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Palavras caras

Poemas de agora

Palavras caras

Maria S. Mendes

 

Palavras Caras

 

Em minha casa, detestávamos pessoas bem-

-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a

prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:

            – Fiquei muito confrangida.

Passámos a chamar-lhe “a confrangida”.

Sempre que aparecia alguém na televisão a

declamar poesia ou a falar de poesia, desligáva-

mos a televisão.

 

Adília Lopes, “Palavras Caras”, Manhã. Lisboa: Assírio & Alvim, 2015. 

© Adília Lopes e Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora.

Aqui publicado com autorização da autora e da editora. 

 

Gosto deste poema porque, em primeiro lugar, me obriga a enfrentar dúvidas linguísticas e a ir ao dicionário averiguar a diferença entre “confrangido” e “constrangido”, lembrando-me do confrangimento por que passo quando hesito na sua utilização. Para evitar o constrangimento da hesitação de não saber qual a palavra mais apropriada à circunstância, prefiro dizer, ao contrário da prima do poema, que “fiquei aflita ou angustiada”.

Em segundo lugar, gosto deste poema porque, à semelhança da poetisa e da sua família, tenho aversão profunda ao emprego a despropósito de palavras caras, sobretudo quando isso significa tentativa de exercer sobre os outros algum tipo de superioridade intelectual. No poema, a família da poetisa, na qual esta também se inclui, como se torna claro pela utilização da primeira pessoa do plural (“detestávamos”), não gosta de pessoas bem-falantes nem de palavras caras. As pessoas bem-falantes parecem ser aquelas que utilizam palavras caras, frequentemente de forma inapropriada. A repulsa não é tanto às palavras caras como às pessoas que simulam eloquência empregando termos mais caros, em vez de usar a linguagem de todos os dias. A prima Maria Lucília, nome composto, como aliás a palavra “bem-falante”, personifica a pretensa eloquência através do verso em discurso directo, que se destaca claramente do resto do poema: “– Fiquei muito confrangida”.

Um antepassado deste poema é a crónica “Fazer Prosa, Fazer Rosa”, de 2001, publicada no Público. Convoco-a para esta análise, já que nela podemos ler este mesmo poema com uma ordem inversa na apresentação das ideias. Adília começa por falar do facto de a família não gostar de poesia e desligar a televisão sempre que alguém recita poemas, para depois referir a dita aversão às palavras caras, configurada na figura de uma prima bem-falante: “Sempre que, na televisão, aparecia alguém a recitar um poema, tirava-se-lhe o som. […] Em minha casa, toda a gente tinha horror às palavras caras. A prima Maria Lucinda, quando veio cá tomar chá, disse já não sei a propósito de quê ‘fiquei muito confrangida’. A tia Paulina alcunhou-a logo de ‘a Confrangida’”.

Por último, talvez a razão mais forte para gostar deste poema seja o facto de fazer uma associação entre pessoas bem-falantes e um certo tipo de poesia, não aquele que Adília pratica neste poema. Na casa da poetisa, as pessoas bem-falantes, aquelas que declamam poesia ou que falam dela na televisão não merecem tempo de antena. O que levou a prima a ficar “confrangida” – e não saberemos nunca se a prima do poema e da crónica empregou ou não o termo com propriedade – é absolutamente irrelevante. O que interessa realmente é o sarcasmo do poema. Os três versos finais, cuja simplicidade (veja-se a repetição de palavras como “poesia” e “televisão”) está nos antípodas do estilo das pessoas bem-falantes, rejeitam a pomposidade que muitas vezes se pretende atribuir à poesia. Leio neles um programa poético despretensioso e uma tentativa de conferir à poesia uma noção de verdade. As palavras caras que são empregues por pessoas bem-falantes são por vezes forma de escamotear a verdade, e demasiada eloquência é inimiga da boa poesia. Por sua vez, declamar poesia é gesto sobranceiro, e, melhor do que recitar ou falar dela em jeito empertigado, é fazê-la dizendo a verdade. Este poema ilustra, pois, os princípios éticos e estéticos de Adília Lopes, que sintetizo numa versão truncada de uma frase da crónica já citada: fazer poesia é não dizer mentiras.

Joana Meirim


Joana Meirim é professora na Universidade Católica Portuguesa. Entre os 18 e os 19 anos escreveu vários poemas e publicou-os, hélas. Hoje não voltaria a fazê-lo. Gosta de poesia com humor, qualidade que aliás considera inerente a toda a boa poesia.