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In Ägypten

Traduções

In Ägypten

Maria S. Mendes

No Egipto, tradução de Claudia J. Fischer e Vera San Payo de Lemos

 

Para Ingeborg

Dirás ao olhar da estranha: Sê a água!

Procurarás no olhar da estranha aquelas que sabes estarem na água.

Irás chamá-las para saírem da água: Ruth! Noemi! Mirjam!

Irás enfeitá-las quando com a estranha te deitares.

Irás enfeitá-las com o cabelo-nuvem da estranha.

Dirás a Ruth, a Mirjam e Noemi:

Vejam, eu durmo com ela!

Irás enfeitar a estranha a teu lado com belos enfeites.

Irás enfeitá-la com a dor por Ruth, por Mirjam e Noemi.

Dirás à estranha:

Vê, dormi com elas!

 

In Ägypten, Paul Celan

 

Für Ingeborg 

Du sollst zum Aug der Fremden sagen: Sei das Wasser!

Du sollst, die du im Wasser weißt, im Aug der Fremden suchen.

Du sollst sie rufen aus dem Wasser: Ruth! Noemi! Mirjam!

Du sollst sie schmücken, wenn du bei der Fremden liegst.

Du sollst sie schmücken mit dem Wolkenhaar der Fremden.

Du sollst zu Ruth und Mirjam und Noemi sagen:

Seht, ich schlaf bei ihr!

Du sollst die Fremde neben dir am schönsten schmücken.

Du sollst sie schmücken mit dem Schmerz um Ruth, um Mirjam und Noemi.

Du sollst zur Fremden sagen:

Sieh, ich schlief bei diesen!

Wien, am 23. Mai 1948

 

Ingeborg Bachmann, Paul Celan, Der Briefwechsel.Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2016. 

 


No dia em que faz 22 anos, a 23 de Maio 1948, Ingeborg Bachmann recebe de Paul Celan este poema acompanhado de uma carta, a primeira de uma correspondência que se prolongou até à data da morte deste, em 1970. Nessa altura, ela era para ele ainda uma estranha; tinham-se conhecido dias antes, em casa de um amigo comum, o pintor surrealista Edgar Jené. As escassas semanas que passaram juntos em Viena antes de Celan partir para Paris, onde acabaria por cometer suicídio 22 anos depois, marcarão, mais do que ela pudesse suspeitar naquela data, as vidas destes dois poetas. Numa carta aos pais, a jovem Ingeborg comenta o fascínio que lhe despertou aquele poeta, acrescentando, em tom ligeiro, que este caiu de amores por ela, o que, nas suas palavras, "é uma maravilha, pois sempre me põe uma pitada de sal numa vida de trabalho sensaborona." O seu quarto está um campo de papoilas, conta ela também aos pais, oferecidas por ele em vésperas da sua partida. 

 

* A tradução deste poema integra-se no projecto de tradução da correspondência entre Paul Celan e Ingeborg Bachmann, bem como entre Paul Celan e Max Frisch e entre Ingeborg Bachmann e Gisèle Celan-Lestrange, a ser publicado pela editora Antígona em 2020. A tradução estará a cargo de Claudia J. Fischer e Vera San Payo de Lemos, com a colaboração de Beatriz Campos. 


Claudia J. Fischer lecciona na FLUL. Escreveu Sobre Graça e Graciosidade. Tem traduzido Thomas Mann, Rilke, Benjamin, Fassbinder, Brecht e, mais recentemente, publicou a antologia Contos Musicais. Wackenroder, Kleist e Hoffmann. 

Vera San Payo de Lemos é docente do Departamento de Estudos Germanísticos e investigadora do Centro de Estudos de Teatro da FLUL. No teatro, trabalha regularmente desde 1980, na área da tradução e dramaturgia, com o encenador João Lourenço. Publicou diversos artigos sobre teatro, sobretudo nos programas dos espectáculos em que trabalhou. Colaborou na tradução e coordenou a edição dos quatro primeiros volumes do Teatrode Bertolt Brecht (Livros Cotovia). Recebeu um prémio pela tradução das peças As Presidentese Peso a mais Sem peso Sem forma, de Werner Schwab, o Prémio da Crítica 2003 e a Medalha Goethe 2006.