Formigas / ou / A morte explicada às criancinhas
Maria S. Mendes
Formigas
ou
A morte explicada às criancinhas
1
Vê-se primeiro uma só formiga.
Parece perdida, enleada nas ervas,
movendo-se indecisa atrás e adiante,
sem saber muito bem que direcção tomar.
Lembra um turista que não sabe
em que país se encontra
nem entende a língua que ali se fala,
e procura orientar-se consultando um guia hostil
num lugar hostil.
2
Mas na verdade a formiga não está só.
Reparando melhor,
vêem-se por perto mais duas ou três,
com a mesma aparência irresoluta
e igualmente em busca de um sentido
para a sua errância —
— porque há uma voz que as amotina,
lhes fala de um destino prometido
às formigas desde o início de tudo.
3
Só mais tarde se percebe que essas poucas
formigas desgarradas fazem na verdade
parte de um plano inexorável
e anunciam o que está para chegar.
Elas são as batedoras
de um exército zeloso de milhões de formigas
que vão sem se deter aonde aquela voz
as leva: rato morto ou boião de compota.
Tudo o que é comestível
é um destino.
4
Como nada há na natureza que não tenha
um sentido encoberto, ou que não seja
espelho de alguma coisa mais vasta
e mais severa —
— estas formigas rapaces e em tropel,
que cumprem ordens sem cuidar de quem as dá,
são na verdade uma recordatória
de que, por mais venenos que se inventem,
por mais refúgios,
estamos indefesos contra elas,
seremos invadidos, subjugados,
pereceremos entre as tenebrosas
peças bucais da Formiga-Mor.
A.M. Pires Cabral
[Nota: este poema integra o próximo livro de poesia do autor, a publicar em breve.]
A. M. Pires Cabral. Entre o livro de estreia (Algures a Nordeste, 1974) e A Noite em que a Noite Ardeu (2015), publicou outros 15 livros de poesia. Prémios de poesia: “D. Dinis” 2006; “Luís Miguel Nava” 2009; PEN Club 2010; e SPA 2014. Traduzido para alemão, inglês, castelhano e italiano.