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Inéditos

Filtering by Category: Inéditos

POLÍTICA (um projecto)

Maria S. Mendes

POLÍTICA (um projecto)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nenhuma colagem

à esquerdaàdireita

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

fazer de mulher

ser de ninguém

 

 

 

 

 

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o século passado

é demasiado novo

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um primeiro-ministro

depois da meia-noite

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

todos os dias há

acasos novos

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

comover climas

comprar tempo

 

 

 

 

 

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pesagem é tudo

o resto é paisagem

 

 

 

 

 

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página a página

escrever branco

 

 

 

 

 

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o amor a um torso

não tem solução

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

pequena política

dizer não dizer

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um dó sustentado

emoção ne varietur

 

 

 

 

 

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o som dos votos

a caixa das esmolas

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

triste cidade

sem reforma

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

cai o pano

e o salário

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

de quem serão

as horas dos outros?

 

 

Ricardo Tiago Moura

 


Ricardo Tiago Moura nasceu em Coimbra, Junho de 1978. Publicou os livros Um gato para dois (Hariemuj, 2013), Epístolas a D. (não edições, 2013), 1 gato para 2 (não edições, 2015) e pequena indústria (Tea for One, 2016). Publicou também o livro-objecto Controlo de qualidade (ed. de autor, 2017). O seu livro Espaço aéreo (Arqueria, 2014) foi publicado no Brasil, mais tarde traduzido para Espanhol e Inglês e publicado no Peru (Amotape Libros, 2015) e Reino Unido (Carnaval Press, 2017). Tem publicado dispersamente poemas em revistas e antologias. Dedica-se também à colagem. Vive em Køge, Dinamarca. 




Bule, Adília Lopes

Maria S. Mendes

 

 

 

 

 

Bule

 

Adília Lopes

 

 




 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

“Nenhuma folha bole”

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Estações do ano”













 

Em criança, detestava ir à escola e ir ao dentista. Invejava a minha avó porque não tinha dentes e não ia à escola. Eu achava divertido usar placa postiça. 

 

20-XII-2017

 





 


Em criança, a minha mãe deu-me um livrinho de zoologia cheio de imagens coloridas muito apetitosas. É Zoology, Golden Science Guide, publicado em Nova York em 1962. AS imagens da página 100, tinha de ser a página 100, eram as mais apetitosas. Uma é a imagem dos dois perfis em que também se pode ver uma jarra. A outra era a mais apetitosa mas vejo hoje que é sexista. É o reflexo condicionado. No chão, um rapazinho vestido de azul brinca divertido com uma cobra. Em pé, em cima de um banco de jardim, histérica, apavorada, uma menina de vestido cor-de-rosa já sabe que as cobras podem ser perigosas. Tinha de ser: a menina assusta-se, não se diverte; o menino diverte-se, nenhum mal lhe acontece. 

 

20-XII-2017

 






 

Pipi das Meias Altas

 

 

Estava a almoçar num restaurante em Lisboa e entrou uma dúzia de nórdicos. A empregada que os foi atender disse mais tarde a um colega: “São da terra da Pipi das Meias Altas, não se percebe nada do que dizem”. Achei graça a isto e lembrei-me da Pipi das Meias Altas. Foi um ídolo da minha infância. Fui ao aeroporto esperá-la. Fomos de táxi, a minha avó, uma vizinha da minha idade e eu. No aeroporto, ouvi uma menina dizer: “o meu sonho era andar de avião...” Não vi a Pipi. O meu pai levou-me ao Jardim Zoológico porque a Pipi ia lá. Aí vi a Pipi. Ainda hoje me lembro do ar dela, acho que ia contrariada. Depois vi uma fotografia dela numa revista, talvez na Flama. Estava numa piscina no Estoril. A Pipi já tinha maminhas. Era afinal uma rapariga como as outras, não era o ser fantástico da televisão. Isto fez-me muita confusão, desgostou-me. Nunca mais acreditei em actrizes. Actrizes são pessoas. 

 

26-V-2018

 







 

No Vale Abraão de Agustina, não me interessa a Bovarinha nem as considerações sentimentais. Gosto da página sobre chinelos de quarto de Inverno. 

 

8-XII-2017








 

A tradição oral

 

Uma alentejana de Brinches, de uma vez que eu estava com soluços, disse-me para eu beber um gole de água e, sem respirar, dizer em voz alta Jesu. Disse para eu repetir esta operação três vezes seguidas. Os soluços passaram. É uma boa receita para os soluços. 

 

23-XII-2017











 

Praia

 


Na praia do Estoril, nos anos 60, havia a mulher dos bolos. Era uma mulher vestida de branco que andava com uma caixa grande de madeira ou de lata, já não sei, a vender bolos pela praia. Eu achava a caixa mágica porque tinha prateleiras e bolos nas prateleiras. Não comia bolas de Berlim, as crianças costumavam gostar de bolas de Berlim, mas eu não me dava com crianças, dava-me com velhas, comia barquilhos com doce de ovos. Também havia nozes, bolinhos de ovo com açúcar em caramelo e uma noz dentro. Eu não gostava de nozes, isto é, do fruto seco, gostava do doce de ovos com o açúcar em caramelo. Penso hoje nas mulheres dos bolos. Como devia ser penoso andar assim com a lata dos bolos à torreira do Sol a pisar a areia a escaldar e a aturar fregueses antipáticos. 

 

27-V-2018

 










 

A minha mãe

 

A minha mãe não sabia cozinhar. Nunca cozinhou. A minha avó materna também não sabia cozinhar e também nunca cozinhou. Isto foi complicado para mim. Gosto de me lembrar das torradas que a minha mãe me fazia ao Domingo no fogão. Eram de pão espanhol, também chamado roscas, um pão que havia nas padarias de Lisboa nos anos 60. Muito fininhas e com muito pouca manteiga, completamente derretida. Não gosto de manteiga. As torradinhas era a única coisa de cozinha que a minha mãe fazia. 

