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Inéditos

Vários, Sara & André

Sara Carvalho

Sara & André são artistas plásticos e nasceram em 1980 e 1979, em Lisboa, onde vivem e trabalham. Estudaram, respetivamente, Realização Plástica do Espetáculo na Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa, 1999-2005) e Artes Plásticas na Escola Superior de Arte e Design (Caldas da Rainha 1999-2005). Expõem regularmente desde 2006.

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POLÍTICA (um projecto)

Maria S. Mendes

POLÍTICA (um projecto)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nenhuma colagem

à esquerdaàdireita

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

fazer de mulher

ser de ninguém

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o século passado

é demasiado novo

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um primeiro-ministro

depois da meia-noite

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

todos os dias há

acasos novos

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

comover climas

comprar tempo

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

pesagem é tudo

o resto é paisagem

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

página a página

escrever branco

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o amor a um torso

não tem solução

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

pequena política

dizer não dizer

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um dó sustentado

emoção ne varietur

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o som dos votos

a caixa das esmolas

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

triste cidade

sem reforma

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

cai o pano

e o salário

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

de quem serão

as horas dos outros?

 

 

Ricardo Tiago Moura

 


Ricardo Tiago Moura nasceu em Coimbra, Junho de 1978. Publicou os livros Um gato para dois (Hariemuj, 2013), Epístolas a D. (não edições, 2013), 1 gato para 2 (não edições, 2015) e pequena indústria (Tea for One, 2016). Publicou também o livro-objecto Controlo de qualidade (ed. de autor, 2017). O seu livro Espaço aéreo (Arqueria, 2014) foi publicado no Brasil, mais tarde traduzido para Espanhol e Inglês e publicado no Peru (Amotape Libros, 2015) e Reino Unido (Carnaval Press, 2017). Tem publicado dispersamente poemas em revistas e antologias. Dedica-se também à colagem. Vive em Køge, Dinamarca. 




Sextina

Maria S. Mendes

 

                                                                              “A sextina é, redonda e inquestionavelmente, inadmissível”

 

                                                                          António Feliciano de Castilho,Tratado de Metrificação Portuguesa.

 

Sextina

 

Enquanto prossegue a vida

vai-se remoendo a morte;

parece estar feito o mundo

para só mostrar um verso;

ora dia, ora noite,

de dois, um só fica claro;

 

e mesmo o dia mais claro

esconde os segredos da vida;

a lua aparece à noite

branca, em vestidos de morte,

como alma doutro mundo,

coisa lembrada num verso.

 

Mas não caberá em verso

um só pensamento claro

sobre a escuridão do mundo;

a vida pede mais vida

além do cair da noite,

não se contenta de morte.

 

Assim, adoça-se a morte

repetindo-a no verso

que é curto e cai como a noite

escura, sobre o fundo claro

do papel, da luz, da vida,

para atravessar o mundo.

 

E enquanto dura este mundo

e a dureza da morte

for mais pesada que a vida,

e as separações do verso

disserem do amor claro,

qualquer dia será noite. 

 

Pois aqueles brilhos da noite

que vêm do fim do mundo

abrem um abismo claro

entre a tristeza da morte

e a doçura do verso 

que queria amar a vida.

 

Mas sejam a vida e a morte

o mundo cortado em verso

de quem passa a noite em claro. 

 

 

João-Paulo Esteves da Silva


 

João Paulo Esteves da Silva (músico, tradutor, poeta). A relação da vida com a poesia divide-se, de facto, em quatro fases. Dos quatro aos 10 anos, fazia versos para diversão da família e visitas, sentindo nestas exibições uma vergonha só comparável à exibição pública forçada das partes genitais. Dos dez aos vinte, descobriu as estratégias e os engenhos que lhe permitiam esconder-se atrás da linguagem e escrever textos surrealistas ou "nonsensicos" onde ninguém o poderia apanhar despido e de emoções à vista. Dos vinte aos trinta entrou num buraco negro à procura da música perdida, pelo que não escreveu uma única linha. Dos trinta em diante, após ter encontrado uma passagem entre a música e a linguagem, vem escrevendo poesia de forma obsessiva, com cada vez menos vergonha, tentando equilibrar o engenho e a nudez emotiva. 

