Contact Us

Use the form on the right to contact us.

You can edit the text in this area, and change where the contact form on the right submits to, by entering edit mode using the modes on the bottom right. 

           

123 Street Avenue, City Town, 99999

(123) 555-6789

email@address.com

 

You can set your address, phone number, email and site description in the settings tab.
Link to read me page with more information.

5.  vejo / a pequena suja

Poemas de agora

5. vejo / a pequena suja

Maria S. Mendes

 

5.

vejo
a pequena suja
a brincar na rua
com os cagalhões dos cães

não digo que seja sublime mas
como tudo
não deixa de ser interessante

alguns
parecem as
galáxias
mais longínquas
ou os berços
de estrelas
Barnard 68
tudo claro
mérito dela
e das suas mãos

gostava também
de ir brincar com ela

mas
quem sou eu para isso
já nenhum poeta o faz
só uma ou outra das 4.370
inspecções-gerais da vida corrente

já nenhum poeta o faz
nem os maiores
nem os simplesmente grandes
e menos ainda os pequenos

já nenhum poeta o faz


Alberto Pimenta, "5.", De nadaBoca, Lisboa, 2012.

Gosto deste poema porque é um poema de Alberto Pimenta. Acredito que Alberto Pimenta é um dos maiores poetas vivos, incluindo neste conjunto aqueles que estão mortos-apesar-de-estarem-vivos e os que estão vivos-apesar-de-estarem-mortos. A poesia consegue estar sempre viva e sempre morta, em simultâneo. É um dos seus paradoxos. Por esta razão, um bom poeta vivo tem de estar sempre um bocadinho morto e na companhia dos que estão vivos-apesar-de-estarem-mortos. Aplica-se o mesmíssimo princípio a um bom poeta morto, garantindo assim a igualdade de oportunidades no acesso à lista canónica.

Este poema começa com uma imagem que, fazendo ressoar um eco da galáxia pessoana (aqui despojado de chocolates e de metafísica), acentua um certo tom de anacronismo. É que hoje, nestes dias higienizados e uniformizados, seremos facilmente levados a afirmar que não existem já pequenas sujas. Ou, para ser correto, quase não existem. Aparecem, de vez em quando, por exotismo ou como apêndices visuais de catástrofes humanitárias. De resto, à nossa volta, todas as meninas são limpas e lindas, sobretudo quando estão a adquirir fé na catequese ou a vender produtos na televisão.

Esta particular menina suja brinca na rua (como se fosse na cama, talvez) com os "cagalhões dos cães". Os “cagalhões”, tal como outros dejetos mais ou menos meritórios, andam ausentes do discurso poético, razão pela qual devemos celebrar a sua aparição neste poema, ainda que alguém possa querer entendê-los como metáfora. As metáforas não têm cheiro e não consta que sequem ao sol, o que as torna bastante mais higiénicas e perenes do que os “cagalhões” (apesar de também morrerem, como garante metaforicamente um ilustre filósofo). Por outro lado, os “cagalhões” são muito mais antigos do que as metáforas, o que lhes confere um prestígio ancestral, tornando-os merecedores do mesmo tipo de respeitinho – coisa sempre muito bonita - que prestamos a antepassados e a museus de arte antiga. Para reforçar a dignidade dos “cagalhões”, convém ainda lembrar que eles são, neste poema, um elemento constitutivo de uma poderosa imagem poética.

Esta imagem da menina que, pelo mérito das suas mãos, reconfigura o caos torna-se mote de um lamento elegíaco por um tempo mítico em que poetas e meninas sujas brincavam com coisas que se encontram no chão, ainda que essas coisas não se enquadrem na categoria do “sublime” e sejam meramente “interessantes” ("como tudo", aliás). Aqui conflui uma longa tradição que poderá ter iniciado a sua via (sacra) de extinção, apesar dos continuados esforços de alguns poetas, entre os quais se destaca Alberto Pimenta. Não se trata apenas de uma consequência do declínio da poesia satírica, que irrompe necessariamente da vida comum e do real concreto e observável, mas de uma deslocação mais profunda do foco e do(s) assunto(s) poéticos. Sobre isso, está tudo dito, ainda que mais houvesse a dizer.  

O poema nasce do olhar: “vejo”. E é pelo olhar que interpela o leitor, como se quisesse relembrar uma dimensão estranhamente perdida. “Já nenhum poeta o faz”, diz ele. Não mais, treslemos nós, não mais. Mas se a melancolia da aparente desistência nos levar a temer pela extinção iminente desta poesia que olha para o lixo e para a rua, que se ocupa dos seres que respiram e que cospem, viremos as páginas do livro e logo constataremos que ainda não foi desta.

Rui Lopes


Rui Lopes é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa) e Mestre em Teoria da Literatura (Fac. Letras da Universidade de Lisboa). Tem desenvolvido a sua atividade profissional como professor e tradutor. Em 2017, publicou o livro Aqui há gato!, com Renata Bueno, pela Orfeu Mini. Quando não está a fazer alguma das coisas já mencionadas, geralmente dedica-se às artes performativas, eliminando assim qualquer vestígio de tempo livre.