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Poemas de antes

Pequeno áster

joana meirim

O talho não fica bem à poesia – esta assunção é tão evidente que nos esquecemos de a questionar (o que nos coloca imediatamente fora da poesia, sendo o questionamento das evidências gesto poético por excelência), excluindo dos nossos horizontes de versos não apenas o cheiro do sangue e o martírio do bife, mas todos aqueles rituais complicados de manipulação alimentar e técnica da morte que fazem a fortuna dos policiais narrativos e televisivos, inexoravelmente seriais.

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Le ciel est par-dessus le toit

joana meirim

O sortilégio deste poema vem do seu tom meditativo e confessional, do modo como o “eu” se interpela (“ô toi que voilà”) e se recrimina, do poder sugestivo das imagens (o céu, a árvore, o pássaro) e dos sons (o sino, o rumor da cidade), que resumem a vida “simple et tranquille” fora das grades; e também da sua brevidade formal, da harmonia do ritmo e das sonoridades (repare-se no verso “berce sa palme”, cuja forma verbal remete nostalgicamente para o mundo da infância), da alternância do metro (versos de 8 e 4 sílabas) e do efeito de melopeia que resulta da repetição das palavras finais nas rimas (um procedimento que Verlaine usara já em “Il pleure dans mon coeur”).

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Narciso

Maria S. Mendes

Na última estrofe, diz-nos o poeta que espera a noite em que possa finalmente unir-se à imagem que espelha no fundo do poço. Termina o poema com uma exclamação, sinal de esperança, mas bem irónica, pois bem sabe o poeta que a espera será eterna.  

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English I

Maria S. Mendes

Gosto deste poema porque reflecte sobre as complexidades e as implicações ideológicas envolvidas no ensino da língua ao Outro. Gosto deste poema porque começa com um sofrimento coletivo, “nós”, mas nóstemos dificuldade em identificar-nos com aquele discurso particular de sofrimento. Gosto deste poema porque usa imagens físicas, como a descrição sensível daa tarefa de avaliação do professor; sou professora e gosto do tráfego das línguas: “the checks I make for right answers,/ the rosy golf-clubs on the page.” ["os vistos que dou às respostas certas, / tacos de golfe cor de rosa no papel.”]

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Cantiga, partindo-se

Maria S. Mendes

Mas a língua portuguesa – “nunca tam tristes vistes/outros nenhuns por ninguém” – essa, resplandece e dá ao poema a sua belíssima singularidade, criando ao mesmo tempo um efeito de simplicidade musical que faz com que toda a gente goste deste poema quando o lê (penso eu).

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After the Rain

Sara Carvalho

No Festival de Poesia de Palm Beach há sempre um painel sobre Poemas que Encantam, no qual cada poeta da faculdade explica por que é o poema escolhido um dos seus favoritos. Carl Philips discutiu “To the Harbormaster”, de Frank O’Hara, e Rodney Jones escolheu “Race”, de Elizabeth Alexander. Estas escolhas tinham especial importância para mim, porque tinha participado nos seus workshops. Terrance Hayes discutiu “My Father’s Love Letters”, de Yusef Kumunyakaa, à luz de “Those Winter Sundays”, de Robert Hayden, e revelou-me a sua filiação literária.

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Poema do Gato

Maria S. Mendes

Ora, ler este poema não custa nada, porque o tom é desde logo coloquial e invocativo, implicando o leitor nesse misto de pergunta retórica e pedido de ajuda que, se não é vulgar, é totalmente compreensível ("Quem há-de abrir a porta ao gato / quando eu morrer?"). A linguagem é simples, directa, de pendor oral, fazendo lembrar as conversas entre donos de animais sobre as respectivas idiossincrasias ("Sempre que pode / foge prá rua, / cheira o passeio / e volta para trás"…), embora se comece a perceber, a certa altura, que o fulcro do poema talvez não seja a preocupação do dono com a felicidade do gato.

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Ó montes erguidos

Maria S. Mendes

Este poema não devia ter sido esquecido porque não é apenas sobre o amor entre duas pessoas, ou sobre amor não correspondido, ou sobre amor carnal ou neo-platónico – é também, ou até principalmente, acerca do amor e a ânsia que se podem sentir sobre uma “terra”.

