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Inéditos

POLÍTICA (um projecto)

Maria S. Mendes

POLÍTICA (um projecto)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nenhuma colagem

à esquerdaàdireita

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

fazer de mulher

ser de ninguém

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o século passado

é demasiado novo

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um primeiro-ministro

depois da meia-noite

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

todos os dias há

acasos novos

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

comover climas

comprar tempo

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

pesagem é tudo

o resto é paisagem

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

página a página

escrever branco

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o amor a um torso

não tem solução

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

pequena política

dizer não dizer

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

um dó sustentado

emoção ne varietur

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

o som dos votos

a caixa das esmolas

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

triste cidade

sem reforma

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

cai o pano

e o salário

 

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

de quem serão

as horas dos outros?

 

 

Ricardo Tiago Moura

 


Ricardo Tiago Moura nasceu em Coimbra, Junho de 1978. Publicou os livros Um gato para dois (Hariemuj, 2013), Epístolas a D. (não edições, 2013), 1 gato para 2 (não edições, 2015) e pequena indústria (Tea for One, 2016). Publicou também o livro-objecto Controlo de qualidade (ed. de autor, 2017). O seu livro Espaço aéreo (Arqueria, 2014) foi publicado no Brasil, mais tarde traduzido para Espanhol e Inglês e publicado no Peru (Amotape Libros, 2015) e Reino Unido (Carnaval Press, 2017). Tem publicado dispersamente poemas em revistas e antologias. Dedica-se também à colagem. Vive em Køge, Dinamarca. 




Sextina

Maria S. Mendes

 

                                                                              “A sextina é, redonda e inquestionavelmente, inadmissível”

 

                                                                          António Feliciano de Castilho,Tratado de Metrificação Portuguesa.

 

Sextina

 

Enquanto prossegue a vida

vai-se remoendo a morte;

parece estar feito o mundo

para só mostrar um verso;

ora dia, ora noite,

de dois, um só fica claro;

 

e mesmo o dia mais claro

esconde os segredos da vida;

a lua aparece à noite

branca, em vestidos de morte,

como alma doutro mundo,

coisa lembrada num verso.

 

Mas não caberá em verso

um só pensamento claro

sobre a escuridão do mundo;

a vida pede mais vida

além do cair da noite,

não se contenta de morte.

 

Assim, adoça-se a morte

repetindo-a no verso

que é curto e cai como a noite

escura, sobre o fundo claro

do papel, da luz, da vida,

para atravessar o mundo.

 

E enquanto dura este mundo

e a dureza da morte

for mais pesada que a vida,

e as separações do verso

disserem do amor claro,

qualquer dia será noite. 

 

Pois aqueles brilhos da noite

que vêm do fim do mundo

abrem um abismo claro

entre a tristeza da morte

e a doçura do verso 

que queria amar a vida.

 

Mas sejam a vida e a morte

o mundo cortado em verso

de quem passa a noite em claro. 

 

 

João-Paulo Esteves da Silva


 

João Paulo Esteves da Silva (músico, tradutor, poeta). A relação da vida com a poesia divide-se, de facto, em quatro fases. Dos quatro aos 10 anos, fazia versos para diversão da família e visitas, sentindo nestas exibições uma vergonha só comparável à exibição pública forçada das partes genitais. Dos dez aos vinte, descobriu as estratégias e os engenhos que lhe permitiam esconder-se atrás da linguagem e escrever textos surrealistas ou "nonsensicos" onde ninguém o poderia apanhar despido e de emoções à vista. Dos vinte aos trinta entrou num buraco negro à procura da música perdida, pelo que não escreveu uma única linha. Dos trinta em diante, após ter encontrado uma passagem entre a música e a linguagem, vem escrevendo poesia de forma obsessiva, com cada vez menos vergonha, tentando equilibrar o engenho e a nudez emotiva. 

Bule, Adília Lopes

Maria S. Mendes

 

 

 

 

 

Bule

 

Adília Lopes

 

 




 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

“Nenhuma folha bole”

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Estações do ano”













 

Em criança, detestava ir à escola e ir ao dentista. Invejava a minha avó porque não tinha dentes e não ia à escola. Eu achava divertido usar placa postiça. 

