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Entrevistas

Entrevista a Lorraine Mariner

Maria S. Mendes

Entrevista a Lorraine Mariner

Londres, 14 de Agosto de 2017

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No dia 14 de Agosto, encontrámo-nos com Lorraine Mariner à porta da National Poetry Library, no Southbank Centre, em Londres. Conversámos durante cerca de uma hora sobre poesia e poetas, mas também sobre móveis IKEA, o vestido que nunca tivemos e os músicos que guardaríamos numa cave, à nossa disposição, para que escrevessem e tocassem para nós para sempre.

 

Jogos Florais: Gosta de poesia?

Lorraine Mariner: Sim. [Risos]. E gosto mesmo muito de escrever. Há alturas em que a vida se torna complicada e apercebo-me de que não estou a escrever tanto quanto gostaria. Mas nunca me senti bloqueada. Isto é, sosseguei e tentei não me preocupar, e depois voltou.

JF: Também trabalha com poesia, tem um emprego na Poetry Library.

É maravilhoso. O meu primeiro trabalho numa biblioteca foi numa biblioteca médica e empenhei-me, mas quando trabalhamos numa área de que gostamos esforçamo-nos mais e também aprendemos. Agora, por vezes, afasto-me da poesia. Antigamente, quando não trabalhava na Poetry Library, ia a cursos de poesia e fugia para me rodear de poesia, mas ultimamente ir de férias não tem nada que ver com poesia.

JF: Tem uma rotina diária para a escrita?

Não. [Risos] Descobri que o que funciona bem é simplesmente acordar num dia em que não trabalho e decidir que vou escrever. Faço um chá e começo a trabalhar.

JF: Pode dizer-me um poema de que gosta particularmente e explicar porquê?

Sim. Uma das minhas poetisas preferidas é Fleur Adcock. Gosto do poema “Things”. É um poema muito curto, mas é divertido e universal e profundo.

 

 

Poema preferido:

 

Things

 

There are worse things than having behaved foolishly in public.

There are worse things than these miniature betrayals, committed or

endured or suspected; there are worse things

than not being able to sleep for thinking about them.

It is 5 a.m. All the worse things come stalking in

and stand icily about the bed looking worse and worse and worse.

 

Fleur Adcock, Poems. London: Bloodaxe Books, 2000.

 

JF: E um dos seus?

Julgo que “Thursday”. Porque era sobre uma coisa monumental que aconteceu em Londres, os bombardeamentos na quinta-feira, a 7 de Julho de 2005, e orgulhei-me de, enquanto poeta, ter sido capaz de registar o momento e que [o poema] se tenha tornado uma espécie de monumento àquele dia. Mas na verdade gosto mesmo muito de “There is nothing wrong with my sister” (espreite aqui). Julgo que gosto de poemas que tocam outras pessoas, e as pessoas parecem gostar mesmo muito desse.

JF: Há algum poema / poeta que considere subvalorizado?

Sim, há de certeza. Posso pensar sobre isso?

JF: Usa a poesia no seu dia-a-dia?

Sim, sim. Diria que leio um poema todos os dias.

JF: Como escolhe o poema?

Chega-me através do trabalho. Na sexta-feira, o John Hegley entrou na biblioteca e estava à procura de um poema que o Les Murray tinha escrito sobre o pai. Então, procurei-o. Ele lembrava-se de um pedaço e eu investiguei. Por isso li “The Last Hellos”, um poema que não tinha lido antes e que me impressionou, e lembrei-me de que precisava de ler mais Les Murray.

JF: Lembra-se de versos regularmente? Sabe poemas de cor?

Sim, de alguns pedaços. E por causa da minha profissão, as pessoas recitam-me bocadinhos de poemas e pensam que reconhecerei os versos e saberei qual é o poema. [Risos].

JF: Como se imagina, daqui a 50 anos, numa enciclopédia literária? Como gostaria de ser recordada?

