo para leste,

chegando num pulo a Chicago e

às terras do gado, chamando

uns pelos outros de um lado ao outro de falésias,

cuidando de não serem apanhados

de noite, andam por aí, à solta, ainda,

os destruidores, e depois desce

para o Sul, por terra antes trilhada,

lugares verdejantes, as montanhas azuis

da Carolina, até Black Mountain

e aí podes dormir ao relento, ou

ir direito aos estados


Escapam-me agora os seus nomes.


Esta nação é tão vasta, como

são as nossas mãos, o nosso amor

vive sem amante, somente na procura

do amado, retorna a casa, ao

interior do coração, Nova Iorque,

New England, verdes montanhas

de Vermont, e Massachusetts,

a minha cidade, Boston e o mar

de novo cheirar aquilo que o sereno

oceano não nos sabe explicar. As estações.

Só o coração se lembra

e regista nas palavras

das obras

que deixamos para os homens

que a elas um dia poderão chegar





Finalmente. Chego à defesa final.


Os meus poemas não contêm nem

                  brutas feras, nem

da Dama do Lago a música

das esferas, nem cantos de órgão,


contudo nestas linhas traio

quão pouco me foi dado.


Dispensa-se a defesa. 


Apenas o balanço do esforço

                  de um homem para que fique

                  com o que é dele, o que

                  nele há a fazer.


Sem o qual nada é,

para si e quem o ouve.


E eis ao que cheguei,

ciente do desperdício, deixando

o resto ao amor

e às suas caras tortuosas

a que as minhas mãos deitam as unhas

para logo recuarem perante

o sangue que nelas escorre.


Ah volta, se algum coração

te sobra. É a minha vida

que salvas. O poema está acabado. 

Miguel Cardoso vive em Lisboa. Ensina, traduz. Escreve em longos problemas respiratórios. À noite lê Albas e Ruy Belo. A poesia é para esperar por manhãs seguintes. Às terças e sábados levanta-se. Vai à Feira da Ladra.  

The Rains of Castamere

Maria S. Mendes

The rains of Castamere, George R. R. Martin


And who are you, the proud lord said, 

that I must bow so low?

Only a cat of a different coat,

that’s all the truth I know.

In a coat of gold or a coat of red,

a lion still has claws,

And mine are long and sharp, my lord,

as long and sharp as yours.

And so he spoke, and so he spoke,

that lord of Castamere,

But now the rains weep o’er his hall,

with no one there to hear.

Yes now the rains weep o’er his hall,

and not a soul to hear.


George R. R. Martin, “The Rains of Castamere”, A Storm of Swords. 

New York: Bantam Books, 2000.

As chuvas de Castamere, tradução Nuno Amado


E quem sois vós, interrogou o lorde orgulhoso,

     p’ra que tenha de curvar-me tanto?

Apenas um gato de pêlo diferente,

     eis tudo o que sabendo garanto.

Tenha o leão o pêlo dourado ou o pêlo rubro,

     das garras sempre se faz valer,

E as minhas são grandes e afiadas, meu lorde,

     tanto como as vossas mostrais ter.

E assim tal e qual disse, e assim tal e qual disse,

     aquele lorde de Castamere,

E agora as chuvas pingam sobre os seus salões,

     não havendo lá quem possa ouvir.

Sim, agora as chuvas pingam sobre os seus salões,

     e nem vivalma que possa ouvir.

Nuno Amado é professor na Universidade Católica Portuguesa e escreveu uma tese sobre Ricardo Reis. Nunca aconselhou um poema a ninguém, mas admite abrir uma excepção quando descobrir um que possa ajudar as pessoas a serem mais felizes.

Vários Emily Dickinson

Maria S. Mendes

Emily Dickinson


I heard a Fly buzz— when I died—

The Stillness in the Room

Was like the Stillness in the Air—

Between the Heaves of Storm—


The Eyes around— had wrung them dry—

And Breaths were gathering firm

For that last Onset— when the King

Be witnessed— in the Room—


I willed my Keepsakes— Signed away

What portion of me be

Assignable— and then it was

There interposed a Fly—


With Blue— uncertain— stumbling

Buzz—Between the light— and me—

And then the Windows failed— and then

I could not see to see—




Of Course—I prayed—



Of Course—I prayed—

And did God Care?

He cared as much as on the Air

A Bird—had stamped her foot—

And cried "Give Me"—

My Reason—Life—

I had not had—but for Yourself—

'Twere better Charity

To leave me in the Atom's Tomb—

Merry, and Nought, and gay, and numb—

Than this smart Misery.




