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The rains of Castamere

Poemas de agora

The rains of Castamere

Maria S. Mendes

 

The rains of Castamere

 

And who are you, the proud lord said, 

     that I must bow so low?

Only a cat of a different coat,

     that’s all the truth I know.

In a coat of gold or a coat of red,

     a lion still has claws,

And mine are long and sharp, my lord,

     as long and sharp as yours.

And so he spoke, and so he spoke,

     that lord of Castamere,

But now the rains weep o’er his hall,

     with no one there to hear.

Yes now the rains weep o’er his hall,

     and not a soul to hear.

 

 

George R. R. Martin, “The Rains of Castamere”, A Storm of Swords. New York: Bantam Books, 2000.

 

Gosto deste poema porque, apesar de ficarmos rapidamente com a certeza de que uma pessoa interage com outra e com a impressão de que algo de funesto acontece após essa interacção, não somos capazes de responder de pronto a perguntas básicas como “O que é que se passa realmente?” ou “As duas pessoas falam uma com a outra ou uma fala enquanto a outra escuta?”.

É possível que o esforço a que somos então obrigados leve a reparar que estamos perante uma balada popular (uma curta cantiga de feição narrativa que, como nas antigas baladas medievais inglesas e escocesas, alterna entre tetrâmetros e trímetros, geralmente jâmbicos, e se organiza em quadras rimadas no segundo e quarto versos), assim como é possível que sejamos levados a reparar na subtileza com que o lorde de Castamere é referido na terceira quadra. O emprego do demonstrativo “that”, em detrimento do artigo “the”, parece sugerir que esse lorde é o mesmo “lorde orgulhoso” a que o narrador se reportara no primeiro verso, e não o interlocutor calado que afinal apenas o escuta. Se assim for, a pergunta inicial não implica uma dúvida genuína, pois a resposta que se lhe segue é dada pela mesma pessoa. Esse lorde não quer saber quem tem diante de si. Pelo contrário, pretende afrontá-lo, questionando a necessidade da vénia. E mais o afronta de seguida, quando argumenta que, não obstante a maior exuberância do seu rival (aqui metaforizado num leão num “coat of gold”, por oposição a um “coat of red), é tão forte e destemido quanto ele. O tom é, portanto, o de uma ameaça.

O desfecho do poema parece, porém, aziago. O contraste entre a verbosidade dos primeiros oito versos e o silêncio sepulcral dos últimos é inegável, e é acentuado quer pela adversativa (“but”), quer pelo estribilho final. As ligeiras diferenças que esse estribilho introduz oferecem aliás uma explicação para o cenário desolador dos salões desse lorde no presente. Enquanto “no one there” pode simplesmente reportar-se à ausência de pessoas em determinado sítio, “not a soul” parece sugerir que essa ausência se deve ao facto de tais pessoas terem deixado de existir. É a isso que alude o duplo sentido do verbo “to weep over”: a chuva chora sobre aqueles salões (cai sobre os telhados), mas chora também transitivamente o sucedido (lastima o destino dessas pessoas). E o mesmo acerca do verbo “to hear”, que tanto pode referir-se ao facto de já não haver quem ouça a chuva a bater como pode referir-se ao facto de já não haver quem se faça ouvir.

Há uma última dificuldade de tradução. A palavra “coat”, que serve fundamentalmente para designar o traje que os distingue, preserva um valor heráldico. O poema surge em A Storm of Swords, o terceiro livro da saga A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin (que conta as guerras pelo trono dos Sete Reinos de Westeros entre diferentes famílias), e corresponde à letra de uma canção que celebra a queda da casa de Reynes, sediada em Castamere. A afronta de que os primeiros oito versos dão conta pretende retratar a insurreição dos Reynes contra os seus soberanos, os Lannister, e os leões em que os dois são metaforizados são os leões que figuram nos brasões (coat of arms) das duas casas: um leão de cor dourada, no caso dos Lannister, e um leão vermelho, no caso dos Reynes. É também essa insurreição, de resto, que justifica o extermínio dos Reynes, ao qual a metonímia dos salões desabitados então se reporta. Tal informação leva ainda a assinalar a homofonia da palavra “rains”. Ao aludir quer aos antigos senhores de Castamere, quer à chuva que agora se precipita chorosamente sobre os salões, o título põe então em destaque, desde logo, o contraste de que o poema se alimenta.

Nuno Amado


Nuno Amado é professor na Universidade Católica Portuguesa e escreveu uma tese sobre Ricardo Reis. Nunca aconselhou um poema a ninguém, mas admite abrir uma excepção quando descobrir um que possa ajudar as pessoas a serem mais felizes.