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A Story of Stolen Salamis

Poemas de agora

A Story of Stolen Salamis

Maria S. Mendes

A Story of Stolen Salamis

My son’s Italian landlord in Brooklyn kept a shed out back in which he cured and smoked salamis. One night, in the midst of a wave of petty vandalism and theft, the shed was broken into and the salamis were taken. My son talked to his landlord about it the next day, commiserating over the vanished sausages. The landlord was resigned and philosophical, but corrected him: ‘They were not sausages. They were salamis.’ Then the incident was written up in one of the city’s more prominent magazines as an amusing and colorful urban incident. In the article, the reporter called the stolen goods ‘sausages’. My son showed the article to his landlord, who hadn’t seen it. The landlord was interested and pleased that the magazine had seen fit to report the incident, but he added: ‘They weren’t sausages. They were salamis.’

Lydia Davis, “A Story of Stolen Salamis”, Can’t and Won’t. London: Penguin Books, 2015.

 

Gosto desta pequena história porque usa um fragmento (do que pelo menos aparenta ser uma imagem cândida) da vida quotidiana, para nos chamar a atenção para um cuidado que, creio, subjaz à literatura (e, teria de argumentar noutro sítio, especialmente à poesia): um cuidado com as palavras. A história de Davis capta uma certa relação com a linguagem, onde as palavras são importantes pela sua capacidade de expressar distinções, nuances e particularidades. E, no entanto, os salames do senhorio italiano são desprezados e chamados de “salsichas” por todas as outras personagens da história.

O que é uma “salsicha”? Esta palavra permitiu a falantes incautos triturarem o que fora um enchido específico. Consequentemente, o seu significado tornou-se indiferenciado - uma massa de carne picada que serve para tudo. O jornalista estava mais interessado em produzir uma historiazinha pitoresca do que em descrever de forma precisa o que tinha efectivamente acontecido: era-lhe mais importante a notícia do que o seu conteúdo factual. O filho da narradora, por sua vez, tentou ser empático relativamente à perda de qualquer coisa que não chegou a compreender, e a forma inapropriada como demonstrou pesar tornou-se clara pelo uso erróneo de uma palavra. O significado de “salames” foi roubado juntamente com os salames, moído numa espécie de croquete.

Tal salsichação poderia servir como exemplo para o que Heidegger chama, em Ser e Tempo, de “conversa fiada” [Gerede, tradução livre (?) minha]. Para Heidegger, a conversa fiada é o nosso modo quotidiano e normalizador de conversa pública, que evita relações de sintonia [“attunement”, Befindlichkeit]. É “fiada”, julgo, porque estar atento a coisas requer mais esforço do que generalizar. Assim, a conversa fiada é uma actividade que todos fazemos com demasiada facilidade - a maior parte das vezes sem sequer reparar. Quando deslizamos para o mexerico, repetimos o que já foi dito e desviamo-nos de uma afinidade com a particularidade e a autenticidade das coisas e dos seres. Apesar de se poder fazer uma defesa da relativa importância salutar da conversa fiada e das distracções supérfluas (nomeadamente dos actos lúdicos), o cerne desta pequena história é, a meu ver, que as nossas formas de vida (neste caso, a relação que um certo senhorio italiano tem com certos bens alimentícios tradicionais) são em grande parte preservadas pela nossa capacidade de distinção. Mais uma vez, na conversa fiada as coisas deixam de ter verdadeira importância; as palavras são pronunciadas para manter um status quo socialmente descomplicado: a vida avança, mas sem inquietações nem surpresas e, acima de tudo, sem ligação à peculiaridade das coisas, pessoas e experiências. Por outras palavras, o que fica para trás é uma forma de percepção que em geral designamos pela palavra “amor”. O senhorio italiano queixa-se do uso abusivo de uma palavra pois esta não se limita a evocar uma coisa, mas contém a própria atitude do senhorio relativamente a essa coisa: tanto o processo como o produto de um cuidado que, depreendemos, ele terá posto no seu trabalho, e que esperamos ter conduzido a um resultado saboroso.

Em suma, gosto desta pequena história porque me fez pensar sobre como, de um certo modo, as palavras estão para poemas como a carne está para salsichas. As palavras são importantes porque são a matéria-prima que mais usamos para comunicar e pensar: são actividades relacionais fulcrais. Logo, um cuidado com as palavras denota um cuidado com actividades relacionais deste género, tanto na nossa relação connosco próprios, como na que mantemos com os outros.

Ingredientes bem escolhidos tornam um produto único. Porém, basta alterar uma letra ou um som para que o significado de uma palavra se transforme completamente. As palavras são caprichosas e, além disso, mudam com o tempo. É fácil cometer erros e, contudo, os erros mais insidiosos, suponho, são aqueles que não se parecem com erros mas distraidamente destroem o significado, por negligência. A forma mais perigosa de ignorância entra em vigor quando essa mesma ignorância (tal como uma era de Trump mais uma vez flagrantemente demonstra) deixa de ser um problema e se torna aceitável.

Bernardo Palmeirim

Tradução de Maria Rita Furtado


Bernardo Palmeirim é leitor de inglês na FLUL, onde ensina Língua Inglesa e Escrita Criativa em inglês. Doutorou-se em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa em 2014, com a tese “What is Poetic Attention”. Os seus interesses incluem poesia, contos, teoria da literatura, filosofia da religião e da linguagem. Apaixonado por literatura e música, é também cantautor e toca em duas bandas.