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Entrevistas

Entrevista a Harryette Mullen

Maria S. Mendes

A poesia tem tudo a ver com regras, e não há uma que não possa ser quebrada, mas tens de fazê-lo de uma forma que diga: “A sério? Sim, a sério!” Tens de fazê-lo com estilo e propósito. Sabes o que estás a fazer e por que o estás a fazer. Desta forma, é óbvio que não estás a dar um erro. Estás a fazer uma afirmação. 

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Entrevista a Rui Caeiro

Maria S. Mendes

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Entrevista a Rui Caeiro

Oeiras, 17 de Abril de 2018

 

Telefonámos a Rui Caeiro para lhe fazer a proposta da entrevista. Não tivemos um sim declarado, mas uma advertência: “atenção que não tenho nada de interessante a dizer, acreditem que vai ser um flop”. Apesar deste aviso, marcou encontro connosco no Palácio do Egipto, e a entrevista teve de tudo um pouco, menos do tal flop anunciado. 

 

JF: Gosta de poesia?

Não se trata de gostar ou de não gostar, trata-se de que se tem de a aceitar quando ela se impõe.

 

JF: E isso é o mesmo enquanto escritor e leitor? Gosta tanto de escrever  poesia quanto de a ler?

Quando dei a resposta estava a pensar em escrever. Em relação à leitura de outros, há poetas que leio sempre com elevado prazer e elevada surpresa: um poeta contemporâneo chamado Luís de Camões, por exemplo. 

 

JF: O que é ser um poeta contemporâneo?

Alguém em quem nós somos capazes de nos rever mais do que nos revemos nas figuras que nos apresentam para esse efeito, os chamados poetas do JL, por exemplo. 

 

JF: Acha que há poetas sobrevalorizados?

 Sobrevalorizados... é um não acabar.

 

JF: E subvalorizados?

O Diogo Vaz Pinto fez um artigo recente para o isobre alguns tipos de que não se fala muito mas que são figuras muito fortes, Carlos Poças Falcão e Rui Nunes, por exemplo. O Rui Nunes é daqueles casos em que eu costumo dizer: “há aí uns tipos a escrever umas coisas e que pretendem ser escritores, agora o Rui Nunes é outra coisa, esse é um escritor a sério, não faz coisinhas, esse lida com a literatura, luta com a literatura, tem raiva à literatura”. É preciso ter raiva à literatura para se fazer alguma coisa interessante neste campo, porque de outra maneira estão apenas a repetir-se as banalidades que andam no ar. O Rui Nunes é um caso. E tem outra característica que eu aprecio muito, a pessoa e o poeta são parecidos, que é uma coisa que nem sempre acontece. O Herberto é capaz de ser o nosso maior poeta da 2ª metade do século XX, lidei um bocadinho com ele, não muito, mas a pessoa não me encantava, também não me desencantava nem dava para embirrar, mas não encantava. Já um Rui Nunes, ou aquele tipo do Porto que morreu há uns anos, o Manuel António Pina... Fui entrevistá-lo ao Porto, e passados vinte e cinco minutos, era como se já nos conhecêssemos há anos. E o melhor da entrevista ficou fora do gravador, é uma coisa que acontece muito. E marcámos coisas para o futuro, mas a morte dele veio estragar isso tudo. Outro tipo que é igual à poesia dele – isto eu já escrevi várias vezes – é o António José Forte. Ele não tinha nada ar de literato, o que é óptimo. Havia nele uma suavidade no falar – e na maneira de ser – que não eram nada incompatíveis com a revolta que também havia dentro dele: ele que era um anarquista e que era um puro. 

 

JF: Já percebi que isso é um critério para o seu cânone pessoal, não é? 

 Sim, sim. Literato é de fugir. 

 

JF: Já li o adjectivo “discreto” aplicado a si. O que é ser um poeta discreto?

Quer dizer que, entre os muitíssimos defeitos que tenho, não figura realmente o ser pretensioso, cagão, isso é coisa que eu não sou. Nessa medida, serei discreto?

 

JF: Então tem qualquer coisa de modesto, coisa que escapa aos literatos de que falou há pouco. 

Sim, creio que sim. 

 

JF: Quando fala da raiva da literatura parece também que é uma raiva contra um certo tipo de literato. Faz sentido?

É cada vez mais consensual a ideia de que, se queremos fazer alguma coisa em literatura, temos de a fazer contra a literatura, porque se não estamos a repetir ou a papaguear o que já foi feito. Não vale a pena ser um daqueles, como é que se chamam... os prémios saramagos, talvez com uma excepção única, são tipos que sabem escrever, escrevem correctamente, mas o que eles escrevem não adianta a ponta de um corno, porque aquilo já está feito, já está feito de outra maneira e já está feito de melhor maneira, não vale a pena ir por aí. Noutro dia estava aqui uma moça neste café a quem eu perguntei quem é que ela gostava de ler e ela respondeu Pedro Chagas Freitas. Ela gostava sinceramente dele, não deu para dizer “isso não interessa nada”. Não fiz isso. Só o faço com pessoas que têm mais conhecimentos. Ela precisava de ler muito até perceber que aquilo não interessa nada. 

 

JF: Acha que as pessoas podem aprender a ler uma literatura de melhor qualidade?

Eu trabalhei durante dez anos na editora &etc, e é uma parte da minha vida a que confiro uma certa importância. Na &etc entravam aves muito esquisitas e que, de alguma maneira, gostavam de poesia, queriam escrever um livro: “tenho aqui umas folhinhas que trouxe, se não se importasse...”. Na maior parte dos casos aquilo era de fugir, mas havia uma coisa que estava sempre certa, e que se lhes podia dizer, que era: “nós temos grandes poetas, um desses foi o tal Camões”, mas há ainda o Pessoa, o Pessanha, o Sena... E a “Cantiga, partindo-se” de João Roiz de Castelo Branco, e o soneto “O sol é grande” de Sá de Miranda. 

Quando veio cá o escritor brasileiro Rubem Fonseca, ele estava a falar com os seus colegas escritores portugueses e disse-lhes qualquer coisa como: “vocês têm uma grande responsabilidade, vocês falam uma língua de onde no século XVI saiu isto”. E pega num livrinho e lê um soneto do Camões: “e portanto vocês têm a mesma língua, e isso dá-vos uma grande responsabilidade”. Esse respeito, esse respeito pela língua, é uma coisa que talvez se consiga ensinar. E então os tais meninos que apareciam na &etc, quase todos tímidos (mas também apareciam uns, embora poucos, com o rei na barriga)… E uma coisa que era sempre possível dizer-lhes: “há tantos poetas fundamentais que tu ainda não deves ter lido, porque naquilo que tu escreves não há marca nenhuma da escolha de um caminho que não seja a banalidade poética”. 

Aconteceu uma coisa gira: esses a quem dei tampas não me ficaram a detestar por causa disso, alguns ficaram até agradecidos pelas tampas que levaram, isso é bonito. Devo dizer que não é o que acontecia na maior parte dos casos, quem leva a tampa não gosta depois e deve sair a resmungar “puta que os pariu!”. Houve uma feira no Regueirão dos Anjos num dos últimos sábados, e foi ter comigo um tipo a quem em tempos eu tinha dado uma tampa, um desses: é médico, um jovem médico, ele é muito bonitinho, a namorada também é muito bonitinha, fazem um casal muito giro, e ele continua a escrever, e a ler, e a comprar livros de poesia lá na feira, mas nunca publicou nada, por enquanto ainda não, felizmente ou infelizmente, ver-se-á. Há casos assim. 

O primeiro original que o poeta Manuel de Freitas apresentou foi à &etc, e a resposta que ele levou foi: “isto tem coisas boas, mas necessita de ser mais trabalhado”. E ele tem uma personalidade forte e fez o seguinte: de certa maneira não ligou ao que dissemos, mas não se zangou, levou aquilo a outra editora e a outra editora publicou, e quando escreveu o seu segundo livro de poesia levou à &etc e foi publicado aí.

 

JF: Gostou de fazer esse trabalho de edição, contribuir para editar poetas? Isso também é lidar com o mundo dos literatos e com as ambições literárias das pessoas.

Sim. Quer dizer, ainda não tinham chegado ao ponto de ser literatos, esses eram na maioria miúdos imberbes, tipos bastante novinhos e que aguentam conselhos, bons ou maus, e tampas justas ou injustas. Foi giro, além dos originais que recebíamos pelo correio, às vezes apareciam assim casos e eu dizia ao Vítor Silva Tavares: “este aqui é melhor ver com cuidado”.

 

JF: E desses muitos autores há algum que destaque? Há um publicado na &etc de que gosto muito, o Nunes da Rocha, também muito pouco valorizado.

O Nunes da Rocha foi muito ajudado pelo Vítor Silva Tavares, os livros não se vendiam muito e apesar disso o Vítor continuava a publicar. Isso é a favor do Vítor, sabia que era bom, não pensava no valor comercial, as tiragens eram sempre pequenas e sempre as mesmas, e procurava-se que, mesmo os autores que se vendiam sempre mais ou menos, o dinheiro que se fazia nesses desse para perder noutros, era este o espírito.

 

JF: Falámos há pouco de poetas discretos, e a certa altura no seu último livro diz que os poetas são uma categoria particular de malucos. Porquê?

No livro falo da loucura como algo de contra a corrente, algo de libertador. Esta ideia também é contestável, na medida em que é uma posição um bocado egoísta, ou romântica, mas é uma maneira de exaltar uma certa atitude contra a corrente. Foi agora publicado no Homem do Saco um texto pequenino meu, extraído de um livro algo extenso, e de que algumas pessoas até gostam, mas em que eu já não me revejo e que nem tinha paciência para reler, mas não sei porquê estava à procura de uma coisa qualquer e passei os olhos e pensei: “este texto aqui safa-se, acho que o podia escrever agora”. O elogio que aí faço aos bêbados é semelhante ao elogio que agora faço aos malucos, tem muito a ver com a necessidade de fugir do quotidiano que temos, ou que tenho. 

 

JF: Usa a poesia no seu quotidiano?

Acho que sim. Mesmo que não o quisesse fazer, isso acontecia. Eu e a poesia passamos tempos juntos, sim. 

 

JF: E de que maneira? Lendo, escrevendo ou citando de cor poemas?

É mais deixando-me impregnar por ela, sendo o caso. É mais estando atento à realidade e interpretando-a numa certa feição diferente. No meu último livro, que são dois num, eu faço isso, aproveito cenas do quotidiano que permitem uma ressonância diferente. 

 

JF: Temos nos Jogos Florais uma secção, a Marginalia, onde partilhamos curiosidades literárias. Nos seus Diálogos Marados, também partilha histórias curiosas com algumas pessoas da cena literária portuguesa com quem conviveu. Porque é que teve vontade de partilhar essas histórias?

Foram histórias giras que me aconteceram e que eu gostava de contar às pessoas, e que as pessoas achavam interessantes. E, se essas achavam, podia ser que outras também achassem, e nessa medida algumas foram para lá porque eram história desse tipo, e outras foram para lá porque foi a maneira de eu confessar alguma coisa que precisava. E aquilo também seria uma boa ocasião para o fazer, converter isso que eu precisava de dizer num diálogo marado.

 

JF: Alguns não parecem assim tão marados?

Marado no sentido de serem algo esquisitos… têm todos qualquer coisa de pouco habitual, têm todos qualquer coisa de especial. Por exemplo, passo por dois tipos que vão a conversar sobre mulheres, e dizem duas ou três bacoradas sobre mulheres, e estavam muito satisfeitos com o que tinham acabado a dizer, e continuaram a dizer, só que entretanto já tinham passado por mim e não apanhei mais, tal como lá digo, não devo ter perdido grande coisa. Mas porque é que essas bacoradas em especial me interessaram, porquê aquelas e não outras? Talvez tivessem algo de típico, algo em que muita gente embarca, talvez houvesse muito mais gente que pudesse dizer aquilo, e dizer aquilo com boa consciência, e talvez daí entraram na categoria solene de diálogos marados.

 

JF: O gato é uma figura literária na sua obra. Há algum motivo especial para isso?

Sim, a minha mulher trabalhava na escola inglesa de Carcavelos, o St. Julian’s. A escola tem um parque muito grande, e nesse parque apareciam animais, nomeadamente gatos, e ela estava uma vez sentada lá no parque, e houve um que lhe saltou para o colo. Saltar para o colo poderia ter o significado de “vá lá, adopta-me”, e ela assim fez: meteu-o numa caixinha de cartão e chegou com ele lá a casa. A partir daí o gato ficou uma pessoa importante, talvez a pessoa mais importante da casa. Quando o gato morreu, coisa de que eu falo noutro texto, adoptou-se logo outro.

Mas respondendo à pergunta. Há um motivo especial, sim, é tudo aquilo que o gato tem de admirável, de criatura perfeita.

 

JF: Já no livro 49 espinhas para um gato faz um elogio à figura do gato e revela a superioridade deste animal na relação que tem com o ser humano. Mostra-nos, por exemplo, que o gato está longe de ser um animal dócil e submisso e interessado em fazer companhia ao seu dono...  

Se estamos à espera dos carinhos que o gato nos faça, podemos desistir logo, mas também é verdade que às vezes, inesperadamente, ele é capaz de nos surpreender com um gesto completamente inesperado e que nos fazer pensar: “não estava a ver-te a fazeres isso, não estava a ver-te a procederes assim, não estava a ver-te a olhares dessa maneira”. Eu descrevo, quando morreu o cão que nós tínhamos, que ele e o gato não gostavam um do outro, é natural. Quando o cão morreu, aproveitei uma altura em que a minha mulher foi aqui ao mercado – a nossa casa é a seguir, a casa é aqui –, ela foi ao mercado e eu pus o cão dentro do saco de plástico preto. Quando saí com o saco, a maneira como o gato olhava para o saco era qualquer coisa de especialmente difícil de definir. O que significava esse olhar? É muito difícil de dizer, uma curiosidade muito, muito intensa, e porventura uma compreensão grande do que estava a acontecer, sim, certamente. O Luís Gomes, da livraria Artes e Letras, fez uma edição de um livrinho meu, que se chama Um gato no inferno, grande parte à base da vivência com esse gato e da morte dele. Ele está no inferno como as amantes do Dante, as grandes amantes foram parar ao inferno, porque amar muito é da ordem do infernal, do maldito. Foi um gato muito amado e está no inferno, pronto, foi um livrinho que se chama Um gato no inferno e que saiu com erros chatos, teve de ser emendado à mão... 

 

JF: Tem sempre muito cuidado nas suas edições, tem edições de autor ou de editoras mais pequenas. Prefere publicações mais discretas e mais afastadas das grandes editoras e da publicidade que elas promovem?

