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Entrevistas

Entrevista a Adília Lopes

Maria S. Mendes

 Fotografia: Joana Dilão

Fotografia: Joana Dilão

Entrevista a Adília Lopes 

Lisboa, 2 de Agosto de 2017

 

 

O ponto de encontro para a nossa entrevista foi o Danúbio, o café-restaurante da Rua Passos Manuel, nascido logo no pós-25 de abril, contou-nos Adília Lopes, que já nos esperava quando chegámos, pelo menos vinte minutos mais cedo do que o combinado. Levámos perguntas e fizemos a entrevista planeada, mas também aproveitámos para ficar a conversar sobre o bairro, sobre o próximo livro dedicado a Lucinda, sobre os choupos e as cerejeiras da Rua José Estêvão, sobre sonhos e pesadelos, e ainda sobre a descaracterização (a falta daqueles espelhos!) da pastelaria Tarantela (agora com filas de pré-pagamento que dão para a rua) e sobre comer bons bolos antes de apreciar a beleza das catedrais.

 

Jogos Florais: Adília ou Maria José?

Adília Lopes: Adília, porque é as poesias, não é?

JF: Poeta ou poetisa?

Poetisa.

JF: Porquê?

Porque a palavra existe em português e é o feminino.

JF: Gosta de poesia?

[risos] Às vezes não gosto, às vezes não gosto...

JF: Isto assumindo que um escritor, uma poetisa, neste caso, gosta do que faz...

Eu gosto muito de poesia quando é boa poesia, quando... Muitas vezes lêem-se livros maus, e eu também escrevi poemas maus, e há coisas más. Mas, por exemplo, ontem li um livro do Frederico Lourenço de que gostei muito, Santo Asinha e outros poemas, e fiquei muito contente por ler um livro tão bom. Às vezes lê-se um poema, leio um poema que acho muito bom e fico contente com isso. Mas há muitas coisas de que eu não gosto, claro.

JF: Gosta mais de escrever poesia do que prosa?

Eu escrevo versos, não escrevo propriamente parágrafos, isso é uma coisa natural em mim, não é uma questão de opção, é assim.

JF: Mas chegou a escrever crónicas...

Sim, escrevi crónicas, mas acho que não resultaram muito bem, porque não é a minha maneira de pensar. Eu penso por versos, muito por versos.

JF: Tem uma rotina diária?

Sim, tenho hábitos rígidos de ir ao café a tantas horas, de fazer certas coisas sempre às mesmas horas, sempre da mesma maneira, e depois, como não tenho uma vida muito fácil... o que consigo fazer é com esforço e então nem sempre consigo fazer o que quero, não é?, o que gostaria de fazer, e assim nem sempre leio os livros todos que queria ler, nem sempre escrevo o que queria escrever, é uma luta, é o que consigo fazer.

JF: Escreve à mão?

Eu não tenho computador. Escrevo à mão e à máquina, numa máquina que não é eléctrica. É uma Olivetti.

JF: De que cor?

Eu escolhi a cor, é azul turquesa.

JF: E não se imagina a escrever a computador?

Eu já escrevi a computador, mas não gostei... E eu não tenho ninguém que me ajude com o computador, era eu que me desemburrava sozinha. Se havia algum problema com o computador, tinha de ir de táxi à loja, não tinha ninguém que me ajudasse. Eu escrevia a computador as crónicas, numa disquete. Mas o que eu notei é que escrevia pior, os textos ressentem-se, saem piores.

JF: Mas porquê? Por ser mais rápido?

Porque no computador parece tudo muito fácil, sabe bem, a pessoa gosta de estar ali a dedilhar... Parece fácil, a pessoa está ali a escrever e até dá a ideia de que a está a escrever um romance. Noutros casos sairá muito bem, no meu não sai. Eu acho que preciso de tempo e de alguma resistência do material. Sinto isso.

JF: Diga-nos um poema de que goste muito.

Dos meus? Ou de outra pessoa? [risos]

JF: Dos dois. [risos] Na verdade, é a isto que tentamos responder nos Jogos Florais. 

Um poema de que goste muito... Gosto muito do “Nocturno” de Álcman, do “Nocturno” de Álcman gosto muito, porque fala dos animais, do sono dos animais, da natureza à noite, que está em repouso (nem toda está em repouso), mas fala do repouso da natureza, fala da natureza. E gosto muito desse poema.

 

 

Poema favorito

Álcman, “Nocturno”

 

Dormem os píncaros das montanhas e as ravinas,

os promontórios e as torrentes,

e todas as raças rastejantes que a terra negra alimenta:

as feras das montanhas e a raça das abelhas

e os monstros nas profundezas do mar purpúreo;

dormem as raças das aves de longas asas.

