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Carta para A.

Poemas de agora

Carta para A.

Maria S. Mendes

 

carta para A.

 

viste que os dias não passavam

disto, e viste bem. desse lado

do céu, tens o melhor miradouro

sobre a madrugada. se encontrares

o pintainho que sepultámos,

em segredo e lágrimas, no

quintal das tias, pede-lhe o

arco da sua asa nas noites de lua nova.

remete-me, quando puderes,

pacotes de chuva miúda, gosto

de a ver decalcar a terra, fundir-se

com as sementes de milho

no canto da achadinha.

 

entretanto, vou montando o

telescópio, com as instruções

que me deste. põe-te à vista

e combinamos um gelado a

meio caminho,

à hora da infância.

 

Renata Correia Botelho, “Carta para A.”, Avulsos, por causa, 2001. Lisboa: Língua Morta, 2010.

Aqui publicado com autorização da autora. 

Gosto deste poema porque sim. Começar deste modo o texto tem duas vantagens: em primeiro lugar, a justificação remete para as respostas da infância, mesmo sabendo que porque sim não é resposta; em segundo, evita que diga na primeira frase que gosto deste poema porque me comove. Mas, sim, estas palavras ordenadas por Renata Correia Botelho e envoltas pelo título “Carta para A.” desordenam-me as emoções, confirmando na minha relação com o poema o poder mais fino e mais forte da poesia.

É o “pintainho” sepultado “em segredo e lágrimas”, é a “chuva miúda” nas "sementes", é o "gelado" ainda desejado "à hora da infância": o poema fala-me da promessa de vida e da certeza da morte, conciliando a recordação cúmplice do passado e a vontade inata de futuro. O “pintainho” sepultado ensina a morte na infância, a dor partilhada, assim como o “gelado” ensina o prazer, a alegria partilhada, e a "chuva miúda" nas sementes marca a renovação, o ciclo da dor e da alegria.

Aceita-se o prazer da alegria como se aceita a dor da morte – por ver que “os dias não passavam / disto” – pela relação com o ciclo natural da “noite” e da “madrugada”, da “lua nova”, pela ligação entre as “lágrimas” e a “chuva miúda”, entre o “céu” e a “terra” molhada. A “chuva miúda” funde-se com as “sementes de milho / no canto da achadinha” para dar fruto, e a infância tem essa promessa de fruto cuidado pelas afeições familiares, que são como a casa que está sempre por perto no “quintal das tias”.

Na infância, como no poema, estão o “segredo” e as “lágrimas”. A memória afetiva recupera o “segredo” e as “lágrimas” e conhece as “instruções” secretas para montar o “telescópio” – são as mesmas "instruções" secretas para montar o poema (“segredo”, “lágrimas”, palavras, emoções). Perante a distância, há uma tentativa de aproximação para escrever a carta a “meio caminho” e pôr “à vista” “A.” – alguém, anónimo. A memória afetiva é a memória telescópica que seleciona, de um universo de experiências passadas, a recordação-emoção que o poema vai ampliar. Nesta ampliação, encara-se a morte, o que está “desse lado / do céu”, mas a morte tem alguma coisa de familiar e é aqui habitada por A., pelo pintainho, pela chuva.

O poema foi publicado em Avulsos, por Causa (desde 2001, houve três edições) e chegou-me cantado pela voz de Maria Antónia Mendes, de A Naifa. O grupo musicou-o e incluiu-o no álbum Não se Deitam Comigo Corações Obedientes (2012). Como uma carta enviada sem destinatário conhecido, o poema circula no seu envelope com o título “Carta para A.”.

Teresa Jorge Ferreira


Teresa Jorge Ferreira é doutoranda em Estudos Portugueses – Estudos de Literatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, membro do IELT – Instituto de Estudos de Literatura e Tradição e bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Volta sempre à poesia porque gosta de atividades radicais.