Não me interessa muito publicar em grandes editoras, isso propriamente não me interessa e acho mais piada às pequenas edições de autor, aos editores de vão de escada, realmente acho mais piada a isso. O Snob, a Língua Morte, a Averno... 

 

JF: Compreendo essa ideia de estar longe das grande editoras, mas não tem pena de se tornar menos acessível ao público em geral, e só acessível a um nicho já ligado às pequenas editoras?

Eu tenho consciência de que as pessoas que gostam mesmo de ler poesia não são em grande número. Digamos que são poucos, mas bons. Você veja que dantes era capaz de se fazer uma tiragem de um livro de poesia de mais de 1000 exemplares, hoje em dia só em casos muito especiais. 

Eu escrevi um livro erótico, livro de poesia erótica (O quarto azul e outros poemas), e o jovem editor da Letra Livre disse-me: “isto até ao fim do ano está vendido”. Não foi nada assim, ficou anos na prateleira.

O Rui Pires Cabral, que é um poeta que eu aprecio (filho do António Manuel Pires Cabral, o pai até gostou de um livro meu...), dedicou um livro “aos meus (seus) trezentos leitores”, e essa dedicatória significava que trezentos era pouquíssimo. E hoje ter trezentos leitores já é muito bom. Os hábitos de leitura vão-se alterando. 

 

JF: Nos Jogos Florais escrevemos sobre poemas de que gostamos. Tem algum poema favorito?

É difícil... Se me perguntassem por um poema de que goste muito, a resposta poderia variar conforme o meu estado de espírito. Se estivesse num dia de abatimento, poderia indicar um poema do Pavese, que é um dos meus escritores preferidos; se estivesse num dia mais eufórico, poderia pensar num tipo com mais saúde. As duas coisas são muito necessárias. Jorge de Sena tinha muita saúde e muita genica. Esse dava para a resposta a dar nos dias em que me sinto de espírito mais positivo. 

 

JF: Acha que o Jorge de Sena tinha muita saúde? Em que sentido? É que eu gosto muito dele, mas acho que era um bocadinho bilioso... 

Isso é outra coisa, isso é o espírito polemista. 

 

JF: Nesse capítulo não há muitos como ele, pois não?

Ele não foi substituído, não. Em termos de crítica, estamos bastante desasados neste momento.

 

JF: Costuma ler crítica literária. 

Leio, leio. 

 

JF: Lê o JL?

Passo os olhos pelo JL sempre, até para poder dizer mal. Geralmente o JL, a sensação que me dá é que é sempre mais do mesmo, tem uma determinada fórmula e vai repetindo. Uma vez por outra, há uma coisa de antologia, como os artigos do Helder Macedo, que é um homem muito inteligente e talentoso. Já é velhote. Mas isso são excepções. Agora o resto…

 

JF: Costuma ler o que os críticos escrevem sobre si? E parece-lhe que acertam?

 Não há propriamente críticos a escreverem sobre mim, há amigos meus... 

 

JF: O Diogo Vaz Pinto também escreveu agora.

Sim, o Diogo, mas são amigos, são suspeitos. O que encontro assim de mais significativo é o poeta espanhol que costuma escrever para as revistas do Manuel de Freitas, Telhados de Vidros e Cão Celeste. É de Barcelona e chama-se José Angel Cilleruelo. Eu gosto muito do que ele escreve e a ele deu-lhe para simpatizar com as minhas coisas. E acho que, daquilo que se escreveu sobre mim, descontando os exageros da amizade, ele disse coisas relevantes. Escreveu um livro agora, mandou-me o livro e disse: “tu és personagem deste livro”. Conta o nosso encontro no Paralelo W, aqui há uns anos, e foi a única vez que o vi, que estive com ele. Mas ele já viveu dez anos em Portugal, há uns anos atrás, de maneira que fala muito bem a nossa língua e conhece muito bem a respectiva poesia, a Adília, a Golgona, ele conhece esta gente toda.  

 

JF: Associou esses dois nomes por algum motivo?

Ele já falou sobre as duas quando cá veio, mas nessa altura eu não estive com ele. Acho que falou sobre uma e outra, mas não exclusivamente. 

 

JF: Já imaginou o seu nome contemplado numa nova edição da História da Literatura Portuguesa? 

Não, acho que tenho um bocado de horror a isso. Sendo eu uma pessoa de muitas leituras, tenho muita consciência de que há muitas centenas mais, e como tenho muita consciência disso não me sentiria bem se me pusessem lá num pódio qualquer.  

 

JF: Isso é modéstia? Outros não poderiam dizer o mesmo e estão lá?

Eu acho que não é uma questão de modéstia, porque a modéstia vira facilmente falsa modéstia. E no meu caso acho que tem a ver com... Sou uma pessoa informada, sobretudo em matéria de poesia, e tenho consciência realmente de que há bons e muito bons. Somos bons no romance, na crónica não temos grandes, no conto também não, mas na poesia temos nomes grandes. 

 

JF: Acha que, numa História da Poesia, por exemplo, só estão os melhores? É por essa razão que se exclui?

Seja qual for o critério para a selecção, há sempre pessoas que eu vejo mais interessantes do que eu, antes de se poder falar de mim. E não tem a ver com falsa modéstia, é mesmo o que eu penso. 

 

JF: Também tem vários trabalhos como tradutor. Gostou dessa experiência?

Quando estava ainda a trabalhar na EDP, onde estive vinte e tal anos, nos últimos anos eu já tinha traduzido coisinhas várias, mas mais sobretudo a partir da década de 90. Traduzi um suíço maluco, Henri Roorda, que escreveu um livro a explicar porque é que se ia suicidar quando o acabasse de escrever. E assim fez: acabou de escrever, bebeu um copo de vinho do Porto e disparou. Isso era coisa de que o Vítor Silva Tavares gostava. Ele gostava de coisas esquisitas, mordia logo. E assim foi, aquilo foi logo traduzido. 

Traduzi o Pavese porque sempre gostei muito dele, de tudo, da poesia, romance, novela, ensaio literário, diário. Ele tem dois livros de poesia muito diferentes, um é poesia narrativa e o outro é poesia de amor. Ao que consta, apaixonou-se por uma actriz americana que foi a Itália filmar. Entrava num filme qualquer, tiveram o seu enrolo e depois ela foi-se embora. Ele não terá aguentado essa ausência e suicidou-se, dizem que está relacionado com isso. 

Traduzi ainda um poeta espanhol chamado León Felipe, que fugiu da Guerra Civil de Espanha para o México. Alguns poemas dele são cantados, e muito bem cantados, pelo cantor espanhol Paco Ibañez. Traduzi uma escolha de poesia do León Felipe, acho que muito por causa do último texto, que me impressionou tanto... O último texto é uma carta que ele escreveu à irmã dele, que era mais nova. Essa carta é tão bonita, tão bonita que ele próprio a inclui num livro de poesia dele, e é apenas uma carta. 

Traduzi o surrealista Robert Desnos, que escreveu um encontro inventado com a figura do Jack, o estripador. Esse livrinho também me encantou, e traduzi. 

Traduzi uma novela que a Marguerite Yourcenar considera uma obra-prima, e eu também acho que é, do escritor francês Roger Martin du Gard, que hoje está muito esquecido, que é uma história com o seu lado delicado. Trata de um encontro sexual entre dois irmãos, irmão e irmã, mas pela forma discreta e natural como aquilo está contado é realmente um prazer de leitura. Chama-se A Confidência Africana, e a cena crucial passa-se no Norte de África. Também traduzi para a &etc Miguel de Unamuno e o suíço Charles-Ferdinand Ramuz. E pronto, foram estas as traduções para a &etc. 

Como o Vítor tinha muito jeito e prática para fazer capas e preparar as edições, eu “utilizei-o” muito para me ajudar nas minhas edições de autor. Eram edições de autor, mas tinham capas muito giras, porque eram do Vítor, não eram minhas, não tenho jeito nenhum para desenhar ou pintar. E portanto fiz várias edições de autor. Enquanto lá estive, na &etc, publiquei um único livro meu com a chancela da casa (Sobre a nossa morte bem muito obrigado), e ainda hoje não sei se o devia ter feito, porque trabalhando lá acho que talvez não o devesse ter feito. Os editores franceses às vezes querem escrever uma coisinha sua. Sabe o que é que eles fazem? Não publicam na sua editora. Dão a outro editor e ele edita se quiser.

 

JF: E será que tinha uma editora mais certa para si que não a &etc? 

Se calhar não, até porque o tema era delicado, era o suicídio. Era uma coisa delicada e podia até ser comparada, de uma forma burra, a uma incitação ao suicídio, mas não era isso. Mas podia ser interpretado assim, de maneira que... isso é crime. 

 

JF: Tem alguma embirração linguística ou poética?

Tenho várias, sim. 

 

JF: Coisas que evita escrever ou que também não gosta de ler nos outros, figuras de estilo, formas poéticas, palavras, etc.? 

Ah, eu não estava a perceber a pergunta nesse sentido. 

 

JF: [risos] Estava a pensar em embirrações pessoais, então? Isso já percebi que tem [risos]. 

Eu já estava a carburar em relação à outra resposta, mas voltamos a esta. Não vejo assim algo muito concreto. De uma maneira geral, mas isso faz parte da minha maneira de ser, não gosto de expressões grandiloquentes. Acho que os versos mais tocantes e que continuam depois connosco não foram feitos nessa linha da grandiloquência. 

 

JF: E tem apreço por determinadas formas poéticas, palavras, figuras de estilo?

Eu escrevi muito pouca poesia propriamente dita. NoLivro de Afectos,há poesia, há versinhos, há linhas que não chegam ao fim, são versos, aí há. E há também nessequarto azulde que já falei. Mas não há assim muito mais.

 

JF: E no último livro que publicou não há poesia propriamente dita?
Não é poesia propriamente dita. Histórias são histórias ou historietas. E no texto sobre os malucos, às vezes, aqui e ali, há um tom poético. 

 

JF: Então o que é para si poesia propriamente dita? Implica sempre uma noção de forma, de técnica, de rima, de métrica?

Normalmente implicará, mas tenho de reconhecer que, por exemplo, no livro Um maluco vem pousar-me na mão, quando eu digo que gostava de contar a um maluco, desses mais credenciados, a história completa dos meus fracassos, gostava de ver como é que ele reagia, e sobretudo gostava de ouvir a sua gargalhada final, como conclusão resposta. Ora bem, esse texto é prosa, mas eu acho que é um texto poético, e haverá mais, sobretudo nos malucos.

 

JF: Senti ao longo da nossa conversa que o Rui Caeiro não se sente confortável com o mundo dos ditos literatos, com o meio literário. Faz sentido?

No que eu tive de convívio com o Herberto Helder, por exemplo, ele nunca falava de literatura. Era a uma mesa de um bar, estivesse quem estivesse, e falava normalmente com toda a gente, contava histórias, mas não era a conversa de um literato. E ele apresentava-se como uma pessoa comum. Não era o poeta, não era o buda, não. Era um homem que dizia palavrões, frequentemente, como os amigos dizem quando estão num bar: “esse gajo é um filho da puta e não sei quê...” 

 

JF: De alguma maneira não gosta dos poetas que fazem dissociação entre o poeta e a pessoa?

Bem, uma vez entrou no bar uma menina que estava a fazer um trabalho de faculdade para apresentar e tinha escolhido como tema a obra do HH, e ela disse: “gostava que me desse uns esclarecimentos sobre isto assim e assim”. Aí ele não era o gajo porreirão que estava ali à mesa a beber com os outros... Ela pediu que lhe desse umas ideias e ele disse-lhe: “minha menina, eu sou muito pouco dador”. E ali matou a questão assim. 

Respondendo agora à pergunta, eu sei que há outras maneiras, há outras posturas em relação à literatura que não são necessariamente piores ou mais imorais do que a minha. Isso é possível, desde que seja feito com alguma autenticidade. Agora nós vemos cada vez mais poetastros a surgirem e que já metem isso no currículo das gracinhas que têm feito. Isso é que não pode ser. A poesia não é uma gracinha, a poesia vinga-se das gracinhas. E há aí muita gente a escrever que está muito satisfeita porque tem tido bom acolhimento e não sei quê. E a poesia? Onde é que fica?

 

JF: E o que é o bom acolhimento? É ter os tais 300 leitores?

É o ser publicado em editoras fortes, em livrinhos de capa dura, letras em relevo, essas esquisitices que hoje estão muito na moda. Como já disse, um poeta por quem tive sempre uma afeição particular, quer como pessoa quer como poeta, de que falo nos Diálogos Marados, e com quem convivi, foi o António José Forte, e ele praticamente não falava de literatura. O que é que ele fazia em relação à literatura? Fazia-a. Quando ele escreve o poema de amor à Aldina, com quem viveu os últimos anos da vida, quando ele faz um poema sobre o deslumbramento do Maio de 68, aí está a lidar com a poesia. Na conversa, na sua conversa do dia-a-dia, isso praticamente não vinha à baila. É um tipo de quem tenho muita saudade e falo dele num dos textos de que eu gosto mais no meu livro, nos Diálogos Marados, talvez porque é sobre ele. É um texto em que eu pergunto ao Vítor – “Tu já és um fóssil do nosso meio literário, já viste partir muita gente e alguns deles eram teus amigos. De qual é que tens mais saudades?” E ele diz só esta palavra: “Forte”. E eu compreendo. 

 

 

 

Nos dez anos em que trabalhei com o Vítor Silva Tavares algumas vezes me divertia a fazer-lhe perguntas de chofre, a que ele devia dar respostas imediatas e concisas. Era um jogo nosso, a que também ele se prestava de bom grado. 

Uma vez disse-lhe: tu tiveste a oportunidade de conhecer muita gente, muitos coirões do mundo das letras. Muitos deles, decerto a maior parte, já morreram. Destes últimos, qual é aquele de que sentes mais falta?

A resposta veio pronta, seca e sem qualquer explicação adicional: 

-       Forte.

Leia-se: António José Forte. 

 

Rui Caeiro, Diálogos Marados. Livraria Snob, 2018. 