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Pastelaria

Maria S. Mendes

Este poema não devia ter sido esquecido porque. Mas afinal o que importa não é o esquecimento. Afinal o esquecimento é sem porquê. O que importa é que a rosa é sem porquê. Assim como assim, a rosa não foi esquecida… Afinal pela palavra afinal começa a alegoria, perdão, a pastelaria, e lá fora a alegoria ri-se de tudo. A pastelaria é sem porquê: alegoria, fantasia, poesia. Três teorias: a da produção, a da inspiração, a da câmara escura. Convém não esquecer que a câmara escura também é sem porquê. Não é verdade, menina?

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S’obedecera a rezam

Sara Carvalho

Este poema não devia ter sido esquecido porque é uma breve e melodiosa constatação de uma verdade que qualquer pessoa já sentiu e que provavelmente sente todos os dias: a cabeça não vive sem corpo, e este impõe a sua vontade muitas vezes. Camões cantava honestamente e sem rodeios “espera um corpo de quem levas a alma”.

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Ó meus castelos de vento

Maria S. Mendes

Este poema nunca devia ter sido esquecido (e provavelmente não foi) porque cruelmente descreve o confronto entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. O que gostaríamos de ser são os castelos de vento; o que somos é “fraco entendimento”, e castelos desfeitos. É, pois, um poema cruel.

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Infant Innocence

Maria S. Mendes

 

Infant Innocence

 

The Grizzly Bear is huge and wild;

He has devoured the infant child.

The infant child is not aware

He has been eaten by the bear.

 

A.E. Housman, “Infant Innocence”, The Penguin Book of Light Verse, ed. Gavin Ewart. London: Penguin Books, 1980. 

 

 

Este poema não deveria ter sido esquecido, pois é um bom poema de bolso, perfeito para ser usado nas mais variadas circunstâncias. Nele, a imagem de um grande urso selvagem opõe-se à pequenez e à inocência da criança. Se uma característica dos animais selvagens é a de terem a tendência para comer aquilo que lhes aparece pela frente, com alguma despreocupação sobre os eventuais problemas éticos que resultam de se matar uma pessoa pequena, as crianças parecem ter a particularidade de compreenderem muito pouco. Assim o indica o uso dos tempos verbais, em que “has been eaten” contrasta com “is not aware”, apontando-se para o facto de, apesar de a criança já ter sido comida pelo urso, continuar sem perceber bem o que lhe aconteceu. Ser comido implica morrer e para isso seria necessário compreender a morte enquanto conceito, algo de que uma criança pequena não é capaz.

O título “Infant Innocence” poderia indicar que só as crianças pequenas são inocentes, mas na verdade o recurso à rima emparelhada, em que “child” rima com “wild”, leva-nos a compreender que o termo também denomina o comportamento do urso. Assim, tanto ursos como bebés parecem ser semelhantes na sua incapacidade de perceberem o que estão a fazer ou o que lhes sucedeu, pelo que tanto comer como ser comido surgem como formas semelhantes de ingenuidade.

A simplicidade formal do poema encobre assim duas posturas morais aparentemente incompatíveis. Refere-se ao modo como aqueles que são enormes e selvagens têm a tendência para se sobrepor aos mais pequenos (e não o deviam mesmo fazer), mas também à forma como os mais pequenos são impotentes perante forças maiores, em que, como acontece à criança neste poema, o ser humano é fraco e incapaz de encontrar um lugar seguro onde seja possível fazer frente aos poderes da Natureza.

Concluindo, entre as boas ocasiões para se citar de modo apropriado o poema de Housman, encontram-se aqueles momentos da vida em que vemos pessoas poderosas manipularem aqueles que não o são. Quando associamos o poema aos poderes de forças maiores do que as do Homem conseguimos alargar o seu sentido e passar a usá-lo também depois de um terramoto, de um tsunami ou de outro desastre natural. Por outro lado, “grizzly” nomeia uma raça de grandes ursos da América do Norte, mas também uma criança que chora demasiado, o que, como todos sabemos, pode ser um bocadinho perturbador. Neste sentido, é possível encontrar alguma justiça na acção abominável do urso, o que significa que o poema pode igualmente ser lido como aviso a uma criança mal comportada.

Maria Sequeira Mendes


Maria Sequeira Mendes é professora na FLUL e colabora com o Teatro Cão Solteiro. Tem particular apreço por poemas tolos. 

Do gosto dos namorados

Maria S. Mendes

 

Do gosto dos namorados

 

Soneto Glosado

 

Quão doce é a um firme namorado

Um fingido fugir da doce dama,

Um dizer que não quer ir para a cama

Um não sejais, senhor, tão malcriado!