 

Poesia Grega. De Álcman a Teócrito, organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Lisboa, Cotovia, 2006. Aqui publicado com autorização da editora. 

 

 

JF: E dos seus?

Dos meus não há um poema de que eu goste assim em especial, mas há dois livros que eu acho que ficaram bem: O Poeta de Pondichéry, acho que ficou bem esse livro, e fico muito contente com a edição da Assírio, com as ilustrações do Pedro Proença, acho que ficou muito bonito; e o livro Manhã, acho que o livro Manhã também saiu bem, correu bem, pronto, foi uma sorte, correu bem.

JF: Esse temos aqui para autografar. [risos] Diga-nos um poeta que considere subvalorizado.

Eu acho que às vezes o Ruy Belo é subvalorizado. Eu acho o Ruy Belo subvalorizado, porque as pessoas têm relutância em relação a certas referências religiosas e assim, e então não o consideram muito ou não o consideram tanto como outros que eu acho que não são tão bons.

JF: Vamos ter de fazer uma pergunta irresistível... Acha que há poetas sobrevalorizados?

Acho...

JF: Se não quiser, não tem de nomear.

Não queria nomear.

JF: Usa a poesia no seu dia-a-dia?

Sim, muitas vezes, há versos de que me lembro, que me vêm à cabeça, não os vou procurar, eu lembro-me desses versos em várias circunstâncias. Outras vezes, quando não me sinto bem ou assim, geralmente leio poemas da Sophia de Mello Breyner. Há poemas, como eu os li quando era muito nova e como gostava daqueles poemas... Há um poema que leio muito dela, talvez não seja dos melhores poemas que ela escreveu sobre os quadros da Maria Helena Vieira da Silva, mas é um poema de que eu gosto que é “Landgrave ou Maria Helena Vieira da Silva”, não sei se está primeiro o nome do quadro se primeiro o nome da pintora, mas é um poema que eu gosto muito. Eu acho que esse poema sobre o quadro da Maria Helena Vieira da Silva “Landgrave” não me parece tão conseguido como outro que ela escreveu sobre outro quadro da Vieira da Silva que é o “Itinerário inelutável”, mas eu afetivamente gosto mais do “Landgrave”.

JF: Sabe então muitos versos de cor?

Não, não sei muitos versos de cor. É assim: eu tenho uma imagem do poema, lembro-me de muitas coisas do poema e depois preciso de chegar a casa e de ir verificar no livro, isso preciso.

JF: Pensamos muitas vezes na posteridade dos poetas. Como é que se imagina daqui por cem anos num verbete de uma enciclopédia literária?

Não me imagino, não.

JF: Não haveria nada que gostasse de ler sobre si?

Não, nunca imagino isso. Há uma frase do Fernando Pessoa que diz que Milton não fazia nada sem que pensasse na sua fama futura. Eu nunca penso na fama futura. Eu penso no presente, nem penso muito no futuro, eu penso no presente.

JF: E relativamente ao presente, costuma ler alguma crítica literária sobre a sua obra?

Algumas leio, mas não leio todas, acho que algumas são maldosas e infundadas, então eu não leio. Leio só assim algumas que me parecem mais justificadas.

JF: Acha que algumas acertam?

Acho que sim.

JF: E que tipo de crítica é que gosta de ler, mesmo sobre outros poetas? O que é que gosta de ler na crítica literária?

Gosto quando vejo que há uma leitura dos poemas, que tem entendimento do poeta e que faz descobrir coisas que eu não tinha descoberto ou que me dá informações que eu não tinha. É isso que gosto de ver. E também quando me dá indicação de um livro que eu não conhecia e que passo a conhecer pela crítica. Isso também acontece.

JF: O Alexandre O’Neill disse numa entrevista que achava muito mais tocante para um poeta o aperto de mão de um leitor que a crítica de um crítico. O que prefere?

Também acho que sim.

JF: Já teve reações de leitores?

Sim, sim, isso é muito mais gratificante.... Às vezes, ter pessoas, até sobretudo pessoas que não têm conhecimentos literários ou assim... que houve qualquer coisa que leram meu e que gostaram, que entenderam muito bem – quem sou eu para dizer que entenderam muito bem –, isso é muito mais gratificante.

JF: Pensamos muitas vezes em qual seria uma boa forma de se ensinar um poema. Tem alguma ideia sobre o ensino da poesia?

