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Vem, noite coisíssima e pindérica!

Poemas de agora

Vem, noite coisíssima e pindérica!

Maria S. Mendes

 

Vem, noite coisíssima e pindérica!       

Vem, noite de copos, noite de loucos,

estou só e sem inspiração.

Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia

para ditar uns carmes.

Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,

vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.

 

Noite de Natal, noite de cristal,

noite dos Óscares, noite da Iguana,

noite dos museus,

apanha o primeiro táxi e vem.

Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.

Vamos os dois corrigir o mundo

com moscatéis e valeriana.

Confia em mim.

Sou forte, sou vigoroso, Senhora!

O deboche sabe-me de cor.

O meu nome é Simão, o apelido Budoar.

Os meus olhos, duas alfaces.

 

Sou jovem, um bezerro, Madame!

Tenho por alimento mamilos de galáxias.

Por Deus, um computador.

Assim, sem roupa, pareço perigoso.

Mas se me vir de robe,

não passo de um criminoso meigo

que faz cócegas à sua presa

e sabe canções de embalar.

 

Golgona Anghel,“Vem, noite coisíssima e pindérica!”, Nadar na piscina dos pequenos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2017.

 

VemXYeZ

Diferentemente da crença instalada de que os escritores são os autores dos textos, pode às vezes pensar-se que certas coisas prévias aos escritores vão possuindo alguns deles e por esta via vão ganhando forma textual.

Uma dessas coisas pode chamar-se abreviadamente VemXYeZ ou, em modo analítico, Vem, X (substantivo feminino singular), Y (adjectivo feminino singular no grau superlativo absoluto sintético) e Z (adjectivo feminino singular no grau normal). As histórias que os textos assim gerados vão construindo uns com os outros têm um ar linhagístico, na medida em que cada escritor possuído parece, apesar de tudo, conservar memória dos escritores anteriores ou de anteriores episódios de possessão. Na história linhagística que aqui importa, o fundador será Álvaro de Campos, o seguidor é Cesariny e, além de desvios de escritores como Raúl de Carvalho, a recém-chegada é Golgona Anghel. 

A forma que VemXYeZ ganhou por Pessoa está alinhada com desejos de fusão a reboque da experiência óptica que deu origem à expressão “de noite todos os gatos são pardos”. A forma que recebeu por Cesariny, para quem a fusão de que Pessoa fala não é aquela, está alinhada com a exaltação sexual do corpo. A forma que obtém por intermédio de Golgona Anghel é a de uma canção de engate entoada à musa pelo sujeito do poema.

A canção é constituída por um catálogo de técnicas de engate (de gosto e eficácia incertos) que incluem a provocação (do género da citação tauromáquica), o apelo à compaixão, o pedido de clarividência, o rogo de embriaguez, o exercício anafórico de tiro ao alvo onomástico para ver se se acerta (“Noite de Natal”; mais à direita: “noite de cristal”; um bocadinho mais abaixo: “noite dos Óscares”; outra vez um tudo-nada à direita: “noite da Iguana”; etc.), a promessa de que juntos (escritor e musa) podem fazer uma parelha transformadora do mundo, a auto-apresentação insinuante, a súplica por um instrumento de escrita. 

Dotado de forma própria, o poema conserva a memória de Campos e de Cesariny à vista, por exemplo, do deleite enumerativo e dos traços de uma coloquialidade prosaica, mas o motor parece ser a declinação especial da experiência óptica referida no poema fundador: de noite, porque são pardos todos os candidatos a musa, o melhor será disparar em várias direcções a ver se pega.

Não sabemos se a tentativa de blind date resultou.

P. S. 1: é discutível se o poema pertence verdadeiramente à série “VemXYeZ” nos termos inicialmente descritos. Como diz o Professor José Maria da Costa, “[o] superlativo absoluto sintético (…) é grau privativo de adjetivos (que encerram a ideia de qualidade), jamais de substantivos (palavras que dão nomes aos seres); e “coisa” é sabidamente um substantivo, não podendo, por conseguinte, sofrer tal variação em grau”. A não ser de noite, claro. 

P.S. 2: gosto deste poema porque ele nos mostra a todos, entre a tentativa de obra e a petição da graça, a nadar na piscina dos pequenos.

João Dionísio


João Dionísio dá aulas de Literatura Portuguesa e de Crítica Textual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.