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7.

Poemas de agora

7.

Maria S. Mendes

 

7.

 

Meia sola é meia sola.

Será por isso que a cola

me cheira tanto a vinagre?

 

Mas meia sola é milagre.

E eis o que ninguém sabe:

que neste cantinho cabe,

na penumbra da oficina,

na casca do caracol,

esta pequena aspirina

que é a largueza do sol.

 

Pedro Tamen, "7", O livro do sapateiro. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010.

Aqui publicado com a autorização do autor.

 

 

Gosto deste poema porque se deixa ir, apesar de saber que essa não é uma característica universalmente apreciada por leitores de poesia. Alexandre O’Neill, por exemplo, manifestou uma inclinação contrária quando escreveu que tinha “uma preferência marcada pelo escritor que, embora entregue ao embalo da escrita, é capaz de reflectir sobre o que escreve e romper com qualquer morceau de bravoure no qual estivesse a meter-se, rendido à facilidade” (em “Um Expedito Desembaraço”, no livro Uma Coisa em Forma de Assim). Acho que é uma questão de contexto. Provavelmente, O’Neill não estava a escrever numa altura em que a maior parte da poesia se inclina mais para “reflectir sobre” do que para escrever. Quando a poesia é quase toda pensamento e filosofia, sem rima nem ritmo, nem divertimento com sinais ortográficos, sabe melhor encontrar poemas que nos proporcionam uma fruição mais sensível.

Gosto deste poema porque faz isso, mas também porque é sobre isso, sobre o gozo que nos dá uma coisa bem feita e, em particular, o gozo que dá fazê-la. Se O’Neill sugere que o escritor só mostra que reflecte sobre aquilo que escreve ao romper com o virtuosismo ou a exuberância técnica (presentes na ideia de morceau de bravoure), o poema de Pedro Tamen oferece-se como uma alternativa. Equilibrando ideias e sons, pensamentos e ritmo (os dois lados a que tenho estado a aludir e a que se costuma chamar “conteúdo” e “forma”), este poema é ambos fruição e reflexão e responde a O’Neill o que ele certamente sabia: contrariar o embalo da escrita não é a única forma de pensar sobre ela e de evitar a facilidade – tirar conscientemente partido do momento em que se escreve é pelo menos tão difícil e mais gratificante.

“Meia sola” não é meia-sola. Ou seja, Tamen não está a começar o poema com uma constatação ontológica sobre uma peça de sapataria mas com uma celebração do processo. A sola está meia feita: o primeiro verso lê-se como “meia sola já cá canta”. Os dois seguintes põem momentaneamente em risco a interpretação celebratória. O cheiro a vinagre da cola, que rima com “sola”, parece sugerir que meia sola sabe a pouco. Daí a importância do “mas” que começa a segunda estrofe, a estrofe em que o reconhecimento do milagre (que rima com “vinagre”) se instala contra o travo amargo do fim da primeira. O milagre da meia sola muda o tamanho das coisas, ou revela que o tamanho das coisas varia com a nossa percepção delas. Na pequena oficina escura, há um pequeno remédio para a penumbra e o cheiro a vinagre: o sol largo que entra, ou em que reparamos, quando percebemos que meia sola não só é melhor que nada, como é bom. A “casca do caracol” une o homem e a oficina, diz-nos que este prazer de fazer justifica a existência. Se não é por isto que uma pessoa faz poemas, não é pelas melhores razões.

Sebastião Belfort Cerqueira


Sebastião Belfort Cerqueira. Desempregado. Lê e escreve alguma poesia. Gosta de rimas.