 

27-V-2018

 











Bichos

 

Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna. 

 

31-XII-2017

 












 

A minha gata Lu, quando tinha um pano perto da tigela da comida, puxava o pano com as patas e tapava a tigela. Fazia o mesmo ao meu prato quando eu acabava de comer. 

 

31-XII-2017

 

 












Vários, Longley

Nuno Amado

WILD ORCHIDS

 

In my synapses early purples persevering

As in a muddy tractor track across the duach;

Close to the old well and the skylarks’ nest, briefly

Marsh helleborines surviving the cattle’s hooves,

Then re-emerging at the waterlily lake

Between the drystone wall and otter corridors;

A stone’s throw from the Carrigskeewaun cottage

Two introverted frog orchids; in the distance

A hummock covered with autumn lady’s tresses,

Ivory spirals that vanish for a decade;

On the higher bank of the Owenadornaun

Above the sandmartins’ nesting holes, butterfly

Orchids like ballerinas; at Kilnaboy

Bee orchids under the sheela-na-gig’s display;

Dowdy neotinea maculata at my feet

Where the turlough below Mullaghmore disappears

Underground; against limestone grey at Black Head

Red helleborines igniting; the lesser twayblade

With its flower spike like a darning needle, tiny

And hidden away beneath a heather stand;

On the Tyrrells’ Kildalkey farm, pink pyramids;

 

Along the path to the waterfall at Cardoso,

Near Elvira’s overgrown olive grove, tongue

Orchids folded like napkins; lizard orchids

In the Mugello, shaggy, thigh-high; on Paros

Bee orchids (again) beside the marble pavement,

A blackcap singing (in Greece or Ireland?); just one

Bedraggled fly orchid in a forgotten field,

Its petals cobalt, chestnut-brown, as I recall.

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Vários, Mochila

Maria S. Mendes

Às vezes acordamos felizes, a luz borbulha, escorre

um novelo de cabelos sobre os nossos joelhos e bocas

 

Sobre as grandes flores fulvas do linho, desbotadas

a manhã desaba

uma canção alaranjada

 

Um trilho desce

pelas pregas dos lençóis nas tuas nádegas

e eu fico a pensar na forma sonolenta

desses pequenos budas divertidos na penumbra

sorrindo com o picotado de um arrepio

na tua pele (…)

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Formigas / ou / A morte explicada às criancinhas

Maria S. Mendes

Formigas

ou

A morte explicada às criancinhas

 

            1

 

Vê-se primeiro uma só formiga.

 

Parece perdida, enleada nas ervas,

movendo-se indecisa atrás e adiante,

sem saber muito bem que direcção tomar.

 

Lembra um turista que não sabe

em que país se encontra

nem entende a língua que ali se fala,

e procura orientar-se consultando um guia hostil

num lugar hostil.

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Caddy

Maria S. Mendes

Caddy

 

Pensei imaginar-te outra vez nua entre

coisas brancas panos nuvens ovelhas e

camarinhas frutos pequeninos que os teus

dentes brancos ligeiramente inclinados

para a frente para um beijo para mim

trincam e tu tapas a boca com a mão

e cospes caroços desenhas nos lábios

um sorriso de vestal apanhada pelo sol

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Sofrósina

Maria S. Mendes

 

Sofrósina

 

Olha: conseguimos!

Entre minérios vulgares

e berilo jadeite musgravite

diria estarmos perante um perfeito nove.

Uma moldura ficaria bem aqui

nesta relação finalmente estabilizada.

 

O caranguejo diagonou como um bispo

enquanto testava a minha força

numa máquina Gottlieb

e pagava outra rodada

à rapaziada sedenta

e a gasosa corria de grandes desfiladeiros

caindo entre anéis de profundos dedos

sob soturnos olhares

despedaçados sobre as pedras

como algas cadentes

quando a benitoíte se inflama sob a luz negra

e o estroboscópio obtura a pista

pelo último recluso.

 

Depois o cabedal da noite

como canga sobre a ganga

quando o seu braço encontraria o seu cachaço

e os dois rumavam à eternidade

num silêncio de olheiras

ainda zoando a cromados

e a pontes encavalitadas sobre 

baixos rios.

 

E depois ainda o grande mundo:

raios de cobalto no capote da noite

quando Trastevere era uma boémia

ou Aldous um nome para Oxford

não fosse o tempo chegado

e tivéssemos de arranjar uma solução

em cima dos joelhos

para a torção de sobriedade,

para o dealbar da ordem de serviço

quando estudantes passavam a técnicos

e baladas a despertadores.

 

Aqui agora nesta intenção de tempo

entre a beleza do ponto sem retorno

e a lúrida manhã

estalamos gengivas,

acordamos a espantada

húbris: os gregos saberão usá-la

com moderação. 

 

Daniel Jonas


Daniel Jonas nasceu no Porto, em 1973. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e é mestre em Teoria da Literatura (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Publicou os livros de poesia  Os Fantasmas Inquilinos (2005), Sonótono (2007), Passageiro Frequente (2013), Nó (2014, Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes), Bisonte (2016) e Oblívio (2017), e também a peça de teatro Nenhures (2008). Recebeu o Prémio Europa - David Mourão-Ferreira pelo conjunto da sua obra. Escreveu EstocolmoReféns e o libreto Still Frank, todos encenados pelo Teatro Bruto. Traduziu, entre outros, Shakespeare, Waugh, Pirandello, Berryman, Dickens, Huysmans e Wordsworth, e também o Paraíso Perdido, de Milton. Ler aqui.