Julgo que seria algo como o que escrevi naquele texto que mencionou, acerca de Jessica Elton (ler aqui). Quando comecei pensei que seria perfeito se fosse capaz de escrever um poema fantástico, de que as pessoas se lembrassem… isso seria suficiente. Ainda acho que isso é verdade. Às vezes penso que ninguém se recordará recordará de mim e depois lembro-me de que, se escrever apenas um poema fantástico, está tudo bem.

JF: Lê o que os críticos escrevem sobre si? Acha que acertam?

Sim, leio.

Na verdade, acabei de me lembrar de um poeta. David Hart. Acho que ele é subvalorizado. Um dos meus poemas preferidos de sempre é o seu “Father Hopkins is Shy About His Poems” (ler aqui).

Aprendi com o meu segundo livro, que quase não teve críticas. De certa forma, isso foi difícil. Os primeiros livros recebem muita atenção, e, no caso dos segundos, alguns recebem atenção, mas a maioria é ignorada…  Todas as críticas foram boas, mas não houve assim tantas. Então, passei de ficar aborrecida por ter críticas más, para ficar aborrecida por não ter críticas. Julgo que quando se trata de críticas é complicado.

 JF: Gosta de ler crítica literária? Que tipo de crítica gostaria de ter?

Talvez de alguém que dê aos poemas a atenção que merecem, que tente perceber o que o poeta está a tentar fazer, o que deu origem aos poemas.

JF: Lê crítica?

LM: Sim, e no trabalho temos uma colecção de recortes de imprensa, por isso digitalizamos revistas e colocamos poetas diferentes em ficheiros diferentes, portanto leio muita crítica na diagonal. Mas é complicado. O Billy Collins era um poeta que fui ouvir ler quando comecei a entusiasmar-me por poesia, e adorava-o, tornei-me fã. Mas depois li uma crítica terrível na revista Poetry Review, o que me fez questionar a minha apreciação. E acho que se [a crítica] tem esse efeito, se faz com que alguém pense “Estava errada, não devia ter gostado daquele tipo de poesia”, então sim, julgo que pode ser muito prejudicial.

JF: Um poeta português [Alexandre O’Neill] disse numa entrevista que era melhor receber um aperto de mão de um leitor entusiasmado do que ler uma crítica. Diria o mesmo?

Sim, também acho.

JF: Tem alguma ideia sobre o modo como a poesia devia ser ensinada?

Talvez o que tenha ajudado mais tenha sido quando diziam “se gostaste deste poema, também vais gostar muito deste.” Acho que ler é o melhor professor.

JF: Que poetas foi aconselhada a ler?

Quando comecei, o meu editor, Don Paterson, disse-me para ler Hugo Williams. E é muito interessante, porque nessa altura ainda não tinha lido nada do Hugo Williams, mas consigo encontrar semelhanças no modo como escrevemos. E também fui aconselhada a ler Selima Hill. Acho que também vão gostar dela.

JF: Há alguma coisa de que não goste na poesia? Uma palavra? Uma figura de estilo? Clichés que se esforça por evitar?

Nem por isso. Mas sim! Na verdade acho que tenho. Gosto de poesia muito directa.

JF: Porquê?

Não sei. Julgo que ser-se directo, usar-se linguagem muito simples, também pode ser profundo; vai directamente ao coração das coisas. Tendo dito que gosto de poetas como Medbh McGuckian, em que apesar de não saber bem o que se passa no poema me desperta sentimentos fortes, por vezes gosto de alguma ambiguidade. Mas gosto mesmo muito de poesia sincera, directa. [Risos]

JF: O que perguntaria a outro poeta?

Interessa-me muito saber com que frequência escrevem e se têm algum tipo de rotina.

JF: Temos uma secção sobre curiosidades literárias. Há alguma de que se lembre?

De certeza que sim. Já volto a esta. Espero que isto não seja egocêntrico, mas tenho uma curiosidade literária minha. Servi de modelo para a personagem Sybill Trelawney (ver aqui), na edição ilustrada de Harry Potter. Conheço o ilustrador, Jim Kay, e ele achou que eu daria uma boa Sybill! Mas ainda vou tentar lembrar-me de uma sobre um poeta do passado, já que isso seria melhor para o vosso site.

