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Songs of the unloved

Poemas de agora

Songs of the unloved

Maria S. Mendes

 

Songs of the unloved.

Songs of the thrown away.

Of those buried without a name.

Of immured into the night.

Songs of the crossed out from the lists.

Songs of those made to kneel on ice.

The song of the wanted no more,

It goes on, it does not stop.

 

We are trained quite well –

To light fires from burning snakes;

To rip our hearts out,

So we can become angrier still.

To keep heads under the water,

So nobody can take a breath;

And to break off the blade after the blow,

Because “the God is with us”.

 

Step on the glass

If it is empty now;

Put your head into the loop,

Take your stuff and get out.

Lord, please tell me

The Secrets of Being;

Look me in the eye

And say that it’s Your will.

 

We could keep waiting for the sun,

Looking at the zenith with blind eyes;

We used to have a crystal bell

inside us,

Somebody stepped on it, and it does not chime any more.

This music is older than the world itself;

It is awkward and laugh-worthy;

But I will dance to it,

Even if we cannot hear it.

 

For a gentle soul –

An iron dress.

The words in blood on the sand –

“All people are brothers”.

I don’t need your Secrets of Being

any more.

Just look me in the eye

And say that it’s your Will.

 

Boris Grebenshchikov, Песни нелюбимых [Songs of the unloved], 2016. Aqui publicado com a autorização do autor e da editora.

 

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Gosto desta canção porque acho que mostra a Rússia como ela é na realidade e, no entanto, dá-nos esperança do que a Rússia pode vir a ser. Foi composta pelo cantor russo Boris Grebenshikov e é interpretada pela sua banda, os Akvarium. Os Akvarium começaram a tocar nos idos da Rússia soviética, quando a URSS dava os primeiros passos de um longo caminho para o colapso inevitável. Como outros membros do Leningrad Rock Club, eram rebeldes que nunca se entregavam à complacência nem deixavam de colocar perguntas desconfortáveis. Passaram várias décadas e ainda é isso que fazem através da sua música.

“Canções dos não amados” chamou a minha atenção numa tarde agradável do Verão passado, quando estava sentada numa convidativa sala de estar em Moscovo e conversava com uma amiga. Na verdade, falávamos sobre a negríssima situação do país — a economia a caminhar para pior, a ausência de oposição na política, o despotismo dos que estão no poder e a falta de resistência activa por parte do povo. “O protesto morreu e nós estamos condenadas”, disse a minha amiga. “Vamos mas é ouvir o bom velho Boris e pôr esta loucura de lado por um momento.” Ligou o Mac e a canção começou.

Para mim pessoalmente, que estudei em detalhe os protestos russos de 2011 e 2012, as primeiras palavras da canção convocaram imediatamente recordações dos manifestantes com quem tinha falado; pessoas belas, pessoas fortes, obstinadas e compreensivas ao mesmo tempo, pessoas com resiliência e que acreditavam num futuro melhor para o seu país. A canção dava um eco absoluto ao que aqueles que marcharam pelas ruas em 2011 e 1012 me tinham contado em entrevistas. Eram eles os “não amados”, “os que foram atirados fora”, os que tantas vezes tinham sido humilhados pelas suas crenças e acções. Mas eram também eles os que não pararam de marchar, os que não baixaram os braços mesmo quando parecia que a sua canção estava a morrer. Aposto que muitos deles ficariam tremendamente emocionados quando ouvissem esta canção.

Isto deve-se em parte ao facto de “Canções dos não amados” diagnosticar tão bem a sociedade russa — a sociedade que sofre de um caso constante de perturbação de stress pós-traumático, como disse um dos entrevistados. A canção fala da inquietude e da raiva do seu povo — “Nós temos uma boa escola - De receber lume de cobras em chamas;/De arrancar o nosso coração fora, para tornarmo-nos ainda mais maldosos.” — e da atitude característica de “tudo ou nada” que nos obriga a “pisar o copo, se ele foi bebido”. A canção condensa a realidade brutal da Rússia de hoje, onde a bondade não é recompensada (“Alma carinhosa – Vestido de ferro.”), onde as pessoas continuam desamparadas à espera de um futuro melhor que nunca chega (“Pode esperar-se pelo sol muito tempo, olhando cegamente para o zénite”) e onde o inconformismo é esmagado facilmente, como uma pesada bota militar que ao pisar um sininho lhe sufoca o repique. O protagonista da canção pede incessantemente ao Senhor que lhe responda, imitando o comportamento de muitos russos que ainda se viram para aqueles no poder à espera de obter respostas.

Desta forma, lembra-me a sociedade que recordo apenas através de histórias e livros — o estado soviético. Um país que também se escondia atrás de slogans gloriosos de igualdade, unidade e rectidão (fossem eles “Deus está connosco” ou “todos os povos são irmãos”) e, no entanto, cometia actos inomináveis ao seu povo. Neste país, os não amados eram efectivamente riscados das listas e enterrados sem nome. Neste país, de certo modo toda a gente era mantida debaixo de água, cada um no seu lindo aquariozinho e com escassas possibilidades de respirar com os pulmões plenamente cheios. É irónico, mas também estranhamente adequado, que, exactamente 100 anos depois da Revolução de Outubro, a Rússia se esteja a outra vez a assemelhar perigosamente a esse tipo de ditadura.

Mas a letra também sugere o enorme potencial de benevolência e bondade do povo russo, esse “sino de cristal” dentro de cada um que continua a soar, um sino que não pára mesmo depois de ser esmagado. Este sino dá esperança e mantém viva a vontade de continuar a dançar ao som da melodia aparentemente “ridícula e risível” da ética, da compaixão e da verdade. É significativo que, no final da canção, o protagonista se recuse a ouvir o Senhor e (digo eu) compreenda que não precisamos de alguém que nos diga o que fazer, e que o que fazemos não tem de obedecer à vontade de ninguém.

O estado soviético constituía a realidade do meu país ainda há escassas décadas, mas temo que dentro em breve se possa tornar na realidade da Rússia actual. No entanto, algures neste medo subsiste também uma grande esperança, a esperança que continuemos a dançar ao som da melodia das verdades, da bondade e da compaixão, mesmo se tantas vezes esta melodia pareça ter desaparecido. Porque é esta a única maneira que temos de escapar à realidade sombria que nos vem cativar numa agradável tarde de Verão.

Yulia Lukyanova


Yulia Lukyanova é uma psicóloga social fascinada por protestos. É russa, mas vive em Edimburgo, na Escócia, há algum tempo. Terminou a sua tese de doutoramento, intitulada "Manufacturing dissent in Russia: A discursive psychological analysis of protesters’ talk" na Universidade de Edinburgo, em 2016. Hoje em dia, é professora de sociologia e investiga o movimento de diáspora, da Rússia para o Reino Unido, e os movimentos sociais na Rússia. 

Tradução João Brandão, que estudou Cinema mas se licenciou em Estudos Ingleses e Portugueses. Trabalha como tradutor.