Aqui publicado com a autorização do autor

 

Entrevista a Fleur Adcock

Maria S. Mendes

Ser poetisa é uma espécie de formulação dúbia, porque nos velhos tempos as pessoas diriam: “Não pode dizer que é poeta, isso é como dizer que é um génio”. Há muitos anos fui casada com um poeta, e ele e os seus amigos diziam simplesmente “I write verse” [“Escrevo versos”]. Agora toda a gente se afirma poeta e até fazem menção disso nos passaportes. As pessoas, muitas vezes crianças na escola, perguntam-me: “Quando é que decidiu ser poetisa?” Explico-lhes que nunca decidi ser poetisa, não era uma coisa que eu achasse que podia vir a ser. Quando tinha seis ou sete anos, escrevia pequenos poemas e rimas - isso era criar um poema, não era ser isto ou aquilo. Às vezes encontro pessoas nas lojas do bairro, que me dizem: “Ah, você é aquela senhora poeta!” Apareci no jornal local quando dei uma leitura na livraria, foi por isso que me reconheceram. O único momento em que alguém pode efectivamente dizer que é poeta é no próprio momento em que está a escrever… certamente que agora, neste momento, não estou a ser poetisa. No meu passaporte diz… ah, não, hoje em dia não é preciso indicarmos a ocupação profissional. Quando tínhamos de o fazer, eu achava que era escritora e o meu contabilista considerava que eu era autora, o que fazia com que eu fosse autora na minha declaração fiscal e escritora no meu passaporte, mas nunca diria poetisa, isso para mim seria um bocado pretensioso.

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Entrevista a Luísa Ducla Soares

Sara Carvalho

No dia 13 de Março de 2018, fomos entrevistar Luísa Ducla Soares em sua casa. Fomos recebidas logo à porta pela rainha Margot, uma gata afável que deixou a rua há pouco tempo. Luísa Ducla Soares é autora de mais de 165 livros, dá nome a uma escola básica, a um jardim-escola e a 10 bibliotecas. Talvez tudo isto não tivesse sido possível se se tivesse apenas dedicado à poesia dita para adultos. De certeza que não teria merecido tantos prémios como aqueles que nos foi mostrar à despedida: um quarto de dimensões muito generosas repleto de troféus imaginados, laboriosamente pensados e construídos por muitas centenas de leitores, de escolas de todo o país – material para uma autêntica casa-museu.

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Entrevista a Wendy Cope

Maria S. Mendes

“Há uma coisa que adorava que as pessoas deixassem de fazer nos poemas rimados: rimar uma palavra no plural, como “friends”, com uma no singular, como “send”, põe-me fora de mim. Há uma passagem no livro House of Pooh Cornerem que o Eeyore está a tentar escrever um poema e depara-se com um problema quando percebe que “friends” não rima com “send”. Muda “friends” para o singular. Mas depois tem de pôr um “s” em “send”. Chega à conclusão de que não se consegue rimar “friends” com “send” ou “friend” com “sends”.Nesse momento fica completamente baralhado, este problema deixou-o incapaz de escrever um poema rimado. Hoje em dia, os poetas simplesmente ignoram a dificuldade e isso enerva-me francamente. Também me irrita uma certa categoria de palavras poéticas afectadas.”

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Entrevista a Alberto Pimenta

Maria S. Mendes

 Com César Figueiredo na Foz do Douro… que grande que eu fico nesse lugar! Estou a dar uma aula aos peixes… de água doce!

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Entrevista a Alberto Pimenta

Lisboa, 29 de Setembro de 2017

 

No dia 29 de Setembro, Alberto Pimenta recebeu-nos em sua casa, numa Mouraria que já não é o que era em 2000, quando foi viver para lá. Subimos vários degraus, e as nossas cabeças fizeram caso do aviso “cuidado com o galo”, a três degraus de chegar à sua porta. Levámos um papel com 20 perguntas possíveis e não esperávamos as 20 respostas obtidas. Mas Alberto Pimenta pediu-nos para ler cada uma delas e disse que, apesar de algumas parecerem perguntas de televisão, iria responder a todas, dando conta da sua experiência de vida, a única coisa de que cada um pode falar e não daquilo que se leu nos livros. E isto é a entrevista possível, an interview, nas palavras de Alberto Pimenta, uma entrevista, uma vista entre a realidade e a fantasia.

 

JF: Gosta de poesia? 

Eu respondo com uma imagem saborosa. É como arroz, depende da maneira de o fazer. Posso gostar muito. Há um certo tipo de arroz que eu adoro, como se faz no Porto, por exemplo, que é um arroz a fugir, com bastante líquido, com estrugido, que aqui em Lisboa se chama refogado, com estrugido de cebola, com temperos muito bons, e depois sempre com qualquer acrescento de vegetal ou também de animal, especialmente do mar, por exemplo, arroz de polvo. À maneira do Porto é, de facto, delicioso, porque escorrega, não é? As coisas que nós comemos começam por ser deliciosas e são deliciosas até ao fim na boca, escorregam. Com poesia é exactamente a mesma coisa, tal e qual, não faz diferença nenhuma.

 

JF: Acha que a poesia é um género sobrevalorizado?

Bem, eu não sei onde. Talvez nas universidades, talvez nas aulas de poesia, talvez para alguns poetas que só falam de poesia, não têm outra conversa. Há poetas que não sabem distinguir entre a razão da poesia, que é uma razão que não é..., não está no correr utilitário da vida, mas será um intermezzo, uns interlúdios. É preciso uma disposição especial e uma razão especial para fazer poesia, portanto também para falar dela. Ela não será sobrevalorizada a não ser nesses casos, e nesses casos eu nem diria sobrevalorizada, eu diria... é uma obcecação ou profissional, para professores que têm falar de poesia, que dão muito valor àquela de que gostam, ou que têm de ensinar; e é uma obsessão para aqueles que fazem poesia assim sistematicamente, a vida deles é de manhã à noite fazer poesia, e a poesia nesses casos, de manhã à noite, e ao lanche, não pode ser boa.

 

JF: Quando fizemos essa pergunta, estávamos a pensar no caso português, se a poesia é sobrevalorizada em Portugal. 

Ah, não, de maneira nenhuma, de maneira nenhuma... Em Portugal o que acontece é que existe, por parte de um certo grupo erudito ou culto, essa ideia de que a poesia está um pouco acima do nível médio, e o nível médio é baixo. Na Alemanha, que eu conheço muito melhor, onde há menos e melhores, de longe, melhores poetas, e sempre houve, e não é preciso chegar ao senhor Goethe, nem chegar a esses todos, a poesia é naturalmente valorizada pelas pessoas cultas, mas é valorizada dentro do seu espaço, quer dizer, não existe aquele deslumbramento à portuguesa: ai a poesia! O deslumbramento pode de facto ser simplesmente uma rima, mesmo quando é simplesmente uma rima de alguidar. Não, é uma outra atitude, totalmente diferente. Em Portugal ela não é de facto sobrevalorizada nem subvalorizada, existe, acho eu, pela minha experiência, uma atitude às vezes infantil em relação à poesia. Quer dizer também que isso significa que a poesia não é entendida como alguma coisa como outras, que faz parte da vida, não, aquilo é uma coisa assim à parte, mas não é. É uma coisa que faz parte da vida e que tem a sua manifestação só nalguns casos, como quase tudo o que existe.

 

JF: Arte literária e não literatura, não é? Porquê?

Bom, não, não é. A arte literária implica formas de poesia que saem um pouco daquela norma que até já não cabem no espaço da literatura, porque saem fora da palavra. Não é preciso chegar à poesia concreta exactamente, temos antes disso muita poesia. Na Antiguidade, na Grécia, há poesia com desenhos feita ela própria a desenhar uma árvore ou outros elementos, isto na Grécia Antiga, dois ou três séculos antes da nossa era. Depois na Idade Média também, a poesia religiosa tinha muitas vezes a forma de um altar, ou coisa semelhante, portanto aí é melhor falar da arte literária do que da literatura. Fora disso está muito bem, é literatura, é pintura, é ura, candura, frescura, etc. Mas poesia é poesia.

 

JF: “Ars Poetica”, de Archibald Macleish, é um dos seus poemas favoritos? Porquê?

Eu acho que este poema, como todos, deveria ser visto todo ele. É evidente que esses dois versos são os versos que encerram o poema e que têm a intenção total, portanto should not mean quer dizer não é um sítio para ir lá ver os significados, porque isso é uma transformação, e, se transforma, a poesia já não é poesia, deixa de o ser no momento em que transforma, em que explica. Tem de se impor como se impõe, por exemplo, uma árvore que nós não costumamos ver, olhamos para ela, e o melhor muitas vezes é não saber o nome da árvore, nem saber mais nada, simplesmente admirar a árvore que está ali. Desembarcamos em África, ou na Ásia, e vemos uma árvore que nunca vimos, uma coisa espantosa, e admiramos aquilo, como é que é possível na natureza haver uma forma destas com esta força, com tudo isto? Agora chama-se assim ou chama-se assado, já não é muito importante, ainda por cima normalmente chamar-se assim ou chamar-se assado está carregado de ideias pré-concebidas.

 

Excerto de “Ars Poetica”, de Archibald Macleish

 

A poem should be palpable and mute   

As a globed fruit, 

 

Dumb 

As old medallions to the thumb, 

 

Silent as the sleeve-worn stone 

Of casement ledges where the moss has grown— 

 

A poem should be wordless   

As the flight of birds. 

 

Archibald MacLeish, “Ars Poetica” from Collected Poems 1917-1982. 

Copyright © 1985 by The Estate of Archibald MacLeish.

Ler aqui.

 

Não é preciso dizer mais nada, acho eu. Os primeiros dois versos começam logo: um poema deveria ser palpável, e mudo ou silencioso como um fruto redondo. Pois é, um fruto redondo é palpável, diz tudo, é essa a sua fala. Ele não foi feito para nós o comermos, foi feito para existir e depois servir a natureza de várias maneiras. E comer o fruto não poderia ser ler o poema e percebê-lo de algum modo? Não, comer o fruto é absorver o poema tão bem tão bem, que ele fica…

 

Jogos Florais: Interiorizado, decorado?

Não é decorado, lá está, isso não interessa, decorado é na escola, para recitar. Como a árvore, por exemplo, ver essa tal árvore, que nunca vimos, que é uma árvore de qualquer maneira estranha, nova, pela espessura toda, ou, pelo contrário, pela cor das folhas, das flores. Não é preciso descrevê-las, dizer ele viu uma árvore lindíssima, tem umas flores desta cor, mas isso não é nada, uma coisa é ver, outra ouvir. Aqui é isso mesmo, são uma série de imagens sobre essa natureza concreta do poema. O poema é como um fruto, um poema should be wordless, um poema não deveria, é difícil traduzir aqui wordless… “Não há palavras/como o voo das aves”.

 

J.F: Ser palavrosa?

Olhe, boa tradução, não devia ser palavrosa, não devia impor-se pelas palavras, tal e qual como o voo dos pássaros. O voo dos pássaros também não tem palavras, mas o voo dos pássaros pode ser impressionante em muitos casos. Impressionante pela velocidade, pelo facto de irem sós ou em grupo, quando vão em migração, isso tem um ritual que nos comunica muita coisa... Sem uma única palavra.

 

Pimenta_Verso.jpg

JF: Como se ensina poesia? Como se fala sobre um poema? 

Como se ensina a poesia, não sei, cada um terá de saber por si. Mas ensina-se? Há coisas que se ensinam, a criança também tem de ser ensinada a falar, porque se ninguém a ensinar a falar nunca fala. Há naturalmente alunos, tanto aí como na matemática, como noutra coisa qualquer. Há uns que têm vocação, que têm dentro de si uma força que os faz entender mais facilmente e melhor do que outros. Agora, como cada um ensina, isso é uma questão de cada um, para mim não há nenhum modelo.

 

JF: Para que serve a poesia? E a sua? 

A poesia não serve para nada a não ser para quem a faz, serve a quem a faz. Como muitas outras coisas que servem, quase tudo o que o ser humano faz em sociedade faz porque isso lhe traz qualquer vantagem, seja ela material ou não. A cozinheira do restaurante cozinha porque ganha dinheiro, e com esse dinheiro que ganha pode cozinhar para si, porque se não, não pode, cozinha porque sabe, aprendeu, e isso rende-lhe dinheiro. O poeta não é isso, poderá nalguns casos haver alguns que estão atrás de vantagens materiais ou de outro tipo, ou de prémios, ou seja do que for, mas isso aí de facto já não são para mim poetas. O poeta escreve por uma necessidade interior, por uma compulsão. Os religiosos são religiosos porque têm uma compulsão interior, não é por outra razão. A poesia serve ao poeta que tem essa compulsão, para satisfazer essa compulsão. Quase todos nós satisfazemos as nossas compulsões. Há alguns que têm compulsões muito triviais e pouco importantes, agora se tiver uma compulsão para matar, ou se tiver uma compulsão forte para subir ao Evereste, ou se tiver uma compulsão forte para coisas várias, é essa compulsão que o faz fazer isso, ninguém vai subir ao Evereste se não tiver a compulsão de andar pela montanha acima. Para mim serve para satisfazer a compulsão que o poeta tem. Porque é que o poeta tem essa compulsão? Certamente em grande parte é uma coisa que nasceu assim com ele, cada um de nós tem certos interesses na vida, é evidente, faz parte de cada um, do carácter, e depois porque houve certamente acontecimentos que o arrastaram para aí, acontecimentos que ele precisa de trabalhar, é uma forma de os trabalhar, escrever, e escrever daquela maneira.

 

JF: Será que certos períodos políticos exigem um determinado tipo de poesia?

Não, a pergunta está muito mal feita. Primeiro, não há exactamente períodos políticos, há períodos sociais, período social é uma coisa muito mais larga. Por exemplo, em democracia, há o período social da governação do PSD, há o período social da governação do PS, e claro que a poesia não muda nada e claro que cada um deles pode provocar um período social diferente, pode haver convulsões sociais, pode haver greves, pode haver muita coisa ou não haver. Os períodos sociais não exigem nada, provocam um certo tipo de manifestações, seja nas artes, seja noutras actividades, e provocam poesia também que se ocupa desses períodos sociais. Pode ocupar-se mais ou menos, isso já depende do estilo e do registo do poeta, que também, por natureza, pode preocupar-se muito ou não se preocupar nada com o problema social, pode preocupar-se só com os seus sentimentos, saber se a amada ou o amado estão ali ou se foram embora, etc... E, portanto, não se interessa nada, não lhe interessa se é isso ou aquilo a política, ou, pelo contrário, sente muito todo o ambiente social. Claro, se é um poder que luta contra todos e cada um, todos e cada um têm de lutar contra ele, por todos os meios e, se é todos, é também a poesia, claro.

 

JF: Usa a poesia no dia-a-dia? 

Não sei o que é usar poesia. Se vou ler, não diria nunca usar. Apetece-me ler um certo poeta, porque já sei o que ele diz, e eu quero mais uma vez ouvir aquilo, é como quem ouve uma música. No tempo dos Beatles ouvir os Beatles de manhã à noite, e agora ouvir o punk ou Bach, há quem oiça Bach de manhã à noite, também em Portugal.