 

20-XII-2017

 





 


Em criança, a minha mãe deu-me um livrinho de zoologia cheio de imagens coloridas muito apetitosas. É Zoology, Golden Science Guide, publicado em Nova York em 1962. AS imagens da página 100, tinha de ser a página 100, eram as mais apetitosas. Uma é a imagem dos dois perfis em que também se pode ver uma jarra. A outra era a mais apetitosa mas vejo hoje que é sexista. É o reflexo condicionado. No chão, um rapazinho vestido de azul brinca divertido com uma cobra. Em pé, em cima de um banco de jardim, histérica, apavorada, uma menina de vestido cor-de-rosa já sabe que as cobras podem ser perigosas. Tinha de ser: a menina assusta-se, não se diverte; o menino diverte-se, nenhum mal lhe acontece. 

 

20-XII-2017

 






 

Pipi das Meias Altas

 

 

Estava a almoçar num restaurante em Lisboa e entrou uma dúzia de nórdicos. A empregada que os foi atender disse mais tarde a um colega: “São da terra da Pipi das Meias Altas, não se percebe nada do que dizem”. Achei graça a isto e lembrei-me da Pipi das Meias Altas. Foi um ídolo da minha infância. Fui ao aeroporto esperá-la. Fomos de táxi, a minha avó, uma vizinha da minha idade e eu. No aeroporto, ouvi uma menina dizer: “o meu sonho era andar de avião...” Não vi a Pipi. O meu pai levou-me ao Jardim Zoológico porque a Pipi ia lá. Aí vi a Pipi. Ainda hoje me lembro do ar dela, acho que ia contrariada. Depois vi uma fotografia dela numa revista, talvez na Flama. Estava numa piscina no Estoril. A Pipi já tinha maminhas. Era afinal uma rapariga como as outras, não era o ser fantástico da televisão. Isto fez-me muita confusão, desgostou-me. Nunca mais acreditei em actrizes. Actrizes são pessoas. 

 

26-V-2018

 







 

No Vale Abraão de Agustina, não me interessa a Bovarinha nem as considerações sentimentais. Gosto da página sobre chinelos de quarto de Inverno. 

 

8-XII-2017








 

A tradição oral

 

Uma alentejana de Brinches, de uma vez que eu estava com soluços, disse-me para eu beber um gole de água e, sem respirar, dizer em voz alta Jesu. Disse para eu repetir esta operação três vezes seguidas. Os soluços passaram. É uma boa receita para os soluços. 

 

23-XII-2017











 

Praia

 


Na praia do Estoril, nos anos 60, havia a mulher dos bolos. Era uma mulher vestida de branco que andava com uma caixa grande de madeira ou de lata, já não sei, a vender bolos pela praia. Eu achava a caixa mágica porque tinha prateleiras e bolos nas prateleiras. Não comia bolas de Berlim, as crianças costumavam gostar de bolas de Berlim, mas eu não me dava com crianças, dava-me com velhas, comia barquilhos com doce de ovos. Também havia nozes, bolinhos de ovo com açúcar em caramelo e uma noz dentro. Eu não gostava de nozes, isto é, do fruto seco, gostava do doce de ovos com o açúcar em caramelo. Penso hoje nas mulheres dos bolos. Como devia ser penoso andar assim com a lata dos bolos à torreira do Sol a pisar a areia a escaldar e a aturar fregueses antipáticos. 

 

27-V-2018

 










 

A minha mãe

 

A minha mãe não sabia cozinhar. Nunca cozinhou. A minha avó materna também não sabia cozinhar e também nunca cozinhou. Isto foi complicado para mim. Gosto de me lembrar das torradas que a minha mãe me fazia ao Domingo no fogão. Eram de pão espanhol, também chamado roscas, um pão que havia nas padarias de Lisboa nos anos 60. Muito fininhas e com muito pouca manteiga, completamente derretida. Não gosto de manteiga. As torradinhas era a única coisa de cozinha que a minha mãe fazia. 

 

27-V-2018

 











Bichos

 

Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna. 

 

31-XII-2017

 












 

A minha gata Lu, quando tinha um pano perto da tigela da comida, puxava o pano com as patas e tapava a tigela. Fazia o mesmo ao meu prato quando eu acabava de comer. 