 

Um ai que nos ouviram! Que é pecado!

Um ai que minha Mãe ouviu e chama!

Um ai de mim, que perco honra e fama!

Um não sejais, senhor, tão porfiado!

 

Quão doce é um suar a curvar coxas!

Um dar lugar a tudo, de cansada;

Um lembrai-vos, senhor, qual me deixais!

 

Um encobrir, chorosa, as nódoas roxas;

Um despedir-se, em lágrimas banhada;

Contemple-o quem chegar a tempos tais!

 

 

Glosa

 

I

Se licença do Amor me fora dada

E que pudesse usar de meus cuidados

E neles contemplar um quase nada

Quanto dá a sentir a seus privados,

Considerara em uma vista em vão torvada

Em uns suspiros e ais meio quebrados,

Considerara enfim como este estado

Quão doce é a um firme namorado.

 

II

Considerara um ver andar de Amores

Um pobre Amante atrás da Dama bela;

Um contínuo chorar de desfavores,

Uma esquivança da gentil donzela;

Um trocar destes males em favores,

Um dar entrada, com gentil cautela,

Um ver andar o Amante em viva flama,

Um fingido fugir da doce Dama.

 

III

Não foge por fugir, que se fugira,

Tão depressa alcançar se não deixara,

Em tanto passe, logo se retira,

Que não é do que quer que longe avara

Finge com ânimo brando uma alta ira;

E tudo por mostrar vender-se cara;

Sobre tudo inda mais um triste inflama

Um dizer que não quer ir para a cama.

 

IV

Um chorar, e dizer sou mui medrosa!

Deixai-me! Ora, senhor, quem tal cuidara!

Ai, mofina de mim! Ai desditosa!

Quem antes que vos vira se acabara!

Um sentar-se a um canto, mui queixosa,

Um dizer ai que noite aqui passara!

Um morder na mão do namorado,

Um não sejais, senhor, tão malcriado!

 

V

Um chegar para a cama recatada,

Fazendo mil meneios de escapar-se,

Um pedir que a luz seja apagada,

Um dizer que aos pés quer acostar-se,

Um tirar o mantéu quase enojada,

Um vagaroso e tardo descalçar-se,

Um culpar de apetite tão ousado,

Um ai que nos ouviram! Que é pecado!

 

VI

Um ferrar e dizer senhor, deixai-me!

Deixai-me, não me atrevo, i-vos embora!

Não posso fazer tal, antes matai-me!

Outro dia vireis, não posso agora!

Fazei-me este favor, e contentai-me,

Outra coisa farei por vós outra hora!

(e um dar com ela logo sobre a cama)

Um ai que minha Mãe nos ouve, e chama!

 

VII

Um dizer senhor, mal me tratais!

Um suspirar contínuo e afligido,

Um retirai-vos lá, que me matais,

Deixai-me erguer, senhor, que sois sentido!

Um valha-me o Senhor! Que rijo estais!

Já tenho o corpo como sal moído,

Um ai de mim, que soa muito a cama!

Um ai de mim, que perco honra e fama!

 

VIII

Um esperai lá, que sinto atravessar-me

De um agudo alfinete o esquerdo braço;

Um não queirais, senhor, afadigar-me,

Não sejais ao que peço humilde e escasso!

Um tende-vos em vós! Quereis matar-me?

Um não tereis vergonha em ser ousado!

Um não sejais, senhor, tão porfiado!

 

 

IX

Um deixai-me afloxar, por via vossa

A cinta, que me vou, triste, afogando;

Um ai de mim, não sei que fazer possa!

Um deixai-me, senhor, vou desmaiando;

Um não tereis piedade desta moça?

Mais quisera morrer, que estar penando!

Considerem memórias pouco floxas

Quão doce é um suar a curvar coxas.

 

X

Considere quem não pode achar-se nisso

Que achar-se pode e mais qualquer só vê-lo

E mais lhe vale tornar tal reboliço

Com que Amor premeia seu desvelo,

Achar a moça feita em um ouriço,

E na cama estender seu corpo belo;

Um pôr a mão no rosto envergonhada

Um dar lugar a tudo, de cansada.

 

XI

Aqui minha licença é acabada,

Não posso mais dizer e fico mudo

Nesta consideração tão estremada,

Que diga um pouco, senão que diga tudo,

Bem sei que em o dizer, não digo nada,

Que podem obras mais, que empenho rudo

Mas cuido que dirá, feito o demais

Um lembrai-vos, senhor, qual me deixais.