JF: Uma amiga perguntou se haveria algum vestido que sempre sonhou ter, mas nunca teve.

Acho que não, mas… Acho que não, uso principalmente calças. Num fim de ano decidi que usaria saia uma vez por semana e, nos últimos anos, comprei mais vestidos do que alguma vez comprara. Na verdade, uma vez vi um vestido na montra de uma loja que gostaria de ter comprado. Era de chiffon azul e tinha uma aplicação metálica e brilhante à frente e numa das mangas, como lantejoulas. Mas devo ter pensado onde o usaria.

JF: Tem passatempos?

Corro. Faço corridas e toco clarinete. Devia praticar mais.

JF: Tem uma canção preferida?

Bem, sou fã de Steve Sondheim, e a “Send me to the Clowns” tem trechos muito bonitos para clarinete.

JF: Quem gostaria que a representasse num filme sobre a sua vida?

[Risos] Bem, gosto muito… Hhmm, devia escolher uma actriz inglesa. Hhmm… Bem, talvez escolha uma actriz francesa. Adoro a Audrey Tautou. Acho que o filme, quero dizer, talvez eu pudesse ser uma parte curta num filme, porque acho que a minha vida seria muito aborrecida, acho que eu não daria um filme muito bom. [Risos] Então talvez uma personagem menor, representada pela Audrey Tautou. [Risos]

JF: Preocupa-se com métrica e ritmo quando escreve?

Sim, penso sobre rimas internas e coisas desse tipo. Estou consciente disso. Penso enquanto escrevo, agora tenho um bocadinho mais de controlo do que quando comecei. Lembro-me de alguém me ter dito que eu não rimava, mas acho que tenho rimas internas. E por vezes também acho que se passa qualquer coisa de que não estou inteiramente consciente.

JF: Qual é a sua relação com outros poetas? Vai a leituras de poesia, por exemplo?

Sim, vou a algumas leituras de poesia. Há leituras regulares na National Poetry Library. Frequento um grupo de leitura de poesia, mas também um grupo de escrita com outros poetas e estaria muito perdida sem isso.

JF: Como funciona?

Encontramo-nos todos os meses, ou a cada seis semanas, e em geral levamos connosco dois poemas em que estamos a trabalhar, partilhamos e fazemos comentários. Agora somos seis. Quando me mudei para Greenwich, descobri, através da revista Magma, que o poeta Mick Delap, que eu tinha conhecido num curso de literatura, me tinha convidado para me juntar a um grupo que estava a iniciar.

JF: O editor da Picador faz sugestões?

Sim, o Don Paterson, o editor, envolve-se muito.

JF: Quais são os seus locais preferidos em Londres? E a sua livraria preferida?

Isto provavelmente não soa muito bem, mas como trabalho com livros tento evitá-los. É o que acontece depois de 20 anos a trabalhar em bibliotecas! Eu vivo perto de Greenwich Park e de Blackheath, por isso adoro ir ao brejo e a Greenwich Park. E descobri um sítio novo, o Charlton Lido (caso não tenham a palavra “lido” em Portugal, é uma piscina ao ar livre e, felizmente, a de Charlton é aquecida). Aconselho uma ida até lá, embora não vá há que tempos. Adoro ir ao cinema. Adoro o Greenwich Picture House. Um dos meus objectivos de vida era poder caminhar até ao cinema, de minha casa, e posso ir a pé pelo parque, até ao Greenwich Picture House.

JF: Gosta de alguns filmes em particular?

Gosto muito de comédias românticas. Mas também de um pouco de ficção científica.

JF: Quais são os seus filmes preferidos?

When Harry met Sally, mas adoro While You were sleeping. E Strictly Ballroom passou no outro dia na televisão e eu devia ir para a cama, mas não consegui parar de ver, apesar de o ter visto montes de vezes. Estou muito entusiasmada com o novo Star Wars e com o novo Blade Runner.

JF: Vi que havia um clube de poesia de Philip Larkin. Ele é uma referência importante para si?

