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Siringe - III

Poemas de agora

Siringe - III

joana meirim

 

Siringe - III

 

Ferramentas sujas, grelhas justas,

justificações – não queria justificar

nada, apenas dizer: vejo. Ou então: sei.

A face exterior do lado de dentro

não se distingue da

face interior do lado de fora;

fina membrana, a mesma vibração.

 

Pensava nesse órgão tradutor usado pelas aves: siringe,

o lado de dentro do lado de fora do pássaro,

que é obviamente este onde estou,

estamos. O lado que não canta senão mimeografado.

 

Siringe: equacionar a questão de saber se as aves

são canoras apenas porque sem elas o mundo

não cantaria. A beleza do mundo precisa de aves,

banda-sonora? Um arco de violino no rebordo da mesa

faz vibrar ínfimos grânulos sobre a superfície lisa, e

eles desenham padrões geométricos, arrumam o espaço.

Nós, não. Muitas vezes, não. Gritos e mais gritos na desordem

dos vidros partidos, tiros, granadas, explosões. 

 

Schön, shine, a mesma origem; brilho, beleza.

 

Os ralos não têm siringe. O que escondem

de semelhante sob as asas? Quando cantam

a luz fica mais prateada,

mesmo se são duas ordens distintas de acontecimentos.

 

Começava a entender um pouco melhor?

Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas.

O som das turbinas do avião mantinha-nos no ar,

vibrava. A esta altura já nenhuma ave canta; e todavia, imitamos assim

a siringe das aves, as asas dos ralos, desajeitadamente, roucamente.

A seringa recolhe, transporta, inocula. Matéria

contra matéria na deslocação do ar; nós, que não somos daqui,

que talvez tenhamos vindo mesmo só para isto:

o espanto e a tradução.

 

Maria Rosa Martelo, “Epílogo”, Siringe. Lisboa: Averno, 2017.  

Este poema de Rosa Maria Martelo é a parte III de “Siringe” - um poema dividido em cinco partes, sendo o Epílogo da obra homónima que foi editada pela Averno em 2017 e que inclui dois textos publicados anteriormente: A Porta de Duchamp, de 2009, e Matéria, de 2014 – e eu li-o como um poema que me fala sobre poemas. Esta é a razão principal por que eu gosto deste poema.

Li-o, então, como um poema de reflexão a partir de “notas” – “Um ano depois, a sete mil metros de altitude, lia estas notas” –, um poema que (se) pensa. A ligação a uma poesia consciente, que convoca, por exemplo, a ideia de referência, criando-a ao exibir os seus próprios processos, é afirmada no poema que constitui a parte II de “Siringe”. A afirmação surge aí através de um nome e de uma oração relativa que, como acontece ao longo das cinco partes do Epílogo, sobrevoa fronteiras linguísticas: “um certo Cabral de Melo who knew / about it”. No caso, trata-se de escrever poesia que não seja “toda ela cantoria”, exigindo o método de pôr “duras pedras na boca”.  Poesia e canto – a ligação surge antes, com a referência ao terror da ninfa Syrinx transformado nas “canas ligadas da flauta de Pã”.  

Em III, a palavra “siringe” adquire o significado de “órgão tradutor usado pelas aves”, descrito na parte I como um “túnel por onde passa o ar, / o sangue, vento; alguma coisa das nuvens”. Eu leio e penso numa questão: se as aves forem a banda-sonora do mundo, o que fazemos nós, que estamos nele, “do lado de fora do pássaro”? Quase sempre, gritamos – “gritos e mais gritos na desordem” – e, sem siringe nem asas, imitamo-las “desajeitadamente”, no avião que nos mantém acima do chão, no ar, onde não pertencemos.

Nós não temos a “fina membrana”, com face exterior e interior indistintas. A imitação desajeitada e rouca do voo faz-me pensar numa forma de descrever o desejo de estarmos lá, nas alturas, traduzindo impressões do mundo, sem “ferramentas sujas". Vestígios de uma aspiração romântica ou metafísica?

Ao mesmo tempo, falar, por exemplo, no “lado de dentro do lado de fora do pássaro" – localizando assim o túnel anatómico que traduz em canto a vibração do mundo – é questionar um certo modo (lógico) de produzir raciocínios sobre estas coisas. Assim, pensando, vou/voo até ao primeiro poema de Siringe: aberta e fechada, a porta de Duchamp será, ainda, uma porta?

Ana Sofia Couto


Ana Sofia Couto (n. 1981) é professora na escola Salesianos do Estoril. Nos anos em que preparou o doutoramento, interessou-se por dois grupos de poetas: os que têm aspirações metafísicas e os que se riem das ambições dos primeiros. Entretanto, viu três vezes a série The Wire. A sua filha tem 15 meses e gosta muito de dizer a palavra “borboleta”.