They shut me up in Prose—


They shut me up in Prose—

As when a little Girl

They put me in the Closet—

Because they liked me "still"— 


Still! Could themself have peeped—

And seen my Brain—go round— They

might as wise have lodged a Bird For

Treason—in the Pound— 


Himself has but to will

And easy as a Star

Abolish his Captivity—

And laugh—No more have I—




“Hope” is the thing with feathers—


“Hope” is the thing with feathers—

That perches in the soul—

And sings the tune without the words—

And never stops—at all—


And sweetest—in the Gale—is heard—

And sore must be the storm—

That could abash the little Bird

That kept so many warm—


I’ve heard it in the chillest land—

And on the strangest Sea—

Yet—never—in Extremity,

It asked a crumb—of me.

Tradução de Margarida Vale de Gato


Zumbiu a Varejeira— quando morri

Nesse sereno Quarto

Como sereno é o Ar

Entre os Capelos do Mar —


Enxutos os Cabos — dos Olhos em roda

E suspensos os Fôlegos

Para o último Ato — entrado

Entre os mais — o Rei no Quarto —


Doei minhas Lembranças — assinei

O que de mim se usa

Em Rubrica— e nisto meteu-se

A Varejeira intrusa


Zumbindo azul ­— incerta — instante

Entre eu e a Luz — a estremecer —

Cessando as Janelas então — e eu

Não pude ver para ver —


I heard a fly buzz —




Mas Claro— Eu rezei—

E a Deus acaso importou?

Tanto como se lá no Céu

Um Pássaro— batesse o pé—

E gritasse “Dá Cá”—

A minha Razão— a Vida—

Não a tive— senão por Ti—

Mais Caridoso seria

Deixar-me na Tumba do Átomo—

Contente, e Nada, e álacre e Muda

Do que esta vistosa Miséria.




Trancaram-me na Prosa—

Como quando, uma Garota,

Me castigavam no Quarto—

Por me quererem “sossegada”—


Ora! Pudessem eles espreitar—

O meu Cérebro— andar à volta—

Tanto valia encurralarem

Um Pássaro— por Trespasse—


Ele só tem de querer

E com ligeireza de estrela

Abolir seu Cativeiro—

E rir— O mesmo a mim me basta—





A "Esperança" é a coisa com penas—

Que na alma se empoleira—

E canta uma cantiga sem palavras—

E nunca pára— a vida inteira—


E mais doce— na Tormenta— a ouvimos—

E precisava o vento ser sandeu—

Para afligir a Avezinha

Que a tantos aqueceu—


Ouvi-a na mais fria terra—

E no mais estranho mar—

Mas nem no Cabo mais Extreme

Me veio uma côdea esmolar

Margarida Vale de Gato está numa relação aberta com a poesia. É tradutora literária, professora e investigadora na FLUL, nas áreas de Estudos Norte-Americanos e Tradução Literária. Tem publicado ensaios e livros, principalmente sobre Edgar Allan Poe. Publicou poemas em revistas e antologias de repercussões homeopáticas, e os livros Lançamento (Douda Correria, 2016) e Mulher ao Mar (Mariposa Azual, 2010), que já teve uma edição aumentada (2013) e terá futuras.

XIII, you said Is, e.e. cummings

Maria S. Mendes

XIII, you said Is, e. e. cummings



you said Is

there anything which

is dead or alive more beautiful

than my body, to have in your fingers

(trembling ever so little)?

                           Looking into

your eyes Nothing, i said, except the

air of spring smelling of never and forever.


... and through the lattice which moved as

if a hand is touched by a


moved as though

fingers touch a girl's



        Do you believe in always, the wind

said to the rain

I am too busy with

my flowers to believe, the rain answered




XIII, disseste Existe, tradução de Ana Castro



disseste   Existe

alguma coisa

viva ou morta mais bela

que o meu corpo, para tomares nos teus dedos

(quase tremendo)?


nos olhos  Nada, respondi, excepto

a brisa da primavera cheirando a nunca e para sempre.


… e através da persiana que vibrava como

mão tocada por outra

mão (que

vibrava como

dedos tocam

o seio

de uma menina,


         Acreditas em sempre, o vento

disse à chuva

Eu estou muito ocupada com

as minhas flores para acreditar, respondeu a chuva.


Ana Castro tinha 10 anos no 25 de Abril. Trabalha nas obras.