Acho que se pode aprender poesia, é preciso que os alunos encontrem poemas de que gostem muito. Às vezes o professor pode não conseguir transmitir isso, mas um bom professor encontra poemas de que os alunos gostam, acho que encontra. O problema talvez hoje é o ensino... é muito competitivo, as pessoas pensam muito em entrar para a faculdade, entrar para estes cursos e assim, isso prejudica muito essa leitura mais aberta, mais livre, em que há tempo, em que há tempo livre. Sem tempo livre não há poemas, nem se lê nem se escrevem.

JF: Tem alguma embirração linguística ou poética? Uma palavra de que não goste, por exemplo.

Não, não tenho. Não há assim nenhuma... não.

JF: Mas tem um poema que me parece não simpatizar muito com palavras caras.

Sim [risos].

JF: Porquê? [risos]

É não simpatizar sobretudo com pessoas arrogantes, com pessoas que usam a linguagem para se promoverem, para maltratarem os outros ou para se empoderarem, isso não é bonito, claro.

JF: Isso também acontece nalguma poesia?

Sim, também, também isso acontece.

JF: Tem alguma figura de estilo preferida?

Nunca pensei nisso, nunca pensei nisso....

JF: Que perguntaria a outro poeta? Se houvesse alguém que admirasse, que perguntas lhe faria?

Acho que não perguntava nada, dizia bom dia ou boa tarde, como faço nos cafés, não perguntava nada, não sei...

JF: Quando lê um poeta de que gosta, não pensa se gostaria de lhe ter perguntado ou dito alguma coisa?

Não, acho que não, acho que não. Eu percebo que se entrevistem os escritores, os que escrevem os romances, os poemas. Podem dizer sobre o que escreveram, o que fazem, o que vivem, como vêem as coisas, mas eu acho que não ia perguntar... Falo com um poeta ou com um romancista como falo com a padeira, com o empregado do café, com o carteiro. É assim.

JF: Todos têm coisas interessantes a dizer.

Sim, todos têm coisas interessantes a dizer.

JF: Perguntámos a algumas pessoas que admiram a sua obra se tinham perguntas para si. Por exemplo, uma costureira perguntou se a Adília podia descrever um vestido com que sempre tenha sonhado e que nunca tenha tido. Se existiria algum...

[risos] Quando eu tinha 30 anos e assim, eu gostava daquele costureiro francês, Christian Lacroix. É claro que nunca teria dinheiro para comprar um vestido dele nem me passaria pela cabeça gastar dinheiro num vestido, mas eu gostava daquelas roupas muito coloridas, que lembram trajes folclóricos espanhóis, russos... Eu não andava assim vestida, mas gostava desses fatos... de teatro, de ópera.

JF: Temos uma secção no site sobre curiosidades literárias. Não sabemos se gosta de curiosidades literárias e se se lembra de alguma que gostasse de partilhar connosco. Por exemplo, o Lord Byron, quando estudou em Trinity, tinha um urso nos aposentos. Ele gostava muito de animais e era o único que não estava nomeado na lista de animais domésticos proibidos.

Gosto de saber essas coisas, sim.

JF: Tem alguma?

O poeta com quem convivi mais foi o José Blanc de Portugal. Estou a pensar se ele contava assim alguma coisa... Ele tinha, mas isto talvez não se possa dizer... Ele tinha uma casa muito grande e tinha um quarto interior que chamava “O Inferno” e punha lá os livros de que não gostava, que eram geralmente dos neo-realistas. Não era só dos neo-realistas que ele não gostava, mas punha lá os livros de que não gostava. Chamava “O Inferno”.

JF: Gostou de conviver com o José Blanc de Portugal?

Sim, gostava da poesia dele.

JF: A poesia dele também parece subvalorizada.

Também, também está. Na geração dele talvez seja o mais esquecido.

JF: Gosta de escrever noutras línguas? Já experimentou escrever numa língua que não conhece bem e depois traduzir para a língua materna?

Já escrevi noutras línguas, nas línguas que aprendi no Liceu: Francês e Inglês. Mas assim traduzir depois o meu poema para a minha língua não, isso não.

JF: Mas tem os seus poemas traduzidos em várias línguas?

Sim, em algumas línguas.

JF: Já se leu nessas outras línguas?

Nas que conheço, sim [risos]. Há muitas que não conheço.

JF: E nas que conhece, acha que a poesia se perde na tradução?

Se for uma boa tradução, não se perde. Claro que se é má, perde-se, mas se é uma boa tradução, não se perde. Às vezes o que acontece é que fica outro poema, que não é bem o que a pessoa escreveu, mas partiram do poema da pessoa.

JF: Vimos que gostava de dar de comer aos pombos quando era criança. Ainda gosta?