 

 

JF: Lembra-se de versos com regularidade? Sabe versos de cor? 

Então não me haveria de lembrar? Que pergunta um bocadinho ofensiva! De cor? “É numa rua bizarra a casa da Mariquinhas, tem na sala uma guitarra, janelas com tabuinhas...” Guitarra em vez de piano, só isto!...

 

JF: Como se imagina num verbete de uma enciclopédia literária? Que gostaria de ler sobre si? 

Não me interessa, é um assunto que não me interessa, de mim já se disse tão pouca coisa, podem continuar a dizer, seja o que for, também que eu mato e roubo. Isso é um bocado chato, mas é assim.

 

JF: Quando o googlamos, o seu nome aparece associado a Ana Hatherly, António Aragão, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny e Herberto Helder. Faz sentido? Não gosta muito da internet, pois não?

Lembram-se do que era a PIDE? Claro que não. Metade da internet é a PIDE, o que um gajo faz aqui, uma coisa qualquer, imediatamente o mundo inteiro está a saber, eu não quero, sempre quis ter a minha... Não gosto da palavra privacidade, que não me invadissem quando eu não quero. Eu sou muito sociável, mas também em certos momentos não sou.

Faz sentido, claro que faz, mais a alguns do que a outros: à Ana Hatherly, António Aragão e Melo e Castro, até fizemos um livro em conjunto, os quatro. É claro que ao Alexandre O’Neill, fomos amigos e frequentámo-nos, mas nunca fizemos, que eu me lembre, nada em conjunto. Já são estilos um bocado diferentes, eu também sou satírico, mas sou satírico de uma maneira diferente do Alexandre O’Neill, e não sou só satírico, e ele praticamente só é satírico, muito bom, não há nada nele que não tenha lá uma pontinha de sátira. Ao Mário Cesariny e Herberto Helder, como poetas que fizeram poesia que me parece ter muito interesse, mas só isso.

 

JF: Refira uma embirração linguística e/ou poética (palavra, construção, etc). 

Expectável!!!!!!!

 

JF: Que perguntaria a outro poeta?

Nada! O que é que eu havia de perguntar? Eu convivi com muitos poetas e nunca lhes perguntei nada, nem eles me perguntaram nada sobre poesia, só sobre outros assuntos, outros assuntos que toda a gente que convive tem em comum e faz perguntas e dá respostas.

 

JF: Temos uma secção sobre curiosidades literárias. Lembra-se de alguma que pudesse partilhar connosco?

Das Guerras do Alecrim e Manjerona, de António José da Silva, a fala de Semicúpio: “Neste mundo somos todos homens de ganhar; o que desautoriza é o modo!” É tão espantosamente actual, não é?

 

JF: Poderia descrever-nos uma peça de vestuário com que sempre tenha sonhado e que nunca tenha tido?

Ao contrário do que acontece com grande parte das pessoas, que gostariam muito de ter uma peça de vestuário a imitar algum actor ou actriz, eu lembro-me de que tinha um gosto que satisfiz. Eu queria ter um colete de couro, que nunca vi em Portugal naquela altura e que encontrei na Alemanha e que usei muitas vezes. Há fotografias minhas com esse colete. A propósito da roupa, devem-se lembrar de que, depois do pecado, Adão e Eva reconhecem que estão nus, porque não sabiam, era natural como os gatos. Algum gato acha estranho estar nu? Ou um cão? Ou uma tartaruga?

 

J.F:  Há pessoas que vestem os animais... 

Eu sei, a perversão pode dar essas voltas, não é exactamente por vergonha mas é para os alindar. Os primeiros habitantes das cavernas, meios macacos ainda, não usavam roupa, e começaram a usar talvez quando emigraram para o norte e tiveram frio, ou também pode ter sido por pudor, ou é cultural ou é natural. A roupa chegou aos vários excessos, a partir do século XVII/XVIII, naqueles vestidos que arrastam quilómetros, que tem de ir uma data de lacaios a segurar. E, naturalmente, como é um negócio também, esses negociantes de roupa, os criadores, criam para haver quem compre, porque, sendo tudo igual, já toda a gente tem aquilo e ninguém se interessa, a moda vai sendo feita com esse interesse, e há pessoas que seguem esse interesse e têm de seguir a moda: desde ontem usa-se assim! Então tem de ser. Aqui há meia dúzia de anos eram as calças rotas nos joelhos. Mas então porque é que as mulheres teimam em vestir-se de maneira diferente dos homens? Isso são elas, não são obrigadas, elas é que querem vestir-se de maneira diferente, nenhuma mulher se veste como um homem. E até já há uma Comissão para a Igualdade... E então o bicho pode ser vestido a condizer com a dona... é de se lhe tirar o chapéu e se calhar o resto.

 

J.F: Ou é o homem que não se veste como uma mulher?

Mas porque é que o homem se havia de vestir como uma mulher, se a roupa dele é simples, normalmente é o mais fácil, umas calças e uma camisa e está a andar? As mulheres não resistem a essa diferença. Alguns homens também não resistem a marcar a diferença, como, deixando crescer a barba, é estar a dizer: eu sou homem. O bigode e assim já são umas variedades que remetem ou para um hábito cultural de uma região ou de uma época. O Dali foi aquele que transformou o bigode num fenómeno artístico, em arte pura. Um fenómeno, mas é preciso tê-lo!

 

JF: Quem é que gostaria que o representasse num filme sobre si?

Ninguém. Eu não gostaria de filme nenhum sobre mim, porque de certeza qualquer filme sobre mim ou sobre outra pessoa qualquer é mais um filme sobre a interpretação que o autor do filme faz daquela pessoa, por isso não tenho interesse nenhum.

 

JF: O que é ser um filho da puta?

Eu escrevi um livro relativamente longo sobre isso. Esse livro está traduzido em espanhol, italiano e em francês, em que o termo é equivalente. Em alemão, tendo em atenção a minha relação com a Alemanha, já duas ou três pessoas me propuseram traduzir e mandaram até duas ou três páginas, e está muito bem traduzido, mas simplesmente não há nenhum termo para “filho da puta”. Ou melhor, há maneiras de insultar as pessoas, mas não servem, porque “filho da puta” em português é tão universal, especial, que se pode chamar “filho da puta” a um objecto: filho da puta da cadeira que me fez cair! Filho da puta da faca! “Filho da puta” tem um alcance semântico que me permitiu fazer aquele livro, que é mais uma divagação filosófica do que outra coisa. O que é “filho da puta”? Só posso dizer para lerem o livro e talvez fiquem a saber.

 

JF: Portugal ou Alemanha?

Eu fui para a Alemanha tinha vinte e três anos, vim da Alemanha no ano em que fiz quarenta, é a parte principal de uma vida, entre os vinte e três e os quarenta. Passei na Alemanha a parte principal da minha vida, é natural que tenha relações de língua, de hábitos, de costumes, muito fortes. Quando voltei a Portugal não foi fácil, tanto mais que eu vinha com uma ilusão muito grande, a seguir ao 25 de Abril, e não contava vir encontrar aquela balbúrdia; e depois disso encontrar outra vez o que fazia parte da minha adolescência, esta sórdida monotonia portuguesa em tudo, desde a política até ao dia-a-dia, é uma monotonia, uma falta de força de viver e de energia. Neste país a falta de energia... De vez em quando há alguém na política que levanta a voz, mas é um levantar de voz retórico, oratório, não levanta lá dentro nada. Não sei, não percebo lá muito bem este país. Até linguisticamente, se compararmos o espanhol com o português, vemos a diferença que há, na estrutura. As duas línguas não só têm origem comum, como os dois espaços no início tinham tanta afinidade que a gente sabe que houve a união, e agora os espanhóis têm aquela energia ao falar... Os portugueses não só não têm energia como a própria estrutura do português remete sempre para eufemismos, para formas de delicadeza. Aquela história, que eu acho que já contei, da portuguesa que chegou, aterrou em Madrid, foi ao bar e pediu um café e disse: por favor, queria um café. E o empregado perguntou-lhe: “querías o quieres?” Está tudo dito. E nós chamamos a isso “delicadeza”, mas não é delicadeza, é uma maneira de ser, a delicadeza é outra coisa.

Portanto, Portugal ou Alemanha? Olhem, a minha maneira de ser foi sempre, e é, viver muito no presente, sem me preocupar muito nem com o passado nem com o futuro, sou assim, e portanto eu vivi na Alemanha muito bem. Vivi muito bem, mas havia uma inquietação qualquer, que eu não sei descrever. Talvez nós não possamos esquecer totalmente, embora... Eu ensinava português e literatura portuguesa, em casa falava português, não falava alemão. Na Universidade, falava italiano com o meu colega de gabinete, que era  italiano, porque ele não queria falar alemão. E eu fui muitas vezes a Itália. Quando estava na Alemanha, não podia vir a Portugal, por razões de incumprimento do serviço militar e para o fim fiquei sem passaporte, mesmo. E foi assim um bocadinho... Eu fiz uma festa quando fiquei sem passaporte (estou livre! estou livre!), mas de facto a coisa começa depois a pesar, porque sim... As saídas todas para a França e para a Itália acabaram, sem passaporte não davam.

No entanto, de ambos os países eu tenho lembranças e impressões boas e más, nenhum deles é só mau ou só bom. O espanto na Alemanha é o teatro, o teatro alemão é uma coisa de tirar a respiração, nos grandes teatros. Não na cidade onde eu estive, que foi a única cidade que não foi bombardeada, porque os americanos tencionavam fazer lá já o quartel-general. A dez quilómetros da minha cidade, havia uma cidade industrial, que foi muito afectada pela guerra, mas já estava construído um grande teatro, com a casa grande e a casa pequena. E de vez em quando eles abriam o fundo e ficavam com um palco com 30 metros. Incrível! Há coisas tão diferentes na minha cabeça, na minha experiência, mas eu continuo com aquela minha tendência para viver o momento presente... A Alemanha desapareceu praticamente da minha cabeça, tirando assim o interesse por alguns poetas, mas renasceu recentemente há um mês ou dois, porque, por acaso, aquele deus grego chamado kairós, que é o deus dos momentos, aqueles momentos que passam e que acontecem, e que a gente agarra ou não agarra, eu estava sentado num banco do Campo Santana, que fica em frente ao Instituto Alemão, e havia uma senhora, que estava a uma certa distância, a tomar café, que de vez em quando olhava para mim, com alguma insistência. Depois a senhora levantou-se e ao passar por mim disse: É Alberto Pimenta? E eu disse: “sou, como quem diz, que remédio, não é?” E ela disse: “ai, eu fui sua aluna há 40 anos na Alemanha”. E eu agora tenho tido contacto com ela e  com uma outra, também minha aluna. Eram professoras no Instituto, agora já se reformaram. Então, de repente, a Alemanha toda voltou à minha cabeça através delas, porque não foi um ano nem dois, foram 16 ou 17.

 

JF: Como é viver na Mouraria?

Já não há Mouraria, isso já acabou. Agora está uma parte nas mãos dos indianos e dos chineses, já há uns 6 ou 7 anos, outra parte destinada a alojamento local. Estou nesta casa desde 2000, não era assim tanto. Aqui em frente, o jardim particular de um palacete foi todo abaixo para fazer apartamentos para turistas e mais um hotel. Isto mudou bastante nesta zona, tirando esta casa, porque nos três andares vivem os proprietários.

 

JF: Beijo ou beijinho?

Uma das marcas da hipocrisia portuguesa é o uso do termo beijinho, que se dá à despedida. Lá está, há uma igualdade de géneros, mas se for despedir-me de um amigo com dois beijinhos é esquisito para a maior parte das pessoas. Penso sempre naquelas senhoras queques que não encostam os lábios sequer, encostam a cara, a dizer: um beijinho, vá! É assim como quem diz, nós somos muito amigas, um beijinho. Mas são beijos simplesmente, não são beijos eróticos, e é isso que a hipocrisia portuguesa quer marcar, atenção não são eróticos. Para mim é hipocrisia, não dá. Porque um beijo na testa, um beijo na mão, é um beijo. Um beijo no rosto é um beijo, pronto.

Entrevista a Lorraine Mariner

Maria S. Mendes

Entrevista a Lorraine Mariner

Londres, 14 de Agosto de 2017

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No dia 14 de Agosto, encontrámo-nos com Lorraine Mariner à porta da National Poetry Library, no Southbank Centre, em Londres. Conversámos durante cerca de uma hora sobre poesia e poetas, mas também sobre móveis IKEA, o vestido que nunca tivemos e os músicos que guardaríamos numa cave, à nossa disposição, para que escrevessem e tocassem para nós para sempre.

 

Jogos Florais: Gosta de poesia?

Lorraine Mariner: Sim. [Risos]. E gosto mesmo muito de escrever. Há alturas em que a vida se torna complicada e apercebo-me de que não estou a escrever tanto quanto gostaria. Mas nunca me senti bloqueada. Isto é, sosseguei e tentei não me preocupar, e depois voltou.

JF: Também trabalha com poesia, tem um emprego na Poetry Library.

É maravilhoso. O meu primeiro trabalho numa biblioteca foi numa biblioteca médica e empenhei-me, mas quando trabalhamos numa área de que gostamos esforçamo-nos mais e também aprendemos. Agora, por vezes, afasto-me da poesia. Antigamente, quando não trabalhava na Poetry Library, ia a cursos de poesia e fugia para me rodear de poesia, mas ultimamente ir de férias não tem nada que ver com poesia.

JF: Tem uma rotina diária para a escrita?

Não. [Risos] Descobri que o que funciona bem é simplesmente acordar num dia em que não trabalho e decidir que vou escrever. Faço um chá e começo a trabalhar.

JF: Pode dizer-me um poema de que gosta particularmente e explicar porquê?

Sim. Uma das minhas poetisas preferidas é Fleur Adcock. Gosto do poema “Things”. É um poema muito curto, mas é divertido e universal e profundo.

 

 

Poema preferido:

 

Things

 

There are worse things than having behaved foolishly in public.

There are worse things than these miniature betrayals, committed or

endured or suspected; there are worse things

than not being able to sleep for thinking about them.

It is 5 a.m. All the worse things come stalking in

and stand icily about the bed looking worse and worse and worse.

 

Fleur Adcock, Poems. London: Bloodaxe Books, 2000.

 

JF: E um dos seus?

Julgo que “Thursday”. Porque era sobre uma coisa monumental que aconteceu em Londres, os bombardeamentos na quinta-feira, a 7 de Julho de 2005, e orgulhei-me de, enquanto poeta, ter sido capaz de registar o momento e que [o poema] se tenha tornado uma espécie de monumento àquele dia. Mas na verdade gosto mesmo muito de “There is nothing wrong with my sister” (espreite aqui). Julgo que gosto de poemas que tocam outras pessoas, e as pessoas parecem gostar mesmo muito desse.