 

31-XII-2017

 

 












Vários, Longley

Nuno Amado

WILD ORCHIDS

 

In my synapses early purples persevering

As in a muddy tractor track across the duach;

Close to the old well and the skylarks’ nest, briefly

Marsh helleborines surviving the cattle’s hooves,

Then re-emerging at the waterlily lake

Between the drystone wall and otter corridors;

A stone’s throw from the Carrigskeewaun cottage

Two introverted frog orchids; in the distance

A hummock covered with autumn lady’s tresses,

Ivory spirals that vanish for a decade;

On the higher bank of the Owenadornaun

Above the sandmartins’ nesting holes, butterfly

Orchids like ballerinas; at Kilnaboy

Bee orchids under the sheela-na-gig’s display;

Dowdy neotinea maculata at my feet

Where the turlough below Mullaghmore disappears

Underground; against limestone grey at Black Head

Red helleborines igniting; the lesser twayblade

With its flower spike like a darning needle, tiny

And hidden away beneath a heather stand;

On the Tyrrells’ Kildalkey farm, pink pyramids;

 

Along the path to the waterfall at Cardoso,

Near Elvira’s overgrown olive grove, tongue

Orchids folded like napkins; lizard orchids

In the Mugello, shaggy, thigh-high; on Paros

Bee orchids (again) beside the marble pavement,

A blackcap singing (in Greece or Ireland?); just one

Bedraggled fly orchid in a forgotten field,

Its petals cobalt, chestnut-brown, as I recall.

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Vários, Mochila

Maria S. Mendes

Às vezes acordamos felizes, a luz borbulha, escorre

um novelo de cabelos sobre os nossos joelhos e bocas

 

Sobre as grandes flores fulvas do linho, desbotadas

a manhã desaba

uma canção alaranjada

 

Um trilho desce

pelas pregas dos lençóis nas tuas nádegas

e eu fico a pensar na forma sonolenta

desses pequenos budas divertidos na penumbra

sorrindo com o picotado de um arrepio

na tua pele (…)

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Formigas / ou / A morte explicada às criancinhas

Maria S. Mendes

Formigas

ou

A morte explicada às criancinhas

 

            1

 

Vê-se primeiro uma só formiga.

 

Parece perdida, enleada nas ervas,

movendo-se indecisa atrás e adiante,

sem saber muito bem que direcção tomar.

 

Lembra um turista que não sabe

em que país se encontra

nem entende a língua que ali se fala,

e procura orientar-se consultando um guia hostil

num lugar hostil.

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Caddy

Maria S. Mendes

Caddy

 

Pensei imaginar-te outra vez nua entre

coisas brancas panos nuvens ovelhas e

camarinhas frutos pequeninos que os teus

dentes brancos ligeiramente inclinados

para a frente para um beijo para mim

trincam e tu tapas a boca com a mão

e cospes caroços desenhas nos lábios

um sorriso de vestal apanhada pelo sol

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Sofrósina

Maria S. Mendes

 

Sofrósina

 

Olha: conseguimos!

Entre minérios vulgares

e berilo jadeite musgravite

diria estarmos perante um perfeito nove.

Uma moldura ficaria bem aqui

nesta relação finalmente estabilizada.

 

O caranguejo diagonou como um bispo

enquanto testava a minha força

numa máquina Gottlieb

e pagava outra rodada

à rapaziada sedenta

e a gasosa corria de grandes desfiladeiros

caindo entre anéis de profundos dedos

sob soturnos olhares

despedaçados sobre as pedras

como algas cadentes

quando a benitoíte se inflama sob a luz negra

e o estroboscópio obtura a pista

pelo último recluso.

 

Depois o cabedal da noite

como canga sobre a ganga

quando o seu braço encontraria o seu cachaço

e os dois rumavam à eternidade

num silêncio de olheiras

ainda zoando a cromados

e a pontes encavalitadas sobre 

baixos rios.

 

E depois ainda o grande mundo:

raios de cobalto no capote da noite

quando Trastevere era uma boémia

ou Aldous um nome para Oxford

não fosse o tempo chegado

e tivéssemos de arranjar uma solução

em cima dos joelhos

para a torção de sobriedade,

para o dealbar da ordem de serviço

quando estudantes passavam a técnicos

e baladas a despertadores.