Sim. Eu tenho uma varanda com plantas, dar de comer não dou, porque talvez os vizinhos não gostassem, mas dou água, porque eles com o calor têm muita sede e ponho água num vaso na varanda, num cachepot, para eles terem água para beber, e eles vão lá. É engraçado, eu estou às vezes em casa sentada, tenho a varanda fechada, mas tenho cortinas transparentes, e vejo chegarem pombos, pardais, melros... Uma vez vi um pássaro muito bonito com penas azuis. Gosto disso.

JF: Quem é que gostaria que a representasse num filme sobre si?

Uma actriz? Estou a pensar, leva tempo... Já não pode ser, que já morreu, mas eu gostava muito de uma actriz americana, Lillian Gish, de filmes mudos e assim. Gostava muito dela. É claro que não é nada parecida comigo, mas eu gosto muito dela nos filmes mudos e assim. Talvez gostasse de ser representada num filme mudo.

JF: Tem passatempos?

Faço palavras cruzadas.

JF: De algum jornal em particular?

Do Expresso, faço as do Expresso. Compro o Expresso ao Sábado e faço as palavras cruzadas do Expresso. E acho que assim passatempo convencional é o único que tenho. De resto, como a vida não é fácil, é sempre lutar... Oiço música à noite, mas isso não é um passatempo, é uma coisa que gosto de fazer, oiço a Antena 2, oiço o concerto às 9:00 da noite. Às 9.00 da noite há um concerto e costumo ouvir esse concerto durante a semana, quando estou bem, que às vezes estou muito atormentada, e estou com sono e maldisposta e não estou a ouvir música, não tenho cabeça para ouvir música nem para ler. É assim.

JF: Quando diz que a vida não é fácil, é no sentido que às vezes é triste?

Sim, cresci num ambiente muito deprimente, e isso prejudicou-me, quer dizer, marcou-me. E depois o trabalho literário é muito mal pago, isso não dá esperança, não dá esperança... É uma vida que... Pensa-se sempre que é um beco sem saída. Pronto, isso não dá esperança, realmente.

JF: Tem alguma relação com o meio literário?

Eu não me dou com o meio literário, não tenho assim muitos contactos, nem nenhuns, não tenho contactos com o meio literário, não tenho.

JF: E tem interesse por ele?

Não, também não tenho. Tenho uma ideia que é um meio de intrigas e assim, como todos os meios profissionais, como todos os meios humanos, e não só profissionais, tudo. E isso não me interessa.

JF: Quais são as suas influências?

A primeira é a Sophia de Mello Breyner, sim. Geralmente as pessoas aparentam-me com o Alexandre O’Neill, mas eu não tinha lido o Alexandre O’Neill e não é o Alexandre O’Neill. Eu gosto muito do Alexandre O’Neill, mas não é o Alexandre O’Neill. É muito mais a Sophia de Mello Breyner e o Ruy Belo, foram os que li, que me fizeram desemburrar, perceber. Primeiro a Sophia, porque ela escrevia contos para crianças, e eu quando era criança lia os contos e assim, depois o Ruy Belo, no fim da adolescência, o Ruy Belo. E também a Sylvia Plath, que eu sei muito pouco inglês, mas conseguia ler em inglês. Eu acho que ela de facto é muito extraordinária, porque eu sabendo tão pouco conseguia ler os poemas dela em inglês. E aprendi, aprendi muito com ela. Mas quem depois me faz escrever poemas, não o conheço, mas li poemas dele, é o João Miguel Fernandes Jorge. Li poemas dele e foi a partir daí que passei a escrever poemas, mas eu acho que aqueles que me influenciaram mesmo, que me marcaram, foram a Sophia, o Ruy Belo e a Sylvia Plath.

JF: E porque é que acha que há esse parentesco com o O’Neill?

Porque há ironia, eu uso ironia, sou às vezes sarcástica. E também porque... Eu nunca trabalhei em publicidade, mas às vezes há coisas que lembram a publicidade. Ele trabalhou em publicidade, talvez por isso as pessoas pensem que há uma relação.

JF: Há pouco disse que era difícil viver da literatura... Tem projectos para breve? Num curto espaço de tempo, publicou vários livros.

Sim, eu em menos de 3 anos escrevi seis livros. Só falta publicar um, que sai este ano. E depois ainda há contos e peças de teatro que eu gostava de escrever, mas é preciso que haja estímulos, apoios, incentivos. Se não há, também a pessoa não consegue raciocinar.

JF: De todas as perguntas que fizemos, qual foi a sua favorita?

Se usa a poesia no dia a dia.