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Galleria dell’ Accademia

Poemas de agora

Galleria dell’ Accademia

Maria S. Mendes

 

Galleria dell’ Accademia

 

Humilhados, consumidos, ovelhunos

Que perversa compulsão atrai os filhos

De Golias, o guerreiro filisteu,

À presença do fanático David?

 

Numa órbita pastosa e fatigada,

Sonolenta, vão cumprindo a penitência

Da rodagem cultural, electrizados

Por uaus de trovejante aborrecimento.

 

Dão voltas e mais voltas à cabeça,

Tronco e membros do herói, avaliando

Pela altura dos seus ombros sua própria

Pequenez, a decadência comum.

 

Quando saem combalidos, desagravam-se

Em gelados de três quilos, endireitam

O chapéu com um suspiro, ganham ânimo

E prosseguem rumo ao próximo vexame.

 

José Miguel Silva, Erros Individuais. Lisboa: Relógio D’Água, 2010.

 

Gosto deste poema pela justeza dos adjectivos nele presentes. Não se pense que esta justeza se refere à exactidão de uma descrição realista dos fenómenos ocorridos neste museu; refere-se antes a uma lógica interna, onde cada adjectivo se torna indispensável para a compreensão do poema.

A monumentalidade do Davidde Michelangelo Buonarroti faz dos visitantes seres “humilhados”, pequenos, rebaixando-os a uma condição inferior, pois passam a ser ovelhas do rebanho do pastor David, aqui classificado como “fanático”, não só porque é o líder inspirado de um povo, mas também porque é feito de pedra e, por isso, rígido e inflexível. O que causa espanto ao poeta é a perversidade da compulsão que ali atrai os “os filhos de Golias”. Esta compulsão é “perversa” porque é “às avessas”, contrária ao que seria expectável, uma vez que os descendentes da vítima admiram o assassino do seu pai, o “guerreiro filisteu”. Mas porque são filisteus estes turistas? Primeiramente, porque não são israelitas e, por isso, a sua relação com esta obra de arte é de natureza exclusivamente estética. Em segundo lugar, são “filisteus” no sentido em que “filisteu” é todo aquele que não tem um gosto artístico próprio, aquele que segue o gosto da maioria, do rebanho. O poema é uma reflexão sobre este modo grosseiro de o homem se relacionar com a arte.

A segunda estrofe mostra que à volta do Davidos indivíduos deixam de o ser. Tudo é plural e indistinguível. Num plano físico, existe uma amálgama indecifrável (“pastosa”) gerada pela repetição de um movimento orbital que não prima pela vivacidade (“fatigado”, “sonolento”). Os laivos de actividade individual existentes não o são deveras, pois cada uau é mais o eco de outro uaudo que uma expressão própria. A amálgama física é, assim, acompanhada por uma amálgama sonora, semelhante a uma trovoada, em que expressões de deslumbramento não se distinguem de bocejos. Sugere-se, então, que, por mais barulho e movimento que produza, este ritual “cultural” é incapaz de gerar a electricidade necessária para resgatar os turistas do estado amorfo e acéfalo em que se encontram. 

Não é, aliás, por acaso, que a estrofe seguinte começa com um verso ambíguo que só é esclarecido por aquele que lhe sucede. As voltas que os touristesdão à cabeça parecem indicar uma actividade mental frenética até se perceber que, afinal, essas voltas são dadas à cabeça da estátua e que o único tipo de raciocínio feito perante o Davidconsiste na comparação entre a estatura do corpo humano e a estatura da escultura, o que leva à conclusão trivial de que o “herói” supera o “comum”. 

Reduzindo o contacto que estabelecem com o Davida um combate de proporções, como outrora o fizera Golias, os visitantes saem “combalidos”. A vingança possível (o desagravamento) dá-se através da reparação de um estado original, o de consumidor, do qual a presença monumental do Davidos tirara, daí que os “consumidos” do primeiro verso precisem de comer gelados colossais para se redimensionarem e continuarem a sua penitência numa peregrinação cultural vexatória, pois essa é a única maneira que conhecem de prestar culto à Cultura.

Jorge Almeida


Jorge Almeida é licenciado em Estudos Portugueses e doutorando no Programa em Teoria da Literatura (FLUL). Escreve crítica literária no Observador. Sabe de cor um poema de Cesário Verde e versos avulso de outros poetas, mesmo não se tendo esforçado para que isso acontecesse.