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Pastelaria

Poemas de antes

Pastelaria

Maria S. Mendes

 

Pastelaria

 

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante! 

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: 
Gerente! Este leite está azedo! 

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra 

 

Mário Cesariny, “Pastelaria”, Nobilíssima Visão. Assírio & Alvim: Lisboa, 1991.

 

Este poema não devia ter sido esquecido porque. Mas afinal o que importa não é o esquecimento. Afinal o esquecimento é sem porquê. O que importa é que a rosa é sem porquê. Assim como assim, a rosa não foi esquecida… Afinal pela palavra afinal começa a alegoria, perdão, a pastelaria, e lá fora a alegoria ri-se de tudo. A pastelaria é sem porquê: alegoria, fantasia, poesia. Três teorias: a da produção, a da inspiração, a da câmara escura. Convém não esquecer que a câmara escura também é sem porquê. Não é verdade, menina? Afinal amanhã é sem porquê. O riso admirável é sem porquê. Cerne: mergulhar verticalmente no vício da estante. De poesia? Frente ao precipício. Este precipício não devia ter sido esquecido porque. O vício é sem porquê? Close reading diz-se no feminino? A charola, a estante, a bola, o cinema e a close reading… Burlescas, sentimentais. As teóricas não deviam ter sido esquecidas. Não foram, é verdade, assim como assim. Mas isso afinal não importa. Afinal cantante, compondo uma estante, a rima é sem porquê. Os homens comprazem-se no imitado. As mulheres também. O leite do gerente está quente. Azedo, o leite está azedo. E não é do gerente. A rima não tem de quê. Sem medo. Com medo. Cedo: este poema sabe e gosta. Verticalmente no vício: lavados e muitos dentes brancos à mostra. Sabe e gosta: o riso é sem porquê. Este poema não devia ter sido esquecido porque. O poema é sem porquê. Afinal, assim como assim, faz falta. Faz falta todos os dias. Todos os dias sem porquê. Ter o poema ao lado de ter horas de ócio. Afinal o que importa. Pela palavra afinal começa afinal o que importa. Não é verdade, rapaz?

Abel Barros Baptista


Abel Barros Baptista é professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ensina Literatura Brasileira e os seus outros principais campos de interesse são Teoria da Literatura e o ensino da literatura. Publicou vários livros sobre temas e autores da literatura portuguesa e brasileira, destacando-se os seus trabalhos sobre Camilo Castelo Branco e Machado de Assis.