Contact Us

Use the form on the right to contact us.

You can edit the text in this area, and change where the contact form on the right submits to, by entering edit mode using the modes on the bottom right. 

           

123 Street Avenue, City Town, 99999

(123) 555-6789

email@address.com

 

You can set your address, phone number, email and site description in the settings tab.
Link to read me page with more information.

 Cerra a serpente os ouvidos

Poemas de antes

Cerra a serpente os ouvidos

Maria S. Mendes

 

Cerra a serpente os ouvidos

 

Cerra a serpente os ouvidos

à voz do encantador; 

eu nam, e agora, com dor,

quero perder meus sentidos.

Os que mais sabem do mar 

fogem d’ouvir as Sereas;

eu não me soube guardar:

fui-vos ouvir nomear,

fiz minh’alma e vida alheas.

 

Francisco Sá de Miranda, “Cerra a serpente os ouvidos”, Florilégio do Cancioneiro de Resende, 4ª edição, selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa. Lisboa: Textos Literários, 1973.

 

Este poema não devia ter sido esquecido porque consegue resumir, em poucos versos, uma intensidade sensorial vívida e única. A originalidade do poema, penso, assenta no referente inicial e exótico, a “serpente”, que resiste à sedução do encantador, mais concretamente à sua voz. A serpente representa a grande oposição ao poeta por ser corajosa e autónoma, sabendo resistir ao som sedutor e atraente. Já o poeta, não; quer perder os sentidos porque estes, principalmente a audição, lhe causaram grande desgraça, fazendo com que se apaixonasse por uma encantadora. Em dois versos visualmente evocativos do mar e das Sereias, e que igualmente constituem um momento de intertextualidade com a Odisseia e o astuto Ulisses (que, “sabendo do mar”, se amarrou ao leme para resistir à tentação do canto das “Sirenes”), o poeta volta a sair-se muito mal na comparação com o mesmo Ulisses. Quer este, quer a serpente souberam “guardar-se”; o poeta, não. Fala do seu erro como se de mera coincidência se tratasse, quase dizendo “ouvi-te por acaso, calhou”. E talvez seja isto mesmo o amor apaixonado, um erro que acontece, que calha, e quando damos por nós já as Sereias nos tentam afogar. O poeta enuncia o seu erro, que quase quer fazer passar por trágico, da seguinte forma: “fui-vos ouvir nomear”. Não há palavras, para além do verso, para descrever a beleza do próprio. Não admira que Sá de Miranda fosse tratado por “Doutor”, a escrever assim. 

Embora o tom do poema não seja na verdade trágico nem triste, o poeta fala do seu amor como se de um efectivo erro trágico se tratasse, no sentido em que, no momento em que dele teve consciência, era já tarde para o corrigir – tudo perdido, “fiz minh’alma e vida alheas”. De notar que o sujeito dos três últimos versos é o poeta, que assume, assim, as consequências do seu erro. A consequência foi apaixonar-se pela encantadora de serpentes. Haverá, com certeza, destinos piores. 

Este poema é inesquecível pelo seu universo referencial (a serpente, o mar, as Sereias) e pela intertextualidade (com a Odisseia e Ulisses), bem como pelo poder sensorial da audição -  o poeta apaixona-se não devido à visão e à beleza da Senhora, mas sim pela beleza da sua “palavra”, da sua “nomeação”, que cometeu o erro de ouvir. A originalidade do poema está também na forma como a atracção pela Senhora se configura, parecendo mais intelectiva do que aquilo a que normalmente estamos habituados. 

Assim, o amor é um erro intelectual. Torna-nos mais baixos do que a inteligente serpente, e feridos pelo canto das Sereias. A vantagem é que também dá origem a grande poesia, o que compensa.

Rita Faria 


Rita Faria é professora na Universidade Católica Portuguesa, não sabe fazer mais nada sem ser ler e escrever e não quer fazer mais nada sem ser ler e escrever. Fora isto, gosta de filmes de terror, vampiros, fantasmas e zombies em geral. E considera que o português é a língua mais engraçada do mundo.