 

Aqui agora nesta intenção de tempo

entre a beleza do ponto sem retorno

e a lúrida manhã

estalamos gengivas,

acordamos a espantada

húbris: os gregos saberão usá-la

com moderação. 

 

Daniel Jonas


Daniel Jonas nasceu no Porto, em 1973. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e é mestre em Teoria da Literatura (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Publicou os livros de poesia  Os Fantasmas Inquilinos (2005), Sonótono (2007), Passageiro Frequente (2013), Nó (2014, Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes), Bisonte (2016) e Oblívio (2017), e também a peça de teatro Nenhures (2008). Recebeu o Prémio Europa - David Mourão-Ferreira pelo conjunto da sua obra. Escreveu EstocolmoReféns e o libreto Still Frank, todos encenados pelo Teatro Bruto. Traduziu, entre outros, Shakespeare, Waugh, Pirandello, Berryman, Dickens, Huysmans e Wordsworth, e também o Paraíso Perdido, de Milton. Ler aqui.

Esta mulher dormindo

Maria S. Mendes

 

Esta mulher dormindo

 

Mais um dia que se ajoelhou de faca na boca.

Esta mulher em máximo equilíbrio, sorrindo como uma estátua.

Esta mulher feita de carne e sono, embrulhando os filhos por estrear

Falhou em tudo e ri-se, de carvão a cercar o estômago

As narinas muito abertas à procura do ar.

As pernas tranquilas para o outro lado do corpo

Uma dor de furar cidades numa cara adolescente, estreita,

entre dois olhos

 

É mesmo ela, sem dúvida,

esta mulher de diversão para qualquer dia

um gesto desajeitado para qualquer ombro

o maior esquecimento da família, até aos domingos

E volta a cara para outro lado, de preferência à procura da luz

 

Mulher nua, no quarto, desistindo da sua lírica,

Olhando o tecto

Mulher encolhida na própria sina, encontro fatal

 

Os olhos comem

O corpo alcança

A mulher ergue-se no túmulo de outra vida

Desaprendendo de ser gente

 

Mulher de bater à porta em dias invisíveis

Calada, encostada à condição do seu lixo

Remexendo nele com línguas nos seios

 

Não lhe resta nenhuma casa, declarou a guerra perdida

Mas há-de vir uma desculpa que lhe baste para o nojo de estar

desperta

e o cheiro contínuo a orfandade

 

Mulher toda, cavalo elegante, praia

a vida é pouco mais que a humidade daquele quarto,

morte lenta por silêncio,

e um resto de nada

um resto de nada

 

Cláudia R. Sampaio

 

Cláudia R. Sampaio é poetisa, mas não só.  Em 2014 publicou o seu primeiro livro de poesia, Os Dias da Corja (Do Lado Esquerdo), seguindo-se A Primeira Urina da Manhã (Douda Correria), Ver no Escuro (Tinta da China) e 1025mg (Douda Correria). Desde então, tem colaborado em várias revistas e antologias de poesia. Vive em Lisboa com as suas duas gatas. 

[A irresponsável pergunta]

Maria S. Mendes

 

[A irresponsável pergunta]

 

Perguntar “o que é a relva?”

perguntar o que aponta longe

onde nem o verde

nem o azedo da selva

aprovariam o costume de perguntar

o que é denso

o que se espalha

o que cresce em abundância

em fios de cabelo verde atónitos

que jamais aprovariam

o costume de afastar

o objeto de seu sujeito esverdeado

pela pergunta

a irresponsável pergunta sobre o que é a natureza.

 

Rita Natálio, Plantas Humanas


Rita Natálio é artista e pesquisadora. Vive entre Lisboa e São Paulo. Publicou o seu primeiro livro de poesia Artesanato, pela não edições em 2015, pelo qual foi nomeada para o prémio Novos em 2016. Em 2017, publicou Plantas Humanas, também pela não edições. Faz ainda o projecto Antropocenas, com o coreógrafo João dos Santos Martins.  

