Contact Us

Use the form on the right to contact us.

You can edit the text in this area, and change where the contact form on the right submits to, by entering edit mode using the modes on the bottom right. 

           

123 Street Avenue, City Town, 99999

(123) 555-6789

email@address.com

 

You can set your address, phone number, email and site description in the settings tab.
Link to read me page with more information.

Soneto não me mintas, não me inventes.

Poemas de agora

Soneto não me mintas, não me inventes.

Maria S. Mendes

 

Soneto não me mintas, não me inventes.

Não torças a verdade com as manhas

Subtis dum charlatão, deste em patranhas?

Sê claro, sê frontal, diz-me o que sentes.

Quem te viu, quem te vê... oh, tão diferente

Do que te motivou, do gozo ou pena...

Tu és como um actor levando à cena

Um texto que estudou e alegre mente.

Quem és, que dizes tu, seu impostor!,

Que mal te reconheço... e eu juro

Que passa por mim mesmo o meu perjuro.

Não passas é de um mau imitador!

Perdoo-te o perderes-me... vai, mau espelho...

Soneto, és um logro. Argh... Estás velho!

 

Daniel Jonas, “Soneto não me mintas, não me inventes”, Nó. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014. 

 

 

Gosto deste poema porque tem catorze versos que consigo parafrasear, o que nem sempre me acontece com outros poemas. O poeta queixa-se de que o soneto, a forma poética escolhida em , o deita a perder. O poema que compõe é um virtuoso exemplo de uma diatribe: o poeta lamenta o facto de o soneto ser incapaz de lhe ser fiel, incapaz de dizer as verdades ou aquilo que sente. Ao invés de ser “claro, frontal”, o soneto é “charlatão”, torce a verdade, mente e inventa, é impostor, “mau imitador” e “mau espelho”. Apesar de todos os defeitos, o poeta é exímio ao compô-lo e fiel aos constrangimentos que esta forma fixa lhe impõe, desde o decassílabo camoniano ao dístico final (gg) do soneto inglês. E acaba até por perdoá-lo em respeito à sua caducidade: “Perdoo-te o perderes-me... (...) / Estás velho!”

O soneto é invocado por três ordens de razão Por um lado, o poeta dirige-se-lhe enquanto forma poética obsoleta, ultrapassada (“Quem te viu, quem te vê...”), sendo o poeta a principal vítima da sua obsolescência, como expressa raivosamente no último período: “Argh... Estás velho!” A verdade é que o soneto já não é eficaz, é forma que perdeu autenticidade: “Quem és, que dizes tu, seu impostor!”

Por outro lado, o soneto em apóstrofe pode ser lido como antonomásia da poesia. Neste caso, o poeta retoma a tese principal da “Autopsicografia” de Fernando Pessoa, desta vez aplicada à poesia e não ao poeta – o soneto é um “fingidor”, com uma acepção moral negativa que o poema de Pessoa não tem. Aqui, o soneto finge, mente, e a poesia é um “mau espelho” dos sentimentos humanos. A expressão “mau espelho” alude a Shakespeare, e isto acontece mais do que uma vez. Assim como Hamlet exorta aos seus actores para que sejam um espelho da humanidade, também aqui o poeta exige o que o soneto, i.e., a poesia, nunca é – fiel à vida humana. Assim, não é de estranhar que o soneto seja “como um actor levando à cena / Um texto que estudou e alegre mente”. O poeta pede ao soneto que seja um bom espelho, mas sabe que, apesar do virtuosismo das rimas, do esquema rimático, de toda a técnica a que recorre no soneto, a poesia falha. A consciência desse engano e a irreversibilidade dessa situação causam uma certa melancolia, de que a interjeição onomatopaica “Argh” dá conta.

Mas a melancolia pode até ter, e tem neste caso, um efeito produtivo. Na verdade, por trás desta apóstrofe ao soneto, também podemos ver um poeta que parece lidar bem com a tradição literária e com o pretenso peso dos seus predecessores ilustres, como Shakespeare ou Pessoa. O “Argh” final tem tanto de frustração como de raiva e até força poética. A diatribe existe, de facto, mas não é só para lamentar e criticar. Serve também para mostrar que o poeta sabe fazer bons sonetos, sabe fazer rimas, cumprir a métrica, escrever catorze versos que resultam bem. Bom ou mau espelho, o soneto é só obra do poeta. É este que o inventa.

Joana Meirim


Joana Meirim é professora na Universidade Católica Portuguesa. Entre os 18 e os 19 anos escreveu vários poemas e publicou-os, hélas. Hoje não voltaria a fazê-lo. Gosta de poesia com humor, qualidade que aliás considera inerente a toda a boa poesia.