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Na boca 

Poemas de antes

Na boca 

Maria S. Mendes

 

Na boca 

 

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:– Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados

Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:  – Na boca! Na boca!

 

 

Manuel Bandeira, “Na boca”, Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

 

Recentemente um amigo, a quem numa conversa ao almoço falei do final deste poema, disse-me a rir que achava que, deles todos (leia-se, dos poetas brasileiros), o Bandeira era sem dúvida o mais brejeiro. Lembrei-me logo daquela descrição quase alucinada que Bandeira faz, na extraordinária autobiografia poética que é o “Itinerário de Pasárgada”, da sua hesitação em publicar dois versos do poema “Infância”, que acaba por incluir só depois de um “sacerdote” lhe assegurar que era tudo “Muito inocente, muito inocente” (os versos eram “Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa / e ofegante, para um desvão da casa de dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete”). Percebi então de onde me vinha a certeza antiga de que, no meio de tantos poemas magníficos do Libertinagem, este não devia ser, ou não devia ter sido, esquecido. É que em nenhum outro é tão claro, como neste pequeno tratado sobre as condições da enunciação em poesia, o vínculo entre dicção poética e paralipse. Tudo ali está suspenso, tudo ali está entre aspas: os três dias do Carnaval, o efeito do álcool e do éter, a pequena narrativa do “ano passado” a modalizar a exclamação “Quem me dera ser como o rapaz desvairado!”, o eco das cantigas que não ouvimos mas que estão lá desde o início (“Dorinha meu amor...”) e, sobretudo, a pureza das mulheres como excepção exclusiva. Porque tudo se encaminha para o espantoso verso final, um daqueles longuíssimos versos tão típicos de Bandeira, em que num só gesto as condições para a enunciação do título do poema se acumulam, umas sobre as outras, em dissociação vertiginosa – mulheres existentes e inexistentes, puras e impuras, poetas e viciados, interior e exterior –, fazendo da explosão “Na boca! Na boca!” ao mesmo tempo repetição, citação e preterição, grito impronunciável a não ser no regime irreversivelmente modalizado do condicional negado. Percebe-se assim que todo o poema se joga na rima entre “aquilo que não se pode dizer” e o que se pode, deste modo, escrever; ou talvez, mais simplesmente, que o poema não saiu nunca do interdito por onde começou: “Na boca”.

Clara Rowland


Clara Rowland é professora na Universidade Nova. Leu uma vez uma entrevista em que Truffaut contava que sabia de cor, dos filmes que via em miúdo, tudo o que lhe chegava aos ouvidos: palavras, música, ruído. Pareceu-lhe a descrição de uma relação com a leitura.