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Poemas de agora

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Maria S. Mendes

 

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No princípio era o ar.

Ricardo Tiago Moura, ":departures:", Airspace / Espaço Aéreo. London: Carnaval Press, 2017.

Aqui publicado com a autorização do autor e da editora. 

 

Uma das principais razões para eu gostar tanto deste poema de Ricardo Tiago Moura (com que começa o pequeno livro Espaço Aéreo, editado inicialmente no Brasil em 2014 e depois em 2017 em Londres, pela Carnaval Press, numa versão bilingue: inglês e português) é a sensação nítida de que vai ser muito difícil explicar em poucas palavras por que é que gosto tanto dele. E, ao mesmo tempo, porque é um poema que, sendo tão extremamente curto — seis palavras e três sinais de pontuação, no total, incluindo o título —, faz tudo menos impor a sua brevidade como uma lei, um programa, um ideal ou modelo de fala; pelo contrário, essa operação de abreviatura é como entreabrir uma porta que dá acesso a um espaço que parece infinito, onde cada um fica com a liberdade de falar o tempo que quiser e do jeito que entender, sem limites de espécie nenhuma e sem excluir nem depreciar a opção pelo silêncio.

Dizer que este poema prefere dizer pouco é, portanto, dizer muito pouco. O que “:departures:”, de facto, prefere é dizer quase nada. Um título que é uma vulgar tabuleta de aeroporto desviada para o espaço da poesia e uma frase que é uma variação mínima sobre a primeira asserção do versículo inicial do Evangelho de João (“No princípio era o verbo, […]”). Dois cortes, por assim dizer, bastam a Ricardo Tiago Moura para montar um poema. Entre o título e a frase, um intervalo branco bem menor que o restante espaço em branco que fica por debaixo da meia linha isolada que é a única “estrofe” do poema. Essa abundância de branco traz à evidência que não se trata aqui de contenção ou de austera poupança de meios: trata-se, antes, de luxo, o luxo supremamente irónico de recorrer à quantidade de vazio que a poesia achar que lhe é mais conveniente.

Esse luxo, como em toda a grande poesia, é uma afirmação de liberdade. Igual a outras que me fazem gostar tanto deste poema: a de usar mais que uma língua; a de manter ligação com a circunstância biográfica [“Airspace (Espaço Aéreo) is a collection of poems written in airports by the Portuguese poet Ricardo Tiago Moura”, regista a página on-line da Carnaval Press]; a de recorrer à pontuação segundo regras não convencionais (dois pontos antes e depois da palavra-título, à maneira das aspas, mas com um efeito totalmente diferente); a de corrigir um dos textos fundadores da cultura do Ocidente, sem lhe reproduzir a arrogância metafísica e logocêntrica. Acima de tudo, esta liberdade impressionante — para mim, que não sou poeta — de nunca admitir que já tudo foi escrito sem acrescentar, de imediato, que continua tudo por dizer, sobretudo o mais elementar, o mais simples, o mais óbvio.

Esse regresso ao princípio, agora do ponto de vista da aviação, abre um ponto de partida para destinos imprevisíveis. Com ele, acaba a época dos poetas viciados no cansaço da própria poesia.

Gustavo Rubim


Gustavo Rubim aprecia poetas opiómanos, infelizmente raros. Tornou-se professor de literatura (na Nova) por ser um leitor compulsivo, embora lento. É ainda mais lento a escrever e muito raramente os seus ensaios ultrapassam as quinze páginas. Fotografa íbis, rabirruivos, etc.