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Vários, Wendy Cope

Traduções

Vários, Wendy Cope

Nuno Amado

Evidence, Wendy Cope

 

“A great deal of anecdotal evidence suggests

That we respond positively to birdsong.”

—scientific researcher, Daily Telegraph, 8 February 2012

 

Centuries of English verse

Suggest the selfsame thing:

A negative response is rare

When birds are heard to sing.

 

What’s the use of poetry?

You ask. Well, here’s a start:

It’s anecdotal evidence

About the human heart.

Testemunhos, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

“Inúmeros testemunhos sugerem que o ser humano

reage positivamente ao canto dos pássaros.”

Investigador científico, Daily Telegraph, 8 de Fevereiro de 2012

 

Séculos de poesia inglesa

Têm exactamente o mesmo a sugerir:

É rara uma reacção negativa

Quando os pássaros dão o seu canto a ouvir.

 

Para que serve a poesia?

Perguntas. Eis a primeira lição:

Serve de testemunho

Sobre o nosso coração.


The Damage to the Piano, Wendy Cope

 

You can barely see

the damage to the piano

where the new bookcase knocked it,

but all hell would break loose

if my mother were here.

 

I sit for several minutes,

pondering the silence

where I am cast adrift

with all this furniture

and no-one to tell me off.

Os estragos no piano, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

Mal se conseguem ver

Os estragos no piano

Onde a nova estante lhe bateu.

Mas o diabo andaria à solta

Se a minha mãe estivesse aqui.

 

Sento-me vários minutos

a ponderar o silêncio

onde estou lançada à deriva

com toda esta mobília

e ninguém para me ralhar.


Absent Friends, Wendy Cope

 

‘The ones we remember are those linked

with things we do all the time’

—Katharine Whitehorn

 

Roz

 

My school friend Roz, who died twenty years ago,

pulled her cardigan down at the back

every time she stood up and crossed a room.

 

Whenever I glance in a mirror

and see that my cardigan has ridden up

I remember Roz.

 

She was my rival in English.

The teachers were so impressed

by her passion for Tolkien

that I didn’t read The Lord of the Rings

until I was fifty-five.

Amigos ausentes, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

«Aqueles que recordamos são os que estão ligados

A coisas que estamos sempre a fazer»

Katharine Whitehorn

 

Roz

 

Roz, a minha amiga da escola, que morreu há vinte anos,

Puxava para baixo as costas do casaco

Sempre que se levantava e atravessava a sala.

 

Sempre que olho de relance para um espelho

E reparo que o casaco subiu

Lembro-me da Roz.

 

Era a minha rival a Inglês.

Os professores ficaram tão impressionados

pela paixão que ela tinha por Tolkien

que até aos cinquenta e cinco anos

eu não li O Senhor Dos Anéis.


Julia, Wendy Cope

 

I

 

Julia, dear Julia,

taught me, one afternoon

in a shop in Chislehurst,

how to choose a card.

«That one is too vulgar.

This one is too sweet.»

 

She’s dead now

but her taste lives on.

I never buy a birthday or

a Christmas card

without asking myself

if she would aprove.

 

2

 

She rang me in the holidays

and told me she was doing

a chapter of Caesar every day.

I followed her example

And passed the exam.

 

The last time I saw her

she was dying, bravely,

of motor neurone disease.

She couldn’t speak. She wrote notes

that made us laugh.

 

That’s an example

I may have to follow one day —

harder than translating Caesar,

but, if I think of Julia,

perhaps I’ll pass the test.

Julia, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

I

 

Julia, a querida Julia

ensinou-me, uma tarde

numa loja em Chislehurst

como escolher um cartão.

«Esse é muito vulgar.

Este é muito meloso.»

 

Ela morreu

mas o gosto dela perdura.

Nunca compro um cartão

de aniversário ou de Natal

sem me perguntar

se ela aprovaria.

 

2

 

Ela telefonou-me nas férias

e disse-me que traduzia

um capítulo de César todos os dias.

Segui-lhe o exemplo

e passei no exame.

 

Da última vez que a vi

ela morria, corajosamente,

de uma doença neurológica.