JF: Há algum poema / poeta que considere subvalorizado?

Sim, há de certeza. Posso pensar sobre isso?

JF: Usa a poesia no seu dia-a-dia?

Sim, sim. Diria que leio um poema todos os dias.

JF: Como escolhe o poema?

Chega-me através do trabalho. Na sexta-feira, o John Hegley entrou na biblioteca e estava à procura de um poema que o Les Murray tinha escrito sobre o pai. Então, procurei-o. Ele lembrava-se de um pedaço e eu investiguei. Por isso li “The Last Hellos”, um poema que não tinha lido antes e que me impressionou, e lembrei-me de que precisava de ler mais Les Murray.

JF: Lembra-se de versos regularmente? Sabe poemas de cor?

Sim, de alguns pedaços. E por causa da minha profissão, as pessoas recitam-me bocadinhos de poemas e pensam que reconhecerei os versos e saberei qual é o poema. [Risos].

JF: Como se imagina, daqui a 50 anos, numa enciclopédia literária? Como gostaria de ser recordada?

Julgo que seria algo como o que escrevi naquele texto que mencionou, acerca de Jessica Elton (ler aqui). Quando comecei pensei que seria perfeito se fosse capaz de escrever um poema fantástico, de que as pessoas se lembrassem… isso seria suficiente. Ainda acho que isso é verdade. Às vezes penso que ninguém se recordará recordará de mim e depois lembro-me de que, se escrever apenas um poema fantástico, está tudo bem.

JF: Lê o que os críticos escrevem sobre si? Acha que acertam?

Sim, leio.

Na verdade, acabei de me lembrar de um poeta. David Hart. Acho que ele é subvalorizado. Um dos meus poemas preferidos de sempre é o seu “Father Hopkins is Shy About His Poems” (ler aqui).

Aprendi com o meu segundo livro, que quase não teve críticas. De certa forma, isso foi difícil. Os primeiros livros recebem muita atenção, e, no caso dos segundos, alguns recebem atenção, mas a maioria é ignorada…  Todas as críticas foram boas, mas não houve assim tantas. Então, passei de ficar aborrecida por ter críticas más, para ficar aborrecida por não ter críticas. Julgo que quando se trata de críticas é complicado.

 JF: Gosta de ler crítica literária? Que tipo de crítica gostaria de ter?

Talvez de alguém que dê aos poemas a atenção que merecem, que tente perceber o que o poeta está a tentar fazer, o que deu origem aos poemas.

JF: Lê crítica?

LM: Sim, e no trabalho temos uma colecção de recortes de imprensa, por isso digitalizamos revistas e colocamos poetas diferentes em ficheiros diferentes, portanto leio muita crítica na diagonal. Mas é complicado. O Billy Collins era um poeta que fui ouvir ler quando comecei a entusiasmar-me por poesia, e adorava-o, tornei-me fã. Mas depois li uma crítica terrível na revista Poetry Review, o que me fez questionar a minha apreciação. E acho que se [a crítica] tem esse efeito, se faz com que alguém pense “Estava errada, não devia ter gostado daquele tipo de poesia”, então sim, julgo que pode ser muito prejudicial.

JF: Um poeta português [Alexandre O’Neill] disse numa entrevista que era melhor receber um aperto de mão de um leitor entusiasmado do que ler uma crítica. Diria o mesmo?

Sim, também acho.

JF: Tem alguma ideia sobre o modo como a poesia devia ser ensinada?

Talvez o que tenha ajudado mais tenha sido quando diziam “se gostaste deste poema, também vais gostar muito deste.” Acho que ler é o melhor professor.

JF: Que poetas foi aconselhada a ler?

Quando comecei, o meu editor, Don Paterson, disse-me para ler Hugo Williams. E é muito interessante, porque nessa altura ainda não tinha lido nada do Hugo Williams, mas consigo encontrar semelhanças no modo como escrevemos. E também fui aconselhada a ler Selima Hill. Acho que também vão gostar dela.

JF: Há alguma coisa de que não goste na poesia? Uma palavra? Uma figura de estilo? Clichés que se esforça por evitar?

Nem por isso. Mas sim! Na verdade acho que tenho. Gosto de poesia muito directa.

JF: Porquê?

Não sei. Julgo que ser-se directo, usar-se linguagem muito simples, também pode ser profundo; vai directamente ao coração das coisas. Tendo dito que gosto de poetas como Medbh McGuckian, em que apesar de não saber bem o que se passa no poema me desperta sentimentos fortes, por vezes gosto de alguma ambiguidade. Mas gosto mesmo muito de poesia sincera, directa. [Risos]

JF: O que perguntaria a outro poeta?

Interessa-me muito saber com que frequência escrevem e se têm algum tipo de rotina.

JF: Temos uma secção sobre curiosidades literárias. Há alguma de que se lembre?

De certeza que sim. Já volto a esta. Espero que isto não seja egocêntrico, mas tenho uma curiosidade literária minha. Servi de modelo para a personagem Sybill Trelawney (ver aqui), na edição ilustrada de Harry Potter. Conheço o ilustrador, Jim Kay, e ele achou que eu daria uma boa Sybill! Mas ainda vou tentar lembrar-me de uma sobre um poeta do passado, já que isso seria melhor para o vosso site.

JF: Uma amiga perguntou se haveria algum vestido que sempre sonhou ter, mas nunca teve.

Acho que não, mas… Acho que não, uso principalmente calças. Num fim de ano decidi que usaria saia uma vez por semana e, nos últimos anos, comprei mais vestidos do que alguma vez comprara. Na verdade, uma vez vi um vestido na montra de uma loja que gostaria de ter comprado. Era de chiffon azul e tinha uma aplicação metálica e brilhante à frente e numa das mangas, como lantejoulas. Mas devo ter pensado onde o usaria.

JF: Tem passatempos?

Corro. Faço corridas e toco clarinete. Devia praticar mais.

JF: Tem uma canção preferida?

Bem, sou fã de Steve Sondheim, e a “Send me to the Clowns” tem trechos muito bonitos para clarinete.

JF: Quem gostaria que a representasse num filme sobre a sua vida?

[Risos] Bem, gosto muito… Hhmm, devia escolher uma actriz inglesa. Hhmm… Bem, talvez escolha uma actriz francesa. Adoro a Audrey Tautou. Acho que o filme, quero dizer, talvez eu pudesse ser uma parte curta num filme, porque acho que a minha vida seria muito aborrecida, acho que eu não daria um filme muito bom. [Risos] Então talvez uma personagem menor, representada pela Audrey Tautou. [Risos]

JF: Preocupa-se com métrica e ritmo quando escreve?

Sim, penso sobre rimas internas e coisas desse tipo. Estou consciente disso. Penso enquanto escrevo, agora tenho um bocadinho mais de controlo do que quando comecei. Lembro-me de alguém me ter dito que eu não rimava, mas acho que tenho rimas internas. E por vezes também acho que se passa qualquer coisa de que não estou inteiramente consciente.

JF: Qual é a sua relação com outros poetas? Vai a leituras de poesia, por exemplo?

Sim, vou a algumas leituras de poesia. Há leituras regulares na National Poetry Library. Frequento um grupo de leitura de poesia, mas também um grupo de escrita com outros poetas e estaria muito perdida sem isso.

JF: Como funciona?

Encontramo-nos todos os meses, ou a cada seis semanas, e em geral levamos connosco dois poemas em que estamos a trabalhar, partilhamos e fazemos comentários. Agora somos seis. Quando me mudei para Greenwich, descobri, através da revista Magma, que o poeta Mick Delap, que eu tinha conhecido num curso de literatura, me tinha convidado para me juntar a um grupo que estava a iniciar.

JF: O editor da Picador faz sugestões?

Sim, o Don Paterson, o editor, envolve-se muito.

JF: Quais são os seus locais preferidos em Londres? E a sua livraria preferida?

Isto provavelmente não soa muito bem, mas como trabalho com livros tento evitá-los. É o que acontece depois de 20 anos a trabalhar em bibliotecas! Eu vivo perto de Greenwich Park e de Blackheath, por isso adoro ir ao brejo e a Greenwich Park. E descobri um sítio novo, o Charlton Lido (caso não tenham a palavra “lido” em Portugal, é uma piscina ao ar livre e, felizmente, a de Charlton é aquecida). Aconselho uma ida até lá, embora não vá há que tempos. Adoro ir ao cinema. Adoro o Greenwich Picture House. Um dos meus objectivos de vida era poder caminhar até ao cinema, de minha casa, e posso ir a pé pelo parque, até ao Greenwich Picture House.

JF: Gosta de alguns filmes em particular?

Gosto muito de comédias românticas. Mas também de um pouco de ficção científica.

JF: Quais são os seus filmes preferidos?

When Harry met Sally, mas adoro While You were sleeping. E Strictly Ballroom passou no outro dia na televisão e eu devia ir para a cama, mas não consegui parar de ver, apesar de o ter visto montes de vezes. Estou muito entusiasmada com o novo Star Wars e com o novo Blade Runner.

JF: Vi que havia um clube de poesia de Philip Larkin. Ele é uma referência importante para si?

Fizemos um clube de leitura, foi só uma vez, em que olhámos para os seus poemas. Gosto muito dos poemas dele e marquei uma viagem para Hull em Outubro, porque há uma exposição dedicada a Philip Larkin, na Universidade de Hull. E, há uns anos, fui a Coventry e acabei por espreitar a casa onde ele nasceu. Eu sei que já não é tão “fixe” gostar dele hoje em dia. Acho, e é algo com que consigo identificar-me, que os escritores podem, quando escrevem para alguém, reinventar o modo como escrevem para se adaptarem à pessoa, e julgo que ele fez isso, mas não desculpa as coisas que ele disse.

JF: Há alguma coisa que gostaria de ver num site de poesia?

Agora estamos a reformular o site da National Poetry Library e tenho pensado muito nisso. Acho que o principal são poemas.

JF: Acredita nos móveis IKEA, na sua durabilidade?

Acredito. Sim, acredito. Ultimamente tenho-me sentido atraída por móveis em segunda mão, mas à entrada da biblioteca, por onde passámos, é tudo feito de prateleiras IKEA. Adoro as estantes de livros deles. [Então não cairão sobre os leitores, como o armário no seu poema?] [Risos] Não, não. Sim, temos de os construir como deve ser, e a minha irmã constrói-os como deve ser. Por isso… [Risos]

JF: Que poeta contemporâneo entrevistaria, se pudesse?

Hhmm… Há pouco tempo fui a uma conferência e a Sinéad Morrissey estava lá, e gostaria de ter falado com ela, mas fui tímida. Foi um disparate, porque já nos tínhamos conhecido… Por isso talvez gostasse de entrevistar a Sinéad Morrissey.

JF: Que quadro gostaria de ter numa parede de casa?

Eu vou a exposições e penso muitas vezes “gostaria de ter aquele”. Fui à exposição da Georgia O'Keeffe na Tate Modern, no ano passado, e ali estava um quadro pequeno, bonito, de uma prateleira com algas verdes e vermelhas (“Shell No. 2”). Pensei que gostaria de o levar para casa, simplesmente. E depois um amigo enviou-me um postal e era o mesmo!

JF: Que músico gostaria de ter na cave de sua casa, disponível para tocar para si sempre que quisesse?

[Risos] Seria o Ron Sexsmith, porque ele é tão prolífico que estaria sempre a escrever canções novas. Por isso seria óptimo se ele pudesse ficar na minha cave a escrever canções. [Risos] Mas acho que ele não gostaria de estar na minha cave… embora eu...[Risos]

JF: Alimentá-lo-ia como deve ser. [Risos]

Sim! E também sou fã da Natalie Merchant, por isso gostaria que ambos estivessem lá. [Risos] Não sei o que pensaria disso, mas talvez durante uma semana pudessem ficar na minha cave e escrevessem algumas canções juntos. [Gostaria de escrever algumas canções com eles?] [Risos] Oh sim, não tinha pensado nisso! Talvez nós os três! E acho que também diria ao meu irmão. Nós os quatro [Risos]. Acho que também devia convidar as minhas irmãs! Podíamos lançar um álbum como Merchant, Sexsmith and the Mariner Family. Eu podia tocar clarinete.

JF: Que poetas contemporâneos sugeriria a alguém que não conhece muito bem poesia inglesa?

Se puder expandir para poesia britânica, gosto muito de vários poetas da Irlanda do Norte, como Sinéad Morrissey, Colette Bryce, Leontia Flynn e Derek Mahon. Depois, Fleur Adcock e Selima Hill de quem falei atrás. 

JF: De que pergunta gostou mais, se tiver gostado de alguma.

Talvez da primeira. Gosta de poesia?

 


Lorraine Mariner publicou duas colecções de poesia com a Picador, Furniture (2009) e There Will Be No More Nonsense (2014) e trabalha como bibliotecária na National Poetry Library, no Southbank Centre, em Londres. Editou duas antologias para a Candlestick Press, Ten Poems About Tea e Ten Poems About Friendship. Ler mais aqui

Entrevista a Adília Lopes

Maria S. Mendes

 Fotografia: Joana Dilão

Fotografia: Joana Dilão

Entrevista a Adília Lopes 

Lisboa, 2 de Agosto de 2017

 

 

O ponto de encontro para a nossa entrevista foi o Danúbio, o café-restaurante da Rua Passos Manuel, nascido logo no pós-25 de abril, contou-nos Adília Lopes, que já nos esperava quando chegámos, pelo menos vinte minutos mais cedo do que o combinado. Levámos perguntas e fizemos a entrevista planeada, mas também aproveitámos para ficar a conversar sobre o bairro, sobre o próximo livro dedicado a Lucinda, sobre os choupos e as cerejeiras da Rua José Estêvão, sobre sonhos e pesadelos, e ainda sobre a descaracterização (a falta daqueles espelhos!) da pastelaria Tarantela (agora com filas de pré-pagamento que dão para a rua) e sobre comer bons bolos antes de apreciar a beleza das catedrais.

 

Jogos Florais: Adília ou Maria José?

Adília Lopes: Adília, porque é as poesias, não é?

JF: Poeta ou poetisa?

Poetisa.

JF: Porquê?

Porque a palavra existe em português e é o feminino.

JF: Gosta de poesia?

[risos] Às vezes não gosto, às vezes não gosto...

JF: Isto assumindo que um escritor, uma poetisa, neste caso, gosta do que faz...