 

XII

Considerara pois esta penosa

Fingindo envergonhar-se do passado,

Um suspirar mudo de queixosa,

Um dar da cama um salto apressado

Um achar-se molhada e vergonhosa,

Um ter simulação e grão cuidado,

E um desembrulhar na cama as trouxas,

Um encobrir, chorosa, as nódoas roxas.

 

XIII

Um chegar-se coberta para o Amante

Fazendo-lhe um queixume acelerado,

Chamando-lhe de mau, sujo e bargante,

Traidor, desleal, desvergonhado,

Um áspero abraçar, mas mui galante

Um manso abrir a porta sossegado,

Um pedir-lhe que seja visitada,

Um despedir-se, em lágrimas banhada.

 

XIV

Um tornar para a cama, contemplando

Miudamente os passos que há passado;

Um mau dormir, em tudo considerando

Se tem tudo o que fez, bem empregado,

Um arrependimento em si formando,

Um mais ardente querer o namorado;

E ao último fim destes sinais,

Contemple-o quem chegar a tempos tais.

 

D. Tomás de Noronha, “Do Gosto dos Namorados”, Antologia de Poesia Erótica e Satírica. Lisboa:

Antígona / Frenesi; 2008.

 

Este poema não devia ter sido esquecido porque é uma representação poética virtuosa daquela sedução que consiste em dar aos olhos aquilo que se nega a “cobiçosas mãos”. Os conhecedores d’ Os Lusíadas já terão percebido que aludo ao jogo de sedução existente entre as Ninfas e os marinheiros na Ilha dos Amores. De qualquer uma das Ninfas se pode dizer o que Noronha diz sobre a donzela do seu poema, no que toca à tentativa de escapar ao desejo do namorado: “Não foge por fugir, que se fugira, / tão depressa alcançar se não deixara.” O poema parece assentar numa relação pouco harmoniosa entre os gestos impetuosos do namorado e as recusas fingidas da namorada, uma vez que estas últimas têm mais expressão no poema do que os momentos em que ambos se unem fisicamente. Aparentemente, até ao momento em que a namorada, fingindo “com ânimo brando uma alta ira”, morde a mão do amante, não há provas de qualquer contacto de natureza física. Mas só aparentemente! Uma leitura atenta revela que o poema é, desde o início, uma descrição perfeita daquele som que se ouvia na Ilha dos Amores, um “mimoso choro”, e que, por isso, é mais harmonioso do que parece.

É fácil constatar que o poema está recheado de aliterações refinadas, como a do segundo verso do soneto (“um fingindo fugir da doce dama” que, na verdade, é antecedida pelo “firme” do primeiro verso e se prolonga com o “dizem” do verso seguinte), e que Noronha deu uma atenção especial à sonoridade desta sua composição. Onde esta atenção se torna particularmente evidente é na anáfora com a palavra “um”, que, aliás, não se encontra sonoramente muito distante do “quão” que abre o poema. Sendo assim, a repetição da palavra “um” tem um propósito maior do que fazer uma enumeração sequencial dos gestos existentes neste encontro amoroso. A repetição do som [ũ] visa representar os gemidos dos amantes ao longo do poema, envolvendo, assim, o leitor numa trama onomatopaica que torna mais interessante a sequência dos gestos relatados. Não se pense, contudo, que este som é o único que visa representar o “mimoso choro” dos amantes, pois essa é também a função da interjeição “ai!” tantas vezes gritada. Esta interjeição parece somente dar expressão ao medo que a namorada tem das investidas do namorado ou ao receio de ser ouvida e julgada por terceiros: “Um ai que nos ouviram! Que é pecado!”. Porém, tendo em conta a arte de sedução desta namorada, ou seja, a lógica do poema, é possível interpretar “que nos ouviram! Que é pecado!” não como a verbalização sincera dos receios da donzela, mas como uma tentativa de disfarçar o gemido genuíno que soltara. Através do seu som, o poema torna-se harmonioso, pois revela as carícias trocadas entre as recusas bradadas. Na poesia não são só os olhos que também comem.

Jorge Almeida


Jorge Almeida é licenciado em Estudos Portugueses e doutorando no Programa em Teoria da Literatura (FLUL). Escreve crítica literária no Observador. Sabe de cor um poema de Cesário Verde e versos avulso de outros poetas, mesmo não se tendo esforçado para que isso acontecesse.