Não conseguia falar. Escrevia notas

Que nos faziam rir.

 

Eis um exemplo

de que posso precisar um dia…

mais difícil do que traduzir César,

mas, se pensar na Julia,

talvez passe no teste.


1972, Wendy Cope

 

It was the year

of the hippy librarians from Islington.

My flatmate met hers first

and I got off with his friend.

 

They had beards. They smoked dope.

They were very alternative.

Mine gave me a copy

of Vedanta for the Western World

 

I wore long Indian dresses

and tried to like the smell of joss sticks.

In August we sat in bed

and watched the Olympics, stoned.

 

Late that year I went into analysis

Freud didn’t get along

with the hippy boyfriend.

We drifted apart.

 

It was fun, some of the time

while it lasted. You could say that,

I suppose, about most years,

about most lives.

1972, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

Foi o ano

dos bibliotecários hippies de Islington.

A minha colega conheceu um primeiro

E eu saí com o amigo dele.

 

Usavam barba. Fumavam erva.

Eram muito alternativos.

O meu deu-me um exemplar

dos Vedanta para o Mundo Ocidental.

 

Eu usava longos vestidos indianos

e tentava gostar do cheiro a paus de incenso…

Em Agosto ficámos sentados na cama

a ver os Jogos Olímpicos, pedrados.

 

Mais tarde, nesse ano, fui fazer análise

Freud não se deu bem

com o namorado hippy.

Afastámo-nos.

 

Foi divertido, uma parte do tempo,

enquanto durou. Poderíamos dizer o mesmo,

suponho, da maioria dos anos,

da maioria das vidas.


Memorial, Wendy Cope

 

When I got home from Aunty Bob’s funeral

I began to write a poem about her

but the man I was in love with phoned

and asked me out. I abandoned the poem

and never went back to it.

 

Miss Tucker. That was what they called her

in the shop. She was in charge

of haberdashery. Customers noticed

that she got on well with Mr Cartwright

of men’s outfitting. A match, perhaps?

 

They had been married to each other

for years. He was Uncle Maurice,

a veteran of World War I, who never

mentioned it except to tell us, with a laugh,

that they all said ‘Wipers’ instead of ‘Ypres’

 

They laughed a lot, those two.

He recited comic monologues

As a party turn — ‘Yon Lion’s et Albert’ —

And taught my sister to play pontoon.

Mummy wasn’t happy about that.

 

They loved me and were always kind

I loved them too. So, here’s a small

memorial, three decades overdue.

The man who phoned? That didn’t work out.

I wrote a dozen poems about him

Wendy Cope, Anedoctal Evidence. London: Faber&Faber, 2018.

Memorial, tradução de Ana Maria Pereirinha

 

Quando voltei do funeral da tia Bob

comecei um poema sobre ela

mas o homem que eu amava telefonou

e convidou-me para sair. Abandonei o poema

e nunca mais lhe peguei.

 

Miss Tucker. Era assim que lhe chamavam

na loja. Era a encarregada

dos acessórios masculinos. Os clientes notaram

que ela se dava bem com Mr. Cartwright

da secção de homens. Uma boa combinação, quem sabe?

 

Estavam casados um com o outro

há anos. Ele era o Tio Maurice,

um veterano da Primeira Guerra que nunca

falava dela a não ser para contar, com uma gargalhada,

que todos diziam «Chifres», em vez de «Ypres».

 

Riam imenso, aqueles dois.

Ele recitava monólogos cómicos

Para animar as festas: Yon Lion e Albert

E ensinou a minha irmã a jogar ao vinte-e-um

A mamã não gostou nada.

 

Adoravam-me e eram sempre queridos,

Uma coisa de que eu fazia caso. Eis, pois, um pequeno

memorial, com 30 anos de atraso.

O homem que telefonou? Não deu em nada.

Dediquei-lhe uma dúzia de poemas.


Ana Maria Pereirinha trabalha em edição, é tradutora e doutoranda no Programa em Teoria da Literatura (FLUL). A sua relação com a poesia começou no jardim de infância, como slammer avant-la-lettre de grande sucesso, a rimar sobre marmelada e chocolate.