Eu gosto muito de poesia quando é boa poesia, quando... Muitas vezes lêem-se livros maus, e eu também escrevi poemas maus, e há coisas más. Mas, por exemplo, ontem li um livro do Frederico Lourenço de que gostei muito, Santo Asinha e outros poemas, e fiquei muito contente por ler um livro tão bom. Às vezes lê-se um poema, leio um poema que acho muito bom e fico contente com isso. Mas há muitas coisas de que eu não gosto, claro.

JF: Gosta mais de escrever poesia do que prosa?

Eu escrevo versos, não escrevo propriamente parágrafos, isso é uma coisa natural em mim, não é uma questão de opção, é assim.

JF: Mas chegou a escrever crónicas...

Sim, escrevi crónicas, mas acho que não resultaram muito bem, porque não é a minha maneira de pensar. Eu penso por versos, muito por versos.

JF: Tem uma rotina diária?

Sim, tenho hábitos rígidos de ir ao café a tantas horas, de fazer certas coisas sempre às mesmas horas, sempre da mesma maneira, e depois, como não tenho uma vida muito fácil... o que consigo fazer é com esforço e então nem sempre consigo fazer o que quero, não é?, o que gostaria de fazer, e assim nem sempre leio os livros todos que queria ler, nem sempre escrevo o que queria escrever, é uma luta, é o que consigo fazer.

JF: Escreve à mão?

Eu não tenho computador. Escrevo à mão e à máquina, numa máquina que não é eléctrica. É uma Olivetti.

JF: De que cor?

Eu escolhi a cor, é azul turquesa.

JF: E não se imagina a escrever a computador?

Eu já escrevi a computador, mas não gostei... E eu não tenho ninguém que me ajude com o computador, era eu que me desemburrava sozinha. Se havia algum problema com o computador, tinha de ir de táxi à loja, não tinha ninguém que me ajudasse. Eu escrevia a computador as crónicas, numa disquete. Mas o que eu notei é que escrevia pior, os textos ressentem-se, saem piores.

JF: Mas porquê? Por ser mais rápido?

Porque no computador parece tudo muito fácil, sabe bem, a pessoa gosta de estar ali a dedilhar... Parece fácil, a pessoa está ali a escrever e até dá a ideia de que a está a escrever um romance. Noutros casos sairá muito bem, no meu não sai. Eu acho que preciso de tempo e de alguma resistência do material. Sinto isso.

JF: Diga-nos um poema de que goste muito.

Dos meus? Ou de outra pessoa? [risos]

JF: Dos dois. [risos] Na verdade, é a isto que tentamos responder nos Jogos Florais. 

Um poema de que goste muito... Gosto muito do “Nocturno” de Álcman, do “Nocturno” de Álcman gosto muito, porque fala dos animais, do sono dos animais, da natureza à noite, que está em repouso (nem toda está em repouso), mas fala do repouso da natureza, fala da natureza. E gosto muito desse poema.

 

 

Poema favorito

Álcman, “Nocturno”

 

Dormem os píncaros das montanhas e as ravinas,

os promontórios e as torrentes,

e todas as raças rastejantes que a terra negra alimenta:

as feras das montanhas e a raça das abelhas

e os monstros nas profundezas do mar purpúreo;

dormem as raças das aves de longas asas.

 

Poesia Grega. De Álcman a Teócrito, organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Lisboa, Cotovia, 2006. Aqui publicado com autorização da editora. 

 

 

JF: E dos seus?

Dos meus não há um poema de que eu goste assim em especial, mas há dois livros que eu acho que ficaram bem: O Poeta de Pondichéry, acho que ficou bem esse livro, e fico muito contente com a edição da Assírio, com as ilustrações do Pedro Proença, acho que ficou muito bonito; e o livro Manhã, acho que o livro Manhã também saiu bem, correu bem, pronto, foi uma sorte, correu bem.

JF: Esse temos aqui para autografar. [risos] Diga-nos um poeta que considere subvalorizado.

Eu acho que às vezes o Ruy Belo é subvalorizado. Eu acho o Ruy Belo subvalorizado, porque as pessoas têm relutância em relação a certas referências religiosas e assim, e então não o consideram muito ou não o consideram tanto como outros que eu acho que não são tão bons.

JF: Vamos ter de fazer uma pergunta irresistível... Acha que há poetas sobrevalorizados?

Acho...

JF: Se não quiser, não tem de nomear.

Não queria nomear.

JF: Usa a poesia no seu dia-a-dia?

Sim, muitas vezes, há versos de que me lembro, que me vêm à cabeça, não os vou procurar, eu lembro-me desses versos em várias circunstâncias. Outras vezes, quando não me sinto bem ou assim, geralmente leio poemas da Sophia de Mello Breyner. Há poemas, como eu os li quando era muito nova e como gostava daqueles poemas... Há um poema que leio muito dela, talvez não seja dos melhores poemas que ela escreveu sobre os quadros da Maria Helena Vieira da Silva, mas é um poema de que eu gosto que é “Landgrave ou Maria Helena Vieira da Silva”, não sei se está primeiro o nome do quadro se primeiro o nome da pintora, mas é um poema que eu gosto muito. Eu acho que esse poema sobre o quadro da Maria Helena Vieira da Silva “Landgrave” não me parece tão conseguido como outro que ela escreveu sobre outro quadro da Vieira da Silva que é o “Itinerário inelutável”, mas eu afetivamente gosto mais do “Landgrave”.

JF: Sabe então muitos versos de cor?

Não, não sei muitos versos de cor. É assim: eu tenho uma imagem do poema, lembro-me de muitas coisas do poema e depois preciso de chegar a casa e de ir verificar no livro, isso preciso.

JF: Pensamos muitas vezes na posteridade dos poetas. Como é que se imagina daqui por cem anos num verbete de uma enciclopédia literária?

Não me imagino, não.

JF: Não haveria nada que gostasse de ler sobre si?

Não, nunca imagino isso. Há uma frase do Fernando Pessoa que diz que Milton não fazia nada sem que pensasse na sua fama futura. Eu nunca penso na fama futura. Eu penso no presente, nem penso muito no futuro, eu penso no presente.

JF: E relativamente ao presente, costuma ler alguma crítica literária sobre a sua obra?

Algumas leio, mas não leio todas, acho que algumas são maldosas e infundadas, então eu não leio. Leio só assim algumas que me parecem mais justificadas.

JF: Acha que algumas acertam?

Acho que sim.

JF: E que tipo de crítica é que gosta de ler, mesmo sobre outros poetas? O que é que gosta de ler na crítica literária?

Gosto quando vejo que há uma leitura dos poemas, que tem entendimento do poeta e que faz descobrir coisas que eu não tinha descoberto ou que me dá informações que eu não tinha. É isso que gosto de ver. E também quando me dá indicação de um livro que eu não conhecia e que passo a conhecer pela crítica. Isso também acontece.

JF: O Alexandre O’Neill disse numa entrevista que achava muito mais tocante para um poeta o aperto de mão de um leitor que a crítica de um crítico. O que prefere?

Também acho que sim.

JF: Já teve reações de leitores?

Sim, sim, isso é muito mais gratificante.... Às vezes, ter pessoas, até sobretudo pessoas que não têm conhecimentos literários ou assim... que houve qualquer coisa que leram meu e que gostaram, que entenderam muito bem – quem sou eu para dizer que entenderam muito bem –, isso é muito mais gratificante.

JF: Pensamos muitas vezes em qual seria uma boa forma de se ensinar um poema. Tem alguma ideia sobre o ensino da poesia?

Acho que se pode aprender poesia, é preciso que os alunos encontrem poemas de que gostem muito. Às vezes o professor pode não conseguir transmitir isso, mas um bom professor encontra poemas de que os alunos gostam, acho que encontra. O problema talvez hoje é o ensino... é muito competitivo, as pessoas pensam muito em entrar para a faculdade, entrar para estes cursos e assim, isso prejudica muito essa leitura mais aberta, mais livre, em que há tempo, em que há tempo livre. Sem tempo livre não há poemas, nem se lê nem se escrevem.

JF: Tem alguma embirração linguística ou poética? Uma palavra de que não goste, por exemplo.

Não, não tenho. Não há assim nenhuma... não.

JF: Mas tem um poema que me parece não simpatizar muito com palavras caras.

Sim [risos].

JF: Porquê? [risos]

É não simpatizar sobretudo com pessoas arrogantes, com pessoas que usam a linguagem para se promoverem, para maltratarem os outros ou para se empoderarem, isso não é bonito, claro.

JF: Isso também acontece nalguma poesia?

Sim, também, também isso acontece.

JF: Tem alguma figura de estilo preferida?

Nunca pensei nisso, nunca pensei nisso....

JF: Que perguntaria a outro poeta? Se houvesse alguém que admirasse, que perguntas lhe faria?

Acho que não perguntava nada, dizia bom dia ou boa tarde, como faço nos cafés, não perguntava nada, não sei...

JF: Quando lê um poeta de que gosta, não pensa se gostaria de lhe ter perguntado ou dito alguma coisa?

Não, acho que não, acho que não. Eu percebo que se entrevistem os escritores, os que escrevem os romances, os poemas. Podem dizer sobre o que escreveram, o que fazem, o que vivem, como vêem as coisas, mas eu acho que não ia perguntar... Falo com um poeta ou com um romancista como falo com a padeira, com o empregado do café, com o carteiro. É assim.

JF: Todos têm coisas interessantes a dizer.

Sim, todos têm coisas interessantes a dizer.

JF: Perguntámos a algumas pessoas que admiram a sua obra se tinham perguntas para si. Por exemplo, uma costureira perguntou se a Adília podia descrever um vestido com que sempre tenha sonhado e que nunca tenha tido. Se existiria algum...

[risos] Quando eu tinha 30 anos e assim, eu gostava daquele costureiro francês, Christian Lacroix. É claro que nunca teria dinheiro para comprar um vestido dele nem me passaria pela cabeça gastar dinheiro num vestido, mas eu gostava daquelas roupas muito coloridas, que lembram trajes folclóricos espanhóis, russos... Eu não andava assim vestida, mas gostava desses fatos... de teatro, de ópera.

JF: Temos uma secção no site sobre curiosidades literárias. Não sabemos se gosta de curiosidades literárias e se se lembra de alguma que gostasse de partilhar connosco. Por exemplo, o Lord Byron, quando estudou em Trinity, tinha um urso nos aposentos. Ele gostava muito de animais e era o único que não estava nomeado na lista de animais domésticos proibidos.

Gosto de saber essas coisas, sim.

JF: Tem alguma?

O poeta com quem convivi mais foi o José Blanc de Portugal. Estou a pensar se ele contava assim alguma coisa... Ele tinha, mas isto talvez não se possa dizer... Ele tinha uma casa muito grande e tinha um quarto interior que chamava “O Inferno” e punha lá os livros de que não gostava, que eram geralmente dos neo-realistas. Não era só dos neo-realistas que ele não gostava, mas punha lá os livros de que não gostava. Chamava “O Inferno”.

JF: Gostou de conviver com o José Blanc de Portugal?

Sim, gostava da poesia dele.

JF: A poesia dele também parece subvalorizada.

Também, também está. Na geração dele talvez seja o mais esquecido.

JF: Gosta de escrever noutras línguas? Já experimentou escrever numa língua que não conhece bem e depois traduzir para a língua materna?

Já escrevi noutras línguas, nas línguas que aprendi no Liceu: Francês e Inglês. Mas assim traduzir depois o meu poema para a minha língua não, isso não.

JF: Mas tem os seus poemas traduzidos em várias línguas?

Sim, em algumas línguas.

JF: Já se leu nessas outras línguas?

Nas que conheço, sim [risos]. Há muitas que não conheço.

JF: E nas que conhece, acha que a poesia se perde na tradução?

Se for uma boa tradução, não se perde. Claro que se é má, perde-se, mas se é uma boa tradução, não se perde. Às vezes o que acontece é que fica outro poema, que não é bem o que a pessoa escreveu, mas partiram do poema da pessoa.

JF: Vimos que gostava de dar de comer aos pombos quando era criança. Ainda gosta?

Sim. Eu tenho uma varanda com plantas, dar de comer não dou, porque talvez os vizinhos não gostassem, mas dou água, porque eles com o calor têm muita sede e ponho água num vaso na varanda, num cachepot, para eles terem água para beber, e eles vão lá. É engraçado, eu estou às vezes em casa sentada, tenho a varanda fechada, mas tenho cortinas transparentes, e vejo chegarem pombos, pardais, melros... Uma vez vi um pássaro muito bonito com penas azuis. Gosto disso.

JF: Quem é que gostaria que a representasse num filme sobre si?

Uma actriz? Estou a pensar, leva tempo... Já não pode ser, que já morreu, mas eu gostava muito de uma actriz americana, Lillian Gish, de filmes mudos e assim. Gostava muito dela. É claro que não é nada parecida comigo, mas eu gosto muito dela nos filmes mudos e assim. Talvez gostasse de ser representada num filme mudo.

JF: Tem passatempos?

Faço palavras cruzadas.

JF: De algum jornal em particular?

Do Expresso, faço as do Expresso. Compro o Expresso ao Sábado e faço as palavras cruzadas do Expresso. E acho que assim passatempo convencional é o único que tenho. De resto, como a vida não é fácil, é sempre lutar... Oiço música à noite, mas isso não é um passatempo, é uma coisa que gosto de fazer, oiço a Antena 2, oiço o concerto às 9:00 da noite. Às 9.00 da noite há um concerto e costumo ouvir esse concerto durante a semana, quando estou bem, que às vezes estou muito atormentada, e estou com sono e maldisposta e não estou a ouvir música, não tenho cabeça para ouvir música nem para ler. É assim.

JF: Quando diz que a vida não é fácil, é no sentido que às vezes é triste?

Sim, cresci num ambiente muito deprimente, e isso prejudicou-me, quer dizer, marcou-me. E depois o trabalho literário é muito mal pago, isso não dá esperança, não dá esperança... É uma vida que... Pensa-se sempre que é um beco sem saída. Pronto, isso não dá esperança, realmente.

JF: Tem alguma relação com o meio literário?

Eu não me dou com o meio literário, não tenho assim muitos contactos, nem nenhuns, não tenho contactos com o meio literário, não tenho.

JF: E tem interesse por ele?

Não, também não tenho. Tenho uma ideia que é um meio de intrigas e assim, como todos os meios profissionais, como todos os meios humanos, e não só profissionais, tudo. E isso não me interessa.

JF: Quais são as suas influências?

