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S’obedecera a rezam

Poemas de antes

S’obedecera a rezam

Sara Carvalho

 

S’obedecera a rezam

e resestira a vontade,

eu vivera em liberdade

e não tivera paixam,

 

Mas quando já quis olhar

s’em algum erro caíra,

achei ser tudo mentira

s’a isto chamam errar:

 

que seguir sempre razam

e nam mil vezes vontade,

é negar sensualidade,

cujo é o coração.

 

Duarte de Resende, “S’obedecera a rezam”, Florilégio do Cancioneiro de Resende, selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa. Lisboa: Textos Literários, 1994.

 

Este poema não devia ter sido esquecido porque é uma breve e melodiosa constatação de uma verdade que qualquer pessoa já sentiu e que provavelmente sente todos os dias: a cabeça não vive sem corpo, e este impõe a sua vontade muitas vezes. Camões cantava honestamente e sem rodeios “espera um corpo de quem levas a alma”. No fundo, é isto que este poema diz. Não se nega a razão (nem a alma), apenas se diz que à razão não se pode constantemente obedecer e que isso é até contranatura (“é negar sensualidade, /cujo é o coração.”). Se há razão, há também corpo. Se há alma, há também corpo. Assim, esta cantiga, a única responsável por que o Cancioneiro Geral ostente a palavra “sensualidade”, é uma agradável e natural oposição à coita de amor de linguagem abstracta e idealização de uma qualquer senhora, comum no restante Cancioneiro.

A verdade é que o corpo dá trabalho, ou porque quer o que a cabeça não quer, ou porque não quer o que a cabeça quer, ou porque não sabe o que quer. A oposição entre razão e vontade que o poema descreve é, por isso, muito importante. É de ressalvar o tom quase sentencioso da conclusão da cantiga, já que esta dá uma resposta pronta ao dilema entre razão e vontade: negar sensualidade é negar o coração que vive naquela. Não costumo apreciar tons sentenciosos, quase jurídicos, mas aprecio este tom em particular, porque resulta de uma constatação quase factual do poeta. Começando por uma oração condicional e pelo uso do conjuntivo (se por acaso ele obedecesse à razão, o que não acontece: a tradução para inglês optou pela segunda condicional para transmitir de forma acentuada o valor hipotético da proposição), o poeta explica os dois lados da questão: ele ponderou obedecer à razão para viver em liberdade, mas não o fez, e quis perceber se cometia algum erro. Constatou que não cometeu, pois não seguir mil vezes a vontade é negar sensualidade, e isto é contranatura, é mentira. Fim. Não há mais nada a dizer. A certeza do poeta é tão grande que a sua breve sentença se traduz na própria brevidade da forma, uma cantiga de três quadras seguindo o popularíssimo verso redondilha maior, heptassilábico. Sendo certo que a brevidade é comum a muitas composições do Cancioneiro, este poema particular de Duarte de Resende é especialmente incisivo.

A tradução para inglês valeu-se das preciosas explicações de Rodrigues Lapa no que respeita à sintaxe do poema, sendo importante notar que Rodrigues Lapa é um dos primeiros a resgatar os Poetas do Cancioneiro do esquecimento em que quase caíram após décadas de uma certa crítica literária que insistia em menorizá-los e/ou ignorá-los. Assim, esclarece Rodrigues Lapa que o oitavo verso é parafraseado por “que a isto chamem errar”; e os dois últimos versos, que ao ouvido moderno, habituado a sintaxe menos delicada, parecem tão crípticos, equivalem a “É desconhecer o direito dos sentidos, sob cuja alçada está o coração”. São estas paráfrases que permitem que a tradução-traição do poema preserve algum aroma da rima do original português. Ainda no que à tradução respeita, é também relevante mencionar a equivalência que se procurou estabelecer no par de opostos razão/vontade. Se “razão” não oferece problema de maior em inglês, as traduções de “vontade” próximas do étimo (“will”, “volition”) pareciam aproximar-se mais do campo semântico do capricho e menos dos tais desejos do corpo que há que respeitar. Optou-se por “desire”, que não deixa margem para dúvidas, tal como o corpo na maior parte das vezes também não deixa. A razão é que de facto é mais enganadora.

Rita Faria


Rita Faria é professora na Universidade Católica Portuguesa, não sabe fazer mais nada sem ser ler e escrever e não quer fazer mais nada sem ser ler e escrever. Fora isto, gosta de filmes de terror, vampiros, fantasmas e zombies em geral. E considera que o português é a língua mais engraçada do mundo.