Bule, Adília Lopes

Maria S. Mendes

 

 

 

 

 

Bule

 

Adília Lopes

 

 




 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

“Nenhuma folha bole”

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Estações do ano”













 

Em criança, detestava ir à escola e ir ao dentista. Invejava a minha avó porque não tinha dentes e não ia à escola. Eu achava divertido usar placa postiça. 

 

20-XII-2017

 





 


Em criança, a minha mãe deu-me um livrinho de zoologia cheio de imagens coloridas muito apetitosas. É Zoology, Golden Science Guide, publicado em Nova York em 1962. AS imagens da página 100, tinha de ser a página 100, eram as mais apetitosas. Uma é a imagem dos dois perfis em que também se pode ver uma jarra. A outra era a mais apetitosa mas vejo hoje que é sexista. É o reflexo condicionado. No chão, um rapazinho vestido de azul brinca divertido com uma cobra. Em pé, em cima de um banco de jardim, histérica, apavorada, uma menina de vestido cor-de-rosa já sabe que as cobras podem ser perigosas. Tinha de ser: a menina assusta-se, não se diverte; o menino diverte-se, nenhum mal lhe acontece. 

 

20-XII-2017

 






 

Pipi das Meias Altas

 

 

Estava a almoçar num restaurante em Lisboa e entrou uma dúzia de nórdicos. A empregada que os foi atender disse mais tarde a um colega: “São da terra da Pipi das Meias Altas, não se percebe nada do que dizem”. Achei graça a isto e lembrei-me da Pipi das Meias Altas. Foi um ídolo da minha infância. Fui ao aeroporto esperá-la. Fomos de táxi, a minha avó, uma vizinha da minha idade e eu. No aeroporto, ouvi uma menina dizer: “o meu sonho era andar de avião...” Não vi a Pipi. O meu pai levou-me ao Jardim Zoológico porque a Pipi ia lá. Aí vi a Pipi. Ainda hoje me lembro do ar dela, acho que ia contrariada. Depois vi uma fotografia dela numa revista, talvez na Flama. Estava numa piscina no Estoril. A Pipi já tinha maminhas. Era afinal uma rapariga como as outras, não era o ser fantástico da televisão. Isto fez-me muita confusão, desgostou-me. Nunca mais acreditei em actrizes. Actrizes são pessoas. 

 

26-V-2018

 







 

No Vale Abraão de Agustina, não me interessa a Bovarinha nem as considerações sentimentais. Gosto da página sobre chinelos de quarto de Inverno. 

 

8-XII-2017








 

A tradição oral

 

Uma alentejana de Brinches, de uma vez que eu estava com soluços, disse-me para eu beber um gole de água e, sem respirar, dizer em voz alta Jesu. Disse para eu repetir esta operação três vezes seguidas. Os soluços passaram. É uma boa receita para os soluços. 

 

23-XII-2017











 

Praia

 


Na praia do Estoril, nos anos 60, havia a mulher dos bolos. Era uma mulher vestida de branco que andava com uma caixa grande de madeira ou de lata, já não sei, a vender bolos pela praia. Eu achava a caixa mágica porque tinha prateleiras e bolos nas prateleiras. Não comia bolas de Berlim, as crianças costumavam gostar de bolas de Berlim, mas eu não me dava com crianças, dava-me com velhas, comia barquilhos com doce de ovos. Também havia nozes, bolinhos de ovo com açúcar em caramelo e uma noz dentro. Eu não gostava de nozes, isto é, do fruto seco, gostava do doce de ovos com o açúcar em caramelo. Penso hoje nas mulheres dos bolos. Como devia ser penoso andar assim com a lata dos bolos à torreira do Sol a pisar a areia a escaldar e a aturar fregueses antipáticos. 

 

27-V-2018

 










 

A minha mãe

 

A minha mãe não sabia cozinhar. Nunca cozinhou. A minha avó materna também não sabia cozinhar e também nunca cozinhou. Isto foi complicado para mim. Gosto de me lembrar das torradas que a minha mãe me fazia ao Domingo no fogão. Eram de pão espanhol, também chamado roscas, um pão que havia nas padarias de Lisboa nos anos 60. Muito fininhas e com muito pouca manteiga, completamente derretida. Não gosto de manteiga. As torradinhas era a única coisa de cozinha que a minha mãe fazia. 

 

27-V-2018

 











Bichos

 

Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna. 

 

31-XII-2017

 












 

A minha gata Lu, quando tinha um pano perto da tigela da comida, puxava o pano com as patas e tapava a tigela. Fazia o mesmo ao meu prato quando eu acabava de comer. 

 

31-XII-2017

 

 












Vários, Longley

Nuno Amado

WILD ORCHIDS

 

In my synapses early purples persevering

As in a muddy tractor track across the duach;

Close to the old well and the skylarks’ nest, briefly

Marsh helleborines surviving the cattle’s hooves,

Then re-emerging at the waterlily lake

Between the drystone wall and otter corridors;

A stone’s throw from the Carrigskeewaun cottage

Two introverted frog orchids; in the distance

A hummock covered with autumn lady’s tresses,

Ivory spirals that vanish for a decade;

On the higher bank of the Owenadornaun

Above the sandmartins’ nesting holes, butterfly

Orchids like ballerinas; at Kilnaboy

Bee orchids under the sheela-na-gig’s display;

Dowdy neotinea maculata at my feet

Where the turlough below Mullaghmore disappears

Underground; against limestone grey at Black Head

Red helleborines igniting; the lesser twayblade

With its flower spike like a darning needle, tiny

And hidden away beneath a heather stand;

On the Tyrrells’ Kildalkey farm, pink pyramids;

 

Along the path to the waterfall at Cardoso,

Near Elvira’s overgrown olive grove, tongue

Orchids folded like napkins; lizard orchids

In the Mugello, shaggy, thigh-high; on Paros

Bee orchids (again) beside the marble pavement,

A blackcap singing (in Greece or Ireland?); just one

Bedraggled fly orchid in a forgotten field,

Its petals cobalt, chestnut-brown, as I recall.

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Vários, Mochila

Maria S. Mendes

Às vezes acordamos felizes, a luz borbulha, escorre

um novelo de cabelos sobre os nossos joelhos e bocas

 

Sobre as grandes flores fulvas do linho, desbotadas

a manhã desaba

uma canção alaranjada

 

Um trilho desce

pelas pregas dos lençóis nas tuas nádegas

e eu fico a pensar na forma sonolenta

desses pequenos budas divertidos na penumbra

sorrindo com o picotado de um arrepio

na tua pele (…)

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Formigas / ou / A morte explicada às criancinhas

Maria S. Mendes

Formigas

ou

A morte explicada às criancinhas

 

            1

 

Vê-se primeiro uma só formiga.

 

Parece perdida, enleada nas ervas,

movendo-se indecisa atrás e adiante,

sem saber muito bem que direcção tomar.

 

Lembra um turista que não sabe

em que país se encontra

nem entende a língua que ali se fala,

e procura orientar-se consultando um guia hostil

num lugar hostil.

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Caddy

Maria S. Mendes

Caddy

 

Pensei imaginar-te outra vez nua entre

coisas brancas panos nuvens ovelhas e

camarinhas frutos pequeninos que os teus

dentes brancos ligeiramente inclinados

para a frente para um beijo para mim

trincam e tu tapas a boca com a mão

e cospes caroços desenhas nos lábios

um sorriso de vestal apanhada pelo sol

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