A primeira é a Sophia de Mello Breyner, sim. Geralmente as pessoas aparentam-me com o Alexandre O’Neill, mas eu não tinha lido o Alexandre O’Neill e não é o Alexandre O’Neill. Eu gosto muito do Alexandre O’Neill, mas não é o Alexandre O’Neill. É muito mais a Sophia de Mello Breyner e o Ruy Belo, foram os que li, que me fizeram desemburrar, perceber. Primeiro a Sophia, porque ela escrevia contos para crianças, e eu quando era criança lia os contos e assim, depois o Ruy Belo, no fim da adolescência, o Ruy Belo. E também a Sylvia Plath, que eu sei muito pouco inglês, mas conseguia ler em inglês. Eu acho que ela de facto é muito extraordinária, porque eu sabendo tão pouco conseguia ler os poemas dela em inglês. E aprendi, aprendi muito com ela. Mas quem depois me faz escrever poemas, não o conheço, mas li poemas dele, é o João Miguel Fernandes Jorge. Li poemas dele e foi a partir daí que passei a escrever poemas, mas eu acho que aqueles que me influenciaram mesmo, que me marcaram, foram a Sophia, o Ruy Belo e a Sylvia Plath.

JF: E porque é que acha que há esse parentesco com o O’Neill?

Porque há ironia, eu uso ironia, sou às vezes sarcástica. E também porque... Eu nunca trabalhei em publicidade, mas às vezes há coisas que lembram a publicidade. Ele trabalhou em publicidade, talvez por isso as pessoas pensem que há uma relação.

JF: Há pouco disse que era difícil viver da literatura... Tem projectos para breve? Num curto espaço de tempo, publicou vários livros.

Sim, eu em menos de 3 anos escrevi seis livros. Só falta publicar um, que sai este ano. E depois ainda há contos e peças de teatro que eu gostava de escrever, mas é preciso que haja estímulos, apoios, incentivos. Se não há, também a pessoa não consegue raciocinar.

JF: De todas as perguntas que fizemos, qual foi a sua favorita?

Se usa a poesia no dia a dia.

Entrevista a Paulo da Costa Domingos

Maria S. Mendes

 
 Fotografia Joana Dilão

Fotografia Joana Dilão

 

Entrevista a Paulo da Costa Domingos 

Lisboa, 15 de Janeiro de 2018

Encontrámo-nos com Paulo da Costa Domingos na Galeria Monumental. O autor, editor e alfarrabista trazia uma primeira edição de Herberto Helder acabadinha de comprar e que deu o mote a algumas das perguntas sobre encontros fortuitos com outros livros cheios de migalhas de bolachas, inéditos de Gomes Leal e desenhos do rei D. Fernando. Durante a hora e meia que se seguiu conversámos sobre poemas e erros de crítica literária, sobre o trabalho de paciência do leitor, "quase tão persistente como o do escritor”, sobre poetas subvalorizados e sobre autores, como Cesário, que não são realistas.

A acompanhar a entrevista damos notícia de três livros, edição viúva frenesi. Leia aqui.

 

Jogos Florais: Gosta de poesia?

Paulo da Costa Domingos: A poesia está na raiz da linguagem. Antes da escrita, para memorizar as palavras haveria truques, esses truques eram mnemónicas, ou fonética sequenciada segundo um método repetível. O som fica gravado algures no cérebro e conseguimos relembrar esse som. A linguagem começa aí, é o princípio da comunicação entre os humanos. É o poema na sua forma rudimentar, de utilização quotidiana, grupos de palavras à procura de uma regularidade frásica, antes de se autonomizar e ser tido como entidade artística. Isso interessou-me sempre muito: o que acontece quando falamos com o outro. E quando falamos carregados de significação, por assim dizer, poética. Comunicar com o outro é tentar influir no destino dele. A forma que encontrei foi na arte, no poema.

 

JF: E é uma comunicação bem sucedida? Ou condenada ao insucesso?

Não sei se é bem-sucedida, podemos não ter feedback imediato ou o esperado. Quando escreves o poema, não sabes aonde é que ele te leva. O poema pode dar origem a modos de vida, comigo deu. Por exemplo, retirou-me do mundo do trabalho, do trabalho assalariado para um patrão. Nunca trabalhei para um patrão, tive clientes mas não patrões. A força que pus na realização da minha arte ocupou-me sempre bastante e causar-me-ia grande fricção ter de acatar ordens de quem quer que fosse. A arte não recebe ordens de ninguém. Dei por isso muito novo, aos 17 anos, 18 anos. Não estou a dizer que aos 17 anos era escritor. Estou a dizer que havia uma necessidade de expressão utilizando a linguagem intencionalmente, mesmo antes de escrever poemas ou de eu reconhecer que os poemas por mim escritos tinham algum mérito.

 

JF: Tem uma rotina diária?

A escrita nunca foi para mim um funcionalismo, nunca foi algo que se fizesse a horas certas, por razões práticas. Nunca foi isso: é um acontecimento que pode surgir pela manhã, à tarde, à noite. O poeta é-o 24 sobre 24 horas.

Não há portanto uma rotina diária, mas fico grato quando a escrita aparece. Nunca segui qualquer rotina e tive longos períodos, por vezes de anos, em que não escrevi uma linha para além de recados a algum vizinho, ou qualquer outra coisa tão banal como isso. Mas estou extremamente feliz porque a partir de determinada época, talvez desde há sete anos, aconteceu surgir-me naturalmente uma predisposição do espírito a que, à falta de melhor, poderemos chamar rotina. Começaram a aparecer cadernos escritos com regularidade, e esses cadernos levavam um rumo, arrumavam-se. Os livros que publiquei desde 2010 para cá são livros, na sua génese, muito diferentes de todos os anteriores, que iam acontecendo consoante uma escolha larga sobre materiais acumulados ao longo vastos períodos de vida. Depois de 2010 tudo vem surgindo de uma forma mais sistemática, a partir da escrita de todos os dias, sem quebras de nexo.

 

JF: Usa a poesia no dia-a- dia?

Se eu uso a poesia no quotidiano? Uso. Uso-a para mim. Essa realização do texto dá origem a um prazer. Tem-se uma pergunta que não se sabe qual é, e atiras-te ao papel. E ficas com mais perguntas do que quando começaste. Esse percurso, e o agradável que ele é para mim, como primeiro leitor, gera prazer. Agrada-me conviver todos os dias com o meu poema... mas também com os poemas dos outros. Isso agrada-me imenso.

(Mas não me perguntem muito sobre o que há agora nas livrarias, senão tenho que dizer mal de pessoas, e eu não quero). [Risos].

 

JF: Para que serve a poesia? Serve para alguma coisa?

Nos antípodas do funcionalismo, ou da existência assalariada, ou dos mercados, a minha escrita não aspira a qualquer troca material. Mas também estou convencido que a vida verdadeira dos seres humanos não aspira ao lucro, ao deve e haver, às trocas materiais. Eu acho que a arte cometeu um erro no dia em que fez um pacto com o dinheiro. Que é muito antigo, não é de agora. Mas esse pacto da arte com o dinheiro ou com o comércio só pode desvirtuar a nossa presença no planeta. A vida não é uma mercadoria.

 

JF: Como se ensina alguém a ler um poema?

Esse é um grande problema... é complicado. Um texto, ou uma pintura, ou qualquer outro estímulo artístico, pretende agir como as manchas de Rorschach. Pões à frente e a pessoa começa a debitar a sua própria história, a sua individualidade, começa a projectar-se nesse estímulo, num crescendo, espraiando-se, enriquecendo-se espiritualmente. O poema propõe sempre um alargamento e não uma congestão do significado: quanto mais rico culturalmente e de experiência de vida for o leitor mais facilidade tem em colher na leitura o que foi semeado na escrita. A transmissão de um poema de um autor a um leitor não é uma coisa que se faça toma-lá-dá-cá. É um trabalho de paciência. Ao leitor é-lhe pedido um trabalho de paciência quase tão persistente como o do escritor. Uma das coisas que os pedagogos devem fazer, a primeira, é pôr o poema (como a qualquer obra de arte) no contexto em que foi criado. Toda a obra é sempre fruto de um biografável. Muitas vezes perceber esse biografável ajuda a perceber quais as escolhas estéticas que o poeta fez, e esse é o princípio. É o modo de solicitar a experiência pessoal de cada leitor. Não sendo desta maneira, se o leitor ignorar os lugares e as circunstâncias do poema, então também não capta os sinais daquela linguagem e, portanto, acontece-lhe não perceber nada.

Agora, posso dizer uma coisa: o caminho que o ensino leva actualmente não pode nunca aproximar leitores de poemas, e não só de poemas. Não pode porque hoje a finalidade do ensino é ensinar apenas a ler o manual de instruções da vida quotidiana, ler uma sinalética muito, muito escassa e grosseira.

 

JF: Um poeta que considere subvalorizado.

Só vos posso falar das minhas preferências pessoais… Acho que não se dá valor suficiente ao António Maria Lisboa e ele até está publicado numa editora de grande expansão. Acho que se dá importância desmedida a outros escritores. Hoje em dia dá-se importância a mais a Ruy Cinatti em detrimento de outros escritores que estão abafados. Acho que o próprio Mário Cesariny está desvalorizado, sei isso por experiência. Como vocês sabem, tenho uma página de venda de livros de alfarrabismo. E o facto é que dificilmente vendo livros do Cesariny, o que não acontece com Ruy Cinatti. E isto eu considero que é a tal inversão de leitura do momento histórico.

Dou outro exemplo: nos anos 80, no binómio João Miguel Fernandes Jorge versus Joaquim Manuel Magalhães, não havia quem não adorasse o João Miguel. Eu disse sempre que, daqueles dois escritores, o importante é o Joaquim Manuel Magalhães e não o outro. Mas, lá está, num determinado tempo as coisas são balançadas de outra maneira. Hoje já é consensual achar-se que o Joaquim é melhor. E isto tem a ver com as leituras que as gerações fazem para resolver os seus problemas, e com os empolamentos que fazem de alguns autores em detrimento de outros. Hoje, se calhar, dá-se imensa importância ao Pessoa em detrimento do Cesário, do Pessanha, do Pascoaes (por exemplo, o Pascoaes do Bailado) e do Antero... São efeitos de época.

 

JF: E do Régio?

Não gosto do Régio. Representa um claro retrocesso relativamente ao modernismo do grupo do Orpheu. No grupo da presença prefiro sem margem de dúvida o Vitorino Nemésio.

 

JF: E não há que tirar alguns poetas das gavetas?

Deve haver. Há sempre surpresas. Há por certo poemas na gaveta. É bem capaz de haver autores inteiros no armário. Aqui há uns anos comprei um molho de papéis que estavam destinados ao lixo. Era um autêntico saco de lixo, mas quando olhei de novo, já em casa, e comecei a espalhar aquilo tudo sobre uma mesa, tinha ali fotografias e manuscritos do Gomes Leal. Sendo que havia pelo menos três poemas, que eu saiba, que não estão publicados em parte alguma. Ou seja, podem andar por aí perdidas muitas pontas soltas, pontas soltas de poetas inteiros.

 

JF: Nessas buscas de livros qual foi a descoberta que o deixou mais contente?

Há livros raros, peças únicas, que fui encontrando e que são meus neste momento. Por exemplo, um livro do Cavaleiro de Oliveira, uma das versões da Viagem à Ilha do Amor, que havia sido referida num ensaio de Vanda Anastácio, mas que se julgava não existir nenhum exemplar, nunca ninguém o tinha visto. Nunca o tinham visto porque tinha sido publicado sem nome de autor. Todavia – e esta é uma daquelas alegrias de alfarrabista atento – um exemplar dessa versão desconhecida encontra-se na minha posse! (Houve, então, o cuidado de comunicar logo à ensaísta.) Tenho também uma das quatro ou cinco únicas colecções que existem das gravuras do rei D. Fernando II [1816-1885]. E com a particularidade de estar em folhas de formato muito grande, numa técnica chamada chine-collé, destacáveis, não aparadas, um conjunto que reúne talvez o maior número conhecido, setenta e tal gravuras. Há uma colecção no Museu da Gulbenkian, mas com menos gravuras, e com o papel aparado. Coisa que me dá enorme satisfação. Porque gosto muito dos desenhos do D. Fernando e sei em que contexto da história do desenho foram criados, a sua proximidade estética a um dos primeiros ilustradores de periódicos, o Nogueira da Silva. O rei D. Fernando foi um artista extremamente sensível.

 

JF: Como se imagina num verbete de uma enciclopédia literária? O que gostaria que a posteridade lesse sobre si?

Esses verbetes não devem ser apaixonados nem judicativos. Aquilo que deve figurar é o nome, data de nascimento, biobibliografia, etc., qual o contexto literário e histórico em que se inserem autor e obra. É natural que sobre mim refiram influências do surrealismo, mas tirando isso, acho que não se deve dizer mais nada, até porque tentei sempre construir a minha obra fora de qualquer cânone estabelecido. Aquilo que eu gostaria de ler sobre mim é exactamente o que está na minha página da Wikipedia. Faço questão que se saiba e que conste desses dados biográficos que sou um autodidacta.

 

JF: Lê o que os críticos escrevem? Parece-lhe que estes acertam, ou nem por isso?

Neste momento não há crítica literária, há um serviço de notícias de livros viciado pelas editoras. Nos jornais não há crítica literária e no seio das universidades ela escapa-nos, porque não chega cá fora. Existe crítica até nas aulas, mas depois fica por lá, pelos bastidores universitários.

Nos jornais, quando há crítica literária cometem erros, alguns graves. Por exemplo, a Ana Pereirinha dá notícia, e muito bem, no artigo que li sobre os 3 livrinhos que publiquei agora na viúva frenesi, do ponto de partida daquilo, e que é o livro de 1998 Subsídio Suicídio Ostras Geladas. Ora bem, esse livro foi feito e atirado aos leões do mercado leitor sem nome de autor, porque uma das intenções era verificar qual a recepção crítica do documento. Na altura, os fazedores de opiniões só escreveram disparates. E isso deu sobejamente origem a grandes risadas e filosofia de serão familiar. Muito se bebeu em cima do que foi escrito pelos jornais.

E porquê? O Expresso, que na altura era um jornal com mais espaço dedicado à cultura, agarrou no livro e fez um artigo de meia página, pela mão de Jorge Henrique Bastos. O exercício do disparate foi grande em 98, e hoje nada mudou neste aspecto, a avaliar pelas insuficiências de um mini-artigo que surgiu no mesmo periódico, assinado pelo meu amigo Manuel de Freitas, a propósito da recente publicação dos 3 livros.