Fizemos um clube de leitura, foi só uma vez, em que olhámos para os seus poemas. Gosto muito dos poemas dele e marquei uma viagem para Hull em Outubro, porque há uma exposição dedicada a Philip Larkin, na Universidade de Hull. E, há uns anos, fui a Coventry e acabei por espreitar a casa onde ele nasceu. Eu sei que já não é tão “fixe” gostar dele hoje em dia. Acho, e é algo com que consigo identificar-me, que os escritores podem, quando escrevem para alguém, reinventar o modo como escrevem para se adaptarem à pessoa, e julgo que ele fez isso, mas não desculpa as coisas que ele disse.

JF: Há alguma coisa que gostaria de ver num site de poesia?

Agora estamos a reformular o site da National Poetry Library e tenho pensado muito nisso. Acho que o principal são poemas.

JF: Acredita nos móveis IKEA, na sua durabilidade?

Acredito. Sim, acredito. Ultimamente tenho-me sentido atraída por móveis em segunda mão, mas à entrada da biblioteca, por onde passámos, é tudo feito de prateleiras IKEA. Adoro as estantes de livros deles. [Então não cairão sobre os leitores, como o armário no seu poema?] [Risos] Não, não. Sim, temos de os construir como deve ser, e a minha irmã constrói-os como deve ser. Por isso… [Risos]

JF: Que poeta contemporâneo entrevistaria, se pudesse?

Hhmm… Há pouco tempo fui a uma conferência e a Sinéad Morrissey estava lá, e gostaria de ter falado com ela, mas fui tímida. Foi um disparate, porque já nos tínhamos conhecido… Por isso talvez gostasse de entrevistar a Sinéad Morrissey.

JF: Que quadro gostaria de ter numa parede de casa?

Eu vou a exposições e penso muitas vezes “gostaria de ter aquele”. Fui à exposição da Georgia O'Keeffe na Tate Modern, no ano passado, e ali estava um quadro pequeno, bonito, de uma prateleira com algas verdes e vermelhas (“Shell No. 2”). Pensei que gostaria de o levar para casa, simplesmente. E depois um amigo enviou-me um postal e era o mesmo!

JF: Que músico gostaria de ter na cave de sua casa, disponível para tocar para si sempre que quisesse?

[Risos] Seria o Ron Sexsmith, porque ele é tão prolífico que estaria sempre a escrever canções novas. Por isso seria óptimo se ele pudesse ficar na minha cave a escrever canções. [Risos] Mas acho que ele não gostaria de estar na minha cave… embora eu...[Risos]

JF: Alimentá-lo-ia como deve ser. [Risos]

Sim! E também sou fã da Natalie Merchant, por isso gostaria que ambos estivessem lá. [Risos] Não sei o que pensaria disso, mas talvez durante uma semana pudessem ficar na minha cave e escrevessem algumas canções juntos. [Gostaria de escrever algumas canções com eles?] [Risos] Oh sim, não tinha pensado nisso! Talvez nós os três! E acho que também diria ao meu irmão. Nós os quatro [Risos]. Acho que também devia convidar as minhas irmãs! Podíamos lançar um álbum como Merchant, Sexsmith and the Mariner Family. Eu podia tocar clarinete.

JF: Que poetas contemporâneos sugeriria a alguém que não conhece muito bem poesia inglesa?

Se puder expandir para poesia britânica, gosto muito de vários poetas da Irlanda do Norte, como Sinéad Morrissey, Colette Bryce, Leontia Flynn e Derek Mahon. Depois, Fleur Adcock e Selima Hill de quem falei atrás. 

JF: De que pergunta gostou mais, se tiver gostado de alguma.

Talvez da primeira. Gosta de poesia?

 


Lorraine Mariner publicou duas colecções de poesia com a Picador, Furniture (2009) e There Will Be No More Nonsense (2014) e trabalha como bibliotecária na National Poetry Library, no Southbank Centre, em Londres. Editou duas antologias para a Candlestick Press, Ten Poems About Tea e Ten Poems About Friendship. Ler mais aqui