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Entrevistas

Entrevista a Pedro Tamen

Maria S. Mendes

 
 Pedro Tamen e o cão Moisés. Fevereiro de 2014.

Pedro Tamen e o cão Moisés. Fevereiro de 2014.

 

Entrevista a Pedro Tamen

Arrábida, 17 de Janeiro de 2018

Pedimos uma entrevista a Pedro Tamen e rapidamente tivemos um “sim” acompanhado de duas hipóteses de concretização: entrevista feita por escrito ou feita por alguém que lhe fosse próximo. A entrevista realizou-se em sua casa, e em pouco mais de 23 minutos ficámos a saber muito do que pensa Pedro Tamen sobre a poesia e sobre como ultrapassar a agonia de falar de si próprio. Esta entrevista foi conduzida pelo nosso colaborador Sebastião Belfort Cerqueira.

 

JF: Gosta de poesia?

Acho que sim, se o verbo “gostar” quisesse dizer alguma coisa a este respeito. Porque gostar implica uma relação afectiva e nem sempre total. Ora, eu com a poesia tenho uma relação afectiva, também, mas total.

 

JF: Para que serve a poesia?

Não serve para nada, absolutamente nada. Não sei se se refere à poesia que se faz ou à poesia que eu faço. De qualquer modo, tanto uma como outra são completamente inúteis porque não é por isso que deixa de haver dramas de refugiados no Mediterrâneo.

 

JF: Usa a poesia no dia-a-dia?

A minha, a que eu faço, não a uso... A dos outros uso-a, mas não sei bem para que fim.

 

JF: Como se fala sobre um poema?

Fala-se sobre um poema exactamente do mesmo modo como se fala sobre a chuva e o bom tempo.

 

JF: E como é que ensinaria alguém a ler um poema?

Lendo-o eu próprio.

 

JF: Lembra-se de versos com regularidade? Sabe versos de cor?

Lembro-me de versos com regularidade, simplesmente são versos que não existem.

 

JF: Ainda lhe acontece isso?

Sim, sim, quase diria que me está a acontecer neste momento.

 

JF: E já não tem vontade de transformar esses versos em poemas?

Não, porque a transformação de um verso em poema não é um acto de vontade e, por isso...os versos funcionam como uma espécie de matagal onde nada está dominado ou aformoseado.

 

JF: Qual ou quais são os seus poemas preferidos?

É aquele de que me estou a lembrar em cada momento.

 

JF: Tem alguma embirração linguística e/ou poética?

Tenho, tenho... mas só me lembro quando vem a propósito.

 

JF: Tem especial apreço por algumas palavras, formas poéticas ou figuras de estilo?

Tenho, e tenho mesmo mais do que especial apreço, tenho obsessão.

 

JF: Por formas poéticas também? Por exemplo, sonetos?

Sim, mas só quando estou para aí virado.

 

JF: O que tem em comum o trabalho do poeta com o trabalho do sapateiro?

Um e outro são trabalhos de improviso, impensados.

 

JF: O que é a técnica de um poeta? O que é para si um poeta virtuoso? Acha que é preciso ser virtuoso?

Virtuoso... virtuoso é o poeta que não bate na mãe.

 

JF: Numa entrevista, disse que preferia ser um poeta realista a um poeta hermético. O que é ser um poeta realista?

É um poeta claro.

 

JF: Começou por traduzir poesia e depois passou para a prosa. Porque é que deixou de traduzir poesia?

Porque a poesia é intraduzível, mas demorei tempo a descobrir isso.

 

JF: Gostou de fazer crítica literária? Quais eram os seus critérios para a fazer?

Não gostei de fazer crítica literária. E o maior problema que tive foi o de não ter critérios nenhuns para a fazer ou não fazer.

 

JF: O Alexandre O’Neill dizia que preferia um aperto de mão de um leitor a uma crítica de um critiquelho. Concorda com o O’Neill? Porquê?

Em absoluto, porque o aperto de mão, quando não é gorduroso, chega para nos armar contra os beliscões.

 

JF: O que foi para si editar poetas?

Foi exactamente a mesma coisa que editar-me a mim próprio.

 

JF: Chegou a dizer em entrevista que não parece ser um poeta, porque não se dá muito com o meio literário português e é discreto. Acha que um poeta tem de ser excêntrico?

Não, uma coisa não tem que ver com a outra.

 

JF: O que é que acha de haver ruas com nomes de poetas? Tem um poema em que fala de uma rua em Chelas...

Ruas com nomes de poetas são óptimas para fazer índices.

 

JF: Poderia descrever-nos uma peça de vestuário com que sempre tenha sonhado e que nunca tenha tido?

Se é uma peça com que eu sonhei, é absolutamente indescritível.

 

JF: Quem é que gostaria que o representasse num filme sobre si?

Eu próprio.

 

JF: Ter deixado de escrever foi uma decisão?

Não, no caso concreto, não... mas podia ter sido.

 

JF: Há alguma outra pergunta que acha que devesse ser feita?

Sim. Será que isto tem alguma importância?