Lá está: em 1998, como não existia nada biografável, apenas um “autor” anónimo, ficava-se sozinho com o texto e com o tempo em que o texto surgia. Faltava com que encher o artigo, sem ir pelos caminhos da leitura dos versos. Mas o vício do jornalismo de encher artigo, e a incapacidade de ler, deu origem a teorias culturais erráticas, mais do foro da adivinhação do que do entendimento do texto vindo a lume. Chegou a escrever-se que o livro era do António Franco Alexandre (porque tinha uma escrita irónica e não sei quê mais, e como havia por lá muita ironia e sarcasmos mal digeríveis...).

Passaram 20 anos e resolvemos fazer outra vez o teste. Como é hoje sabido, aquele livro de 98 foi escrito não por 1 mas por 3 escritores. Publicámos agora a revisão da proposta e, dos três autores, o único que se limitou a só rever umas vírgulas fui eu, o meu núcleo é o único que está muito perto do original. O Manuel Fernando Gonçalves manteve em parte o que havia escrito mas actualizando o tempo, sobretudo na relação dele com a ideia de subsídio, antes e agora. O Rui Baião é quem mais se afasta e faz um livro diferente. Mas mesmo para quem desconhece este passado de 20 anos deste livro, para quem receba desprevenidamente os 3 novos conjuntos de versos, é claro que vai encontrar relações intertextuais, e zonas nos 3 livros que, sendo o mesmo texto, sugerem que um Anónimo ainda habita entre nós. A própria solução gráfica, com 3 capas que podem encostar-se umas às outras como um painel de azulejos, propõe desde logo ao leitor um jogo: o jogo da arte, a sua componente lúdica.

Surge, assim, um problema de descodificação e de atracção ao jogo, que só tu, Ana, é que levantaste, indo mesmo mais longe, ao ponto de haveres identificado a origem remota dos 3 novos livros. Como já disse, o Manuel de Freitas escreveu resumindo a problemática dos 3 livros a preocupações residuais identificadas pela escrita dos 3 autores. Apesar de tudo, poderia ter sido pior. Já o Henrique Manuel Bento Fialho escreveu no blogue dele com muito acerto, estabelecendo uma belíssima relação entre os 3 livros... Existem, portanto, pistas deixadas pelos autores que com inteligência, vontade e atenção podem ser decifradas por um leitor comum, quanto mais por quem faz profissão de escrever acerca daquilo que lê!

 

JF: Temos uma secção sobre curiosidades literárias. Lembra-se de alguma que pudesse partilhar connosco?

Há uma coisa para mim das mais admiráveis. Como lido com muitos livros que são comprados em segunda mão, uma das coisas que me surpreende é abrir um livro e encontrar o que ficou lá deixado esquecido. Até já encontrei dinheiro. Acontece regularmente encontrar resíduos de bolacha. Abres um livro e encontras resíduos de bolacha. [Risos] Consegues imaginar exactamente o que se passava naquele momento do passado com uma pessoa que não conheces.

 

JF: Tem um poema preferido?

Regresso muitas vezes a um poema do Pessoa. Nem é um poema inteiro. É ao mesmo verso, “caí no areal e na hora adversa”. Regresso muito a esse texto, e em dois ou três livros meus aparece como epígrafe. Eis um verso que de vez em quando me assalta. Na hora adversa.

 

JF: Quais as suas influências literárias (óbvias e menos óbvias)?

António Maria Lisboa, Cesariny. Nos meus versos surge de modo óbvio uma certa costela surrealista, mas existe um grande escritor do neo-realismo que me influenciou bastante, o Carlos de Oliveira. Sobretudo o Entre Duas Memórias, que é um livro...! Quando eu era jovem, o Micropaisagem chamava-me mais a atenção, mas com o crescimento aprendi a gostar mais do Entre Duas Memórias. E a gostar também de um texto dele que os neo-realistas odeiam, que é A Descida aos Infernos, um longo poema com aspectos metafísicos (os neo-realistas começaram logo a criticá-lo). São zonas da poesia do Carlos de Oliveira de que gosto imenso. E do António José Forte, do Pedro Oom, do Herberto, necessariamente, e da minha querida Luiza Neto Jorge, claro.

 

JF: O que é ser um poeta realista?

Acho que o problema do realismo é tentar ser uma fotografia fidedigna, um fotojornalismo do mundo, uma demagogia do real. Esse é o problema. Porque sempre que o dito escritor realista transcende isso e se afasta dessa tentativa de cópia, torna-se logo mais interessante. Porque o real é o próprio poema, no seu modo estético de tratamento do assunto. Veja-se o Cesário Verde, que muitos rotulam de mero realista. Mas ele olha o real com uma exuberância quase expressionista. O realista é um agente redutor, confinado a uma visão do mundo banal, de comportamentos pequenos, limitados. Isto nada tem a ver com o eventual compromisso com a realidade. O absurdo de Samuel Beckett está fortemente vinculado ao real, assim como o de Kafka. Na multiplicidade de olhares do Cesário temos até o poema do piquenique, que é um apontamento inspirado no impressionismo pictórico.

 

JF: A sua poesia é comprometida com a realidade?

A minha escrita reflecte o bombardeamento constante do mundo em redor. Não sou imune aos noticiários e no meio do exercício em prol do prazer surgem a toda a hora os horrores do mundo, que me incomodam e sufocam a liberdade. Mesmo lá para trás, em 1991, no meu Campo de Tílias, que não é um livro tão “comprometido com a realidade”, existem poemas em que o encontro amoroso dentro de uma pensão é pontuado com um olhar para fora da janela do quarto. Não é possível o bem-estar sem ser num enclave num universo incómodo. Eu diria que escrevo uma poesia sujeita a uma enorme pressão urbana, atenta à consciência dessa pressão colectiva. Por exemplo, será o pintor Edward Hopper um realista?... Será o poeta Philip Larkin um realista comprometido com a realidade? Ele, que faz poemas que são retratos fidedignos do que vê da janela do seu quarto... Os namorados no jardim... Mas projectando nos versos uma reflexão sobre o que está a ver que supera qualquer fotojornalismo. Empregamos sempre em doses escolhidas mais ou menos objectividade ou subjectividade, o poema é o caldear destas presenças linguísticas.

 

JF: Tipografia ou poesia?

Aquilo que descobri aos 17 anos é que não bastava falar com as pessoas próximas, havia que expandir a fala a um auditório, que é o mundo. Havia que amplificar a expressão individual – daí eu aproximar-me da arte, da escrita. Acrescentei a isto a aprendizagem do processo industrial tipográfico, a palavra impressa em múltiplos, porque eu queria perceber quais as possibilidades de distribuição das linhas numa página. Numa tipografia aprende-se isso, a paginar. E isto é importante, há poemas que se decidem na silhueta que aparece na página branca. Por vezes o poema surge no meio da rua, anota-se num papelinho, nas costas de um talão de multibanco – não está ainda definida a notação final do poema, até porque o espaço do papel é demasiado exíguo para a respiração dos versos. Essa só surge quando se entra em trabalho de “arrumá-lo”, e de que a impressão em livro dá fé. É importante saber como se faz sair o poema da folhinha onde o anotas, onde condensaste o momento. Isto se os versos pretendem um destinatário alargado.

 

JF: “A um único apelo tenho respondido: acção poética”. Existe poesia sem acção poética?

É capaz de existir. Não podemos ser injustos para com os que todos os dias saem para ir trabalhar e depois conseguem realizar obra de arte fora da hora do trabalho. É o seu exorcismo. Para mim isso seria complicado, angustiante, embora perceba que alguém consiga aplicar-se numa obra criativa e ser ao mesmo tempo funcionário dos CTT. Mas para mim, todo o meu dia-a-dia foi sempre dedicado ou a pensar no poema ou nas artes que lhe estão conexas: a leitura de outros autores, por exemplo. Tive que fazer muito fora da dita acção poética para pagar as contas, como toda a gente, mas fugi sempre à subordinação a qualquer espécie de ordem de outrem. Tentei ser o promotor da minha própria escravatura, não estar ao serviço de ninguém. Até pode nem haver livros a serem publicados, como aconteceu durante os dois ou três anos em que não escrevi. Mas eu já era outra pessoa que estava ali, outra maneira de entender as coisas, a acção poética subjazia a tudo.

 

JF: É um poeta um especialista em minas e armadilhas? Um guerrilheiro?

Minas e armadilhas porque o mundo não te facilita nada. Quando tu escolhes só a arte, eu só faço isto, é evidente que o mundo passa a ser um mundo armadilhado, porque o mundo não quer que empregues toda a tua energia, todo o teu ser, o que existe em ti de humano em algo que lhe é adverso. O mundo quer que tu não penses, que tenhas comportamentos de massa, de rebanho, sujeições manobráveis. Se tu pensares, se tiveres tempo para pensar, ficas com a oportunidade de conquistar autonomia. Se estiveres liberto das prisões da casa, do carro, etc., ficas em condições de voltar costas ao mundo a qualquer momento, não tens nada a perder. Estás no absoluto território da liberdade. Mas isto é muito complicado – o terreno que se pisa está minado, porque as contas caem-te sempre na caixa do correio, o sustento diário não se eclipsa. E é caro. Eu pago para o Estado não vir à minha beira, para o ter lá longe, o mais longe possível. E isso já é uma armadilha, um terreno minado.

JF: E um editor o que é?

É complicadíssimo, mas é maravilhoso. Um editor é alguém que confere reconhecimento a outrem, por gosto próprio – isto é tudo subjectivo, porque posso gostar de coisas que outros não gostam – mas, em princípio, o editor é aquele que reconhece em alguém virtudes e que deseja imenso que terceiros partilhem desse encontro, desse imprevisto. Esta é a minha atitude como editor. Sei que os editores encartados que por aí há não são isto – são apenas quem reconhece se uma coisa é vendável ou não é vendável. Eu nunca pensei dessa maneira. Por exemplo, a antologia Sião. Foi feita numa abordagem de gosto, dentro de parâmetros temáticos – há um fio condutor temático que a atravessa – e do pressuposto do imperativo em estabelecer para a poesia portuguesa um cânone poético diverso. Aquilo que na altura nós designámos por dragagem do gosto. Mas a selecção de autores e poemas nada tem de científico ou de estritamente literário. A abordagem foi muito menos os preceitos da história da literatura e mais os preceitos da história pessoal cultural dos antologiadores (Al Berto, Rui Baião e eu próprio). A minha atitude como editor é idêntica: dar a conhecer um gosto e uma avaliação pessoais. Embora, claro, sempre atento ao contexto em que se publica, atento à história viva do momento.

Por isso, terei cometido alguns “erros” de perspectiva, que são sabidos – “não-autores” publicados que imaginei poderem vir a ser autores confirmados. É o apanágio das vanguardas: estarem na linha de risco.

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JF: E há algum autor que sinta que tenha valido a pena?

Há bastantes. Veja-se, por exemplo, só para falar dos portugueses, o Rui Baião, o Fernando Luís Sampaio, praticamente começam ali, a Adília, o Manuel de Freitas – há uma série de autores que fizeram um primeiro ou um segundo livro porque eu gostei imenso do que estavam a escrever, e depois lá seguiram os seus caminhos e consolidaram esses caminhos.

 

JF: De que é que gostou da Adília no momento em que a publicou? Gostar da Adília na altura não é o mesmo que gostar dela agora – na altura era uma coisa estranha…

Há um livro dela anterior aos que eu publiquei – eu publiquei O Poeta de Pondichéry e mais um outro – mas antes ela tem um chamado Um Jogo Bastante Perigoso que é um grande primeiro livro em qualquer parte do mundo. Não deixa adivinhar o que vai ser a Adília Lopes depois, mas a Adília que eu recebo era a que eu conhecia daquele livro e, portanto, a minha recepção foi diferente da que tenho hoje. Hoje tenho menos interesse nas coisas dela, porque acho que acabou por banalizar processos, entrou em repetições… Reconheço-a, mas já não me interessa tanto. Mas aquilo que eu publiquei dela, e até relativamente tarde, era inequívoco, tinha uma vitalidade enorme. O Poeta de Pondichéry acrescentava uma coisa a O Jogo Bastante Perigoso: este livro era construído por micro-narrativas em poema; O Poeta… é uma peça única, coesa, a escritora consegue um livro conceptual, algo que só recentemente estamos todos a fazer. Até muito tarde, um livro de poemas não era mais do que um agrupamento de poemas. Raros serão os exemplos comparáveis ao livro As Aves de Gastão Cruz, ou ao Limite de Idade de Vitorino Nemésio. Actualmente, nem se põe a hipótese de um livro de poemas não ser um todo coeso, um conceito. Insisti sempre muito com os escritores do meu círculo, a partir dos anos 75 em diante, que um livro de poemas devia ser entendido como uma “história” única. A minha 1.ª versão do Asfalto, o meu segundo livro na & etc, é uma mistura de diferentes “ficções” poéticas, por diferentes razões da época. Desde influências das técnicas de cut up de William Burroughs ao surrealismo cruel de Antonin Artaud, há ali um pouco de tudo. Por exemplo, um dos primeiros poemas é construído imitando a linguagem de género policial de Frank Gruber. Podemos pegar em qualquer sinal do mundo e trazê-lo para dentro de um poema.

 

JF: Em 2018, continua fiel a si próprio, aos seus princípios e formas de acção? É mais livre, ou mais solitário? É mais poeta, ou mais editor?

Neste momento não sou sequer editor – estes livros recentes saíram por motivos de força maior. Sou mais poeta e menos editor. Sou necessariamente mais solitário, e até por razões comezinhas e do dia-a-dia: chateio-me mais com as pessoas, não sendo intolerante, mas não quero mesmo perder tempo com pessoas que só dizem e fazem disparates, portanto estou mais sozinho. Há cada vez menos pessoas com quem eu possa falar quando acabo de escrever um poema. Há cada vez menos porque, até os que não escrevem e são nossos amigos, estão cada vez mais sintonizados no Facebook. Tenho amigos que dizem “sim, mas eu leio no computador!”, e eu fico de boca aberta: “no computador? mas isso além do mais faz mal à vista!”. Eu tenho o dicionário do Inocêncio, muito usado no alfarrabismo, em CD e em livro: no disco faço o edit find daquilo que procuro, vejo em que tomo está e depois vou buscar o tomo à estante. Seria uma chatice enorme se eu não tivesse o disco, seria moroso… Mas trata-se de um mero utensílio, um electrodoméstico, como se fosse um aspirador, por exemplo – não tenho o culto da informática, nem podemos deixar que isso nos devore. Há uma tendência para o vício do computador como se não houvesse mais mundo, e com o computador portátil que é agora o telemóvel a absorção é total, as pessoas ficam desligadas do mundo. E é por todo o lado, vai-se ao banco, vais fazer um depósito e põem-te um écran à frente do nariz para assinares – mas é impossível, há qualquer coisa no atrito, falta o atrito, uma textura de papel que a tua mão reconhece…