Porém nos transportes

Maria S. Mendes

 

Porém nos transportes

temos lugares

imaginados

 

somos publicamente

levados no inverno

de A a B tendo atirado

para longe

para o chão

um cigarro

idêntico ao anterior

 

mas acrescente-se

nunca é coisa vagarosa

um cigarro aliás

só finjo que percebo

o advérbio vagarosamente

 

treme tudo nos mundos possíveis

 

mas voltando atrás

 

estávamos na paragem

com o tal cigarro

idêntico ao anterior

excepto na maneira de morrer

 

passa-se a língua pelos lábios

para chegar ao fim

fechar a conta

a um pedaço de tempo

mas estou em dívida

o meu corpo não se esquece

de me lembrar

 

não administro bem os hábitos

quanto mais

as regulares tristezas

quando pegam fogo

 

em fundo

raízes por fora

viradas para cima

a pedir luz

como também pede o corpo

não se esquece

 

mesmo na sombra

há extraordinariamente cores

a pedir luz

no meio

do negativo

 

os cigarros

serão lâmpadas

sóis

servem

por agora

 

depois é preciso mais

 

mais maneiras

de não sermos

livres frutos desimpedidos

 

tanta sombra

 

a minha fototaxia fode-me

 

mas dizia eu

 

nos transportes

teremos locais imaginados

palavras polaroids

muito escuras

quem não as tem

na esperança de morrer menos

reservar algumas estações

românticas como termómetros

quando o mercúrio deixou

de ligar à sua vocação

de Sísifo

dos pequenos intervalos numéricos

deixou-se ficar ali

ou escapou

para ir morrer longe

ou perder-se da memória

 

ou nela

não há diferença

 

já somos restos

 

se fugirmos a todas as dívidas

fica o quê

 

o autocarro não chega

e o sol põe-se

 

 Miguel Cardoso


Miguel Cardoso vive em Lisboa. Ensina, traduz. Escreve em longos problemas respiratórios. À noite lê Albas e Ruy Belo. A poesia é para esperar por manhãs seguintes. Às terças e sábados levanta-se. Vai à Feira da Ladra.  Ler também aqui.

Adio a hora de me deitar e já hibernas

Maria S. Mendes

 

Adio a hora de me deitar e já hibernas

antecipo o tempo de moldares ao meu ventre os teus joelhos

assentares nas minhas coxas os teus pequenos pés cálidos

pousares-me nas faces as tuas mãos pintadas pela Josefa Ayala

expirares sobre a minha boca o teu hálito sem molares

suspirar-te a adoração que te tenho

sorver-te o odor essencial do paraíso palpável da nuca,

umbigo universal de tudo.

 

Prolongo a saudade para aumentá-la

num arranque acorrentado para a alvorada.

Penso:

o teu pai sofre mais porque nem o gato ronrona quando não estás.

Lembro-me então de que não tenho gatos

e enfrento a repulsa ao sono que nos repara separadas

em terras com geografia elástica

deitadas sobre o mesmo lençol.

 

Acordo com o teu corpo em febre ao meu lado.

Sinto-me uma aprendiza de bruxa

a pegar fogo às labaredas na tentativa de extingui-las

enquanto inundo o quarto num afã de recém-dona de casa.

 

Acordas.

Ofereço-te goles de água,

pergunto-te “Queres abraçar-me?”,

respondes “Não posso tocar em nada

que esteja quente”. Escapa-se-me

o riso clandestino da madrugada.

 

Encaracolas-te ao meu braço

na proporção de um bonobo numa aroeira

como quando me enrolava à minha mãe

- só não sou grisalha.

 

Gostaria de morrer como as oliveiras

que apenas enrugam,

albergar-te sempre.

Tu deitada na sombra argêntea, protegida da canícula.

Tu deitada na sombra argêntea, abrigada da lua fria.

Tu a jogar à macaca com piões a rodopiar por ti acima.

Tu grávida, cuidando de todas as coisas vivas

a brotarem dos teus calcanhares e pulsos,

a tua boca a babar hera como a Primavera renascentista

vestida de cravos rosas centáureas

pés de seda pisando um impossível musgo

inconsciente de seres deusa como só uma.

 

Catarina Santiago Costa


Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Ambos os seus livros, Estufa (2015) e Tártaro (2016), foram publicados pela editora Douda Correria. Participou em edições da Enfermaria 6, Diversos Afins (Brasil), Flanzine e Tlön. A poesia é